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Um elogio à inteligência no Festival de Serrinha

por Rosane Pavam publicado 05/07/2015 09h36
Benjamin Taubkin fala sobre sua curadoria musical no Festival Arte Serrinha e sobre seu trabalho distante dos editais
Divulgação
mayra-andrade

A cantora cabo-verdiana Mayra Andrade estará em Serrinha

O Festival Arte Serrinha chega a sua 14ª edição, sob a curadoria de Fabio Delduque, com o tema Ressonhar mundos. Por quase um mês de atividades, acontecem workshops, shows, exposições e mesas-redondas nas áreas de fotografia, música, moda, dança, artes cênicas e visuais. Neste ano, o inédito é uma residência artística de dez dias para músicos com Benjamim Taubkin, Jaques Morelenbaum e Marcos Suzano. Marcelo Machado, diretor de Tropicália, documentará a experiência em um filme.

Taubkin convidou profissionais na fronteira entre os universos erudito e o popular, como Kyungso Park (Coreia), Sahib Prazhade (Azerbaijão), Antonio Arnedo (Colômbia) e Sacha Ambak (Rio de Janeiro). “Por várias razões, temos nos aproximado mais destes músicos e de suas culturas”, diz. “Os músicos brasileiros que se dedicam seriamente à criação têm o desejo desta aventura que é o encontro. Mas isto, em geral, acontece fora da indústria.

Criador do Núcleo Contemporâneo, próximo de fechar suas portas mas salvo por um grupo de admiradores, Taubkin evita trabalhar com patrocínio e editais, buscando o envolvimento perene da sociedade, como nos EUA. "A minha utopia (e busca) é em direção à construção de um mercado real da cultura, onde o produto seja integralmente a obra de um autor, com meios de sustentar esta criação.”

Existe um discurso de urgência, diz, que perde a visão do todo. "Acho que o mundo está um pouco burro... e não está se dando conta disto.”

CartaCapital: Gostaria de entender como você orientou sua curadoria para o festival da Serrinha. Me parece que entre tantos músicos interessantes e promissores convidados, apenas Mayra Andrade, que lançou disco aqui, tem algum contato com o público brasileiro. São músicos populares, em sua maioria? Ou eruditos? Você os conheceu em seus locais de origem?

Benjamin Taubkin: O Fabio Delduque, curador do festival, convidou o Marcos Suzano, o Jaques Morelenbaum e eu - e cada um de nós convidou alguns artistas; a soma destes convites é o que vai compor a grupo desta residência. A Mayra é uma convidada do Jaques. Eu convidei a Kyungso Park, da Coreia; o Sahib Prazhade, do Azerbaijão; o Antonio Arnedo, da Colômbia; além do Sacha Ambak, grande músico do Rio de Janeiro. Estive na Coreia algumas vezes - aonde conheci a Kyungso - e também no Azerbaijão - aonde me encantei com a imensa qualidade da música que eles fazem. É algo muito especial.

O Antonio é um importante músico colombiano, que conhece a música do Brasil. Mas se dedica a desenvolver uma linguagem instrumental colombiana. Tocamos juntos - tanto no Brasil como lá. Creio que todos se encontram nesta fronteira entre o universo erudito e popular. A música tradicional da Coréia e do Azerbaijão são música eruditas - assim como é a música da Índia. Mas ao mesmo tempo estes músicos improvisam e experimentam outras linguagens. Da mesma forma o Arnedo ou o Sacha - transitam por estes mundos.

CartaCapital: Como você organizará workshops para o público dentro do festival?

BT: Bom, vou colaborar nesta parte. Creio que poderemos mostrar um pouco do nosso processo de trabalho e apresentar as características de cada música e cultura. Me parece um processo rico.

CartaCapital: Usualmente nós, brasileiros, não estabelecemos um intercâmbio intenso nem mesmo com aqueles compositores da África de língua portuguesa. E me parece que, em direção contrária, eles muito sabem sobre a produção musical do Brasil. Ainda é esta a situação entre dois lados do mundo que tanto poderiam usufruir de trocas de conhecimento? E por quê?

BT: Acho que por várias razões temos nos aproximado mais destes músicos e de suas culturas. Uma delas é uma espécie de fluxo global de artistas. Os encontros vão se dando e mais trocas tem acontecido. Os músicos brasileiros - aqueles que se dedicam seriamente à criação - têm o desejo desta aventura que é o encontro. Mas isto em geral, vai acontecer, fora da indústria. Cabo Verde tem organizado anualmente um mercado cultural e um festival - estive lá em 2010, quando o Jaques Morelenbaum esteve também. Participei de uma residência com artistas da África do Sul. E outra com músicos do Marrocos. Gravamos ambos projetos. Acho que os intercâmbios vem crescendo sim. Aqui no nosso continente também- e isto já é bem promissor. 

Benjamim-Taubkin
O pianista Benjamim Taubkin, atração do 14º Festival Arte Serrinha

CartaCapital: Recentemente você nos informou que interromperia, ou cessaria, as atividades do Núcleo Contemporâneo, uma referência musical para o público brasileiro. Imagino que as razões tenham sido financeiras, administrativas também, e de foro particular, uma vez que as atividades lhe consumiam um tempo que você poderia gastar fazendo sua própria música. Mas, aparentemente, o Núcleo não fechará. O que mudou?

BT: Trabalho muito tocando, ensaiando, produzindo, programando - tanto aqui como em outros países -, e administrando o espaço - que é a Casa do Núcleo. Na segunda metade de 2014 viajei - um tanto sem parar - e participando de diferentes projetos musicais. Quando o ano terminou, senti que precisava parar por um tempo. Não de tocar, mas precisava de um descanso das atividades da Casa. Como o imóvel é alugado, ficou inviável parar por 3 meses. Assim decidi terminar, ao menos por um tempo, o projeto do espaço.

Foi quando apareceram algumas pessoas que acompanhavam a programação e decidiram apoiar o projeto, mesmo com este intervalos de alguns meses. Este apoio viabilizou a manutenção do espaço, bem como a sua volta. Criamos a Associação Amigos da Casa, e estamos buscando uma sustentabilidade um pouco diferente do que existe por aqui- já que evitamos trabalhar com patrocínio e com editais. O nosso modelo se aproxima mais do que existe nos EUA - que busca o envolvimento da sociedade. Não é exatamente um crowdfunding, é mais perene. Mas basicamente dependemos dos recursos gerados pelo nosso trabalho. 

CartaCapital: Você tem uma atividade que me parece incessante no sentido de refletir e buscar alternativas de sobrevivência para o músico brasileiro, esse que tantas vezes parece voltar a uma situação anterior ao estabelecimento do capital, como se tocasse para mecenas em troca de um prato de comida, na cozinha dos príncipes... O que a seu ver originou este estado de coisas? E como tem reagido a isso as instâncias governamentais? Os músicos se tornam dependentes de um novo sistema, o dos editais?

BT: Acho a pergunta bastante pertinente. A minha utopia (e busca) é na construção de um mercado real da cultura- aonde o produto é integralmente a obra de um autor- e existem meios de sustentar esta criação. O que acontece é que a cultura é hoje o campo aonde todos querem se fazer presentes. E há esta mistura com o universo do entretenimento - os canais de distribuição são muitas vezes os mesmos- rádio, televisão, verbas de patrocínio. O que vemos na verdade é que há muito dinheiro circulando. Grandes festivais. Grandes corporações.

As restrições de acesso às mídias - seja por compra de espaço, seja por má distribuição dos veículos. Assim, o artista hoje é apenas uma das peças desta imensa engrenagem. Da qual ele, em geral, compreende muito pouco o funcionamento. E neste sentido os apoios, na forma de editais, viram uma tábua de salvação para uma grande parte destes criadores. Acho que os editais deveriam atuar no processo, buscar alternativas de produção, distribuição, difusão, e não premiar na ponta porque gera sim dependência. Mas não creio que há uma visão esclarecida do papel do estado e das empresas na construção da cultura hoje - no mundo em geral - não apenas no nosso país.

Falta tempo de reflexão e uma visão mais coletiva do processo. Existe um discurso de urgência, que perde a visão do todo, e que se traduza em iniciativas mais consistentes e inteligentes. Acho que o mundo está um pouco burro...e não está se dando conta disto.