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Um documentário comovente

por Celso Marcondes — publicado 28/08/2009 15h46, última modificação 19/08/2010 15h48
Entrou em cartaz em São Paulo e no Rio de Janeiro o documentário “O Milagre de Santa Luzia”, do diretor Serge Roizenblit.

Entrou em cartaz em São Paulo e no Rio de Janeiro o documentário “O Milagre de Santa Luzia”, do diretor Serge Roizenblit.

A sanfona é a “grande amiga”, segundo os músicos que comparecem aos encontros com Dominguinhos. Ele percorre o Brasil, de Exu, em Pernambuco ao Rio Grande do Sul, - sempre de caminhonete, pois morre de medo de avião - mostrando como a sanfona adquire as mais distintas influências das culturas regionais que fazem o País.

“Milagre de Santa Luzia” porque foi num 13 de dezembro, dia de Santa Luzia, que nasceu “o rei do baião”, Luiz Gonzaga, o mais importante sanfoneiro que o Brasil já teve e do qual Dominguinhos é o maior herdeiro.

“O homem jamais se acostuma com as tragédias que o rodeiam. O sertanejo, não”, relembra o filme logo no seu início, citando Euclides da Cunha, em “Os Sertões”, para dizer que a sanfona é o instrumento que melhor representa o homem do sertão nordestino. E que, ao mesmo tempo melhor expressaria o sentimento de dor do retirante, “da dor de não poder voltar”, diz-se num momento. “Asa Branca”, do próprio Luiz Gonzaga, com o seu “quando vi a terra ardendo qual fogueira de São João”, seria a melhor evidência desta tese.

Mas os ritmos e as formas distintas de tocar que vão surgindo na tela acabam por comprovar a versatilidade do instrumento e dos artistas brasileiros em cada região. Do grupo de vaqueiros, dos pantaneiros em Mato Grosso. Vamos do forró ao bailão em Goiás, passando pelas influências do “bandoneon” argentino e paraguaio ou da “gaita” italiana no Sul – onde seremos apresentados ao “fandango” e ao “bugio” – chegando a São Paulo da “música caipira”, do jazz de Toninho Ferragutti e do aporte, até, da cultura árabe.

Renato Borghetti, Oswaldinho do Acordeon, e dezenas de artistas tocam e contam um pouco dos seus conhecimentos sobre o instrumento, com destaque para os depoimentos históricos de Sivuca, Patativa do Assaré e Mario Zan, os três já falecidos

Porém é de um artista menos conhecido, o Pinto do Acordeon, a contribuição mais divertida do filme. Ele fala da noite, em que dando um show, foi “persuadido” por um ouvinte mais exigente a cantar em inglês. Sua versão de “New York, New YorK” que sai daí já vale dois ingressos (e um chopinho depois).

Este documentário comovente, que ganhou o prêmio de Melhor Trilha Sonora no 41º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro só deve ser evitado por quem não gosta do instrumento. Mas, mesmo esses, se resolverem enfrentar o preconceito, terão bons motivos para mudarem de ideia.