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Um escultor e três temas

por Orlando Margarido — publicado 16/03/2012 12h21, última modificação 17/03/2012 11h26
Alberto Giacometti representou com liberdade a figura humana, revista em retrospectiva
Giacometti

Parcimônia. O escultor aos 60 anos, no estúdio parisiense, e as obras Homem Caminhando I e Composição Surrealista. Foto: Jean-Régis Roustan/AFP

Em uma das lições caseiras do pai, dedicado pintor impressionista, o jovem Alberto Giacometti (1901-1966) foi desafiado a reproduzir na tela objetos no tamanho conforme eram e os via. “Desenhei algumas peras à distância normal de uma natureza-morta e elas sempre ficavam minúsculas. Meu pai se irritava, eu recomeçava, apagava, corrigia, e elas permaneciam iguais às primeiras”, lembraria anos mais tarde o escultor já célebre. A condição de nunca conferir ao que esculpia, pintava ou desenhava as medidas reais seria imperiosa a este suíço-italiano tomado por uma visão própria e imaginária do mundo. Tal liberdade de formas lhe causou tanto a rejeição quanto a exaltação num período de vanguardas europeias, além de uma privilegiada marca artística.

Suas figuras humanas em pé, esquálidas e de altura habitual à nossa, por vezes exagerada, em contraponto direto com a superfície delgada e rugosa do bronze, tomam a Pinacoteca do Estado de São Paulo a partir de 24 de março. Serão 280 os trabalhos expostos, entre eles 80 esculturas e outro tanto em papel, 40 pinturas e 56 fotografias, além de documentos, numa iniciativa do mesmo porte que valeu a Auguste Rodin e Henry Moore o status de escultores mais visitados da instituição quando da passagem de suas obras por ali, em 1995 e 2006. Não por acaso, são nomes que traduzem em empatia e fácil identificação o seu legado.

Contudo, diferentemente do ocorrido com os colegas francês e inglês, uma peculiaridade notória de Giacometti foi o fato de não ter se dedicado a mais do que três temas na escultura. Um busto de homem, um nu masculino e outro feminino, de pé e parado, quase sempre tomado de frente, constituem as modalidades que a partir de 1935 centralizam a carreira do artista, segundo o estudioso David Sylvester, a quem Giacometti relatou o “trauma” das peras. Dele, a editora Cosac Naify lança Um Olhar Sobre Giacometti, coletânea de textos e entrevistas de 1994. Para Sylvester, não passa de uma dúzia a quantidade de peças produzidas fora desse escopo temático. “Seria difícil imaginar outro escultor ocidental moderno com tamanha parcimônia de temas”, aponta em escrito de 1959.

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