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Um começo com pé direito, outro com pé esquerdo

por Antonio Luiz M. C. Costa publicado 29/03/2010 17h41, última modificação 08/09/2010 17h43
A Editora Draco, lançou mais dois de uma série de títulos nacionais de fantasia e ficção científica: Annabel & Sarah, de Jim Anotsu (152 págs., R$ 30,90) e O Desejo de Lilith, de Ademir Pascale (136 págs, R$ 28,90). Ambos os textos são de iniciantes no romance, embora o segundo autor já tenha publicado contos e organizado coletâneas.

A Editora Draco, lançou mais dois de uma série de títulos nacionais de fantasia e ficção científica: Annabel & Sarah, de Jim Anotsu (152 págs., R$ 30,90) e O Desejo de Lilith, de Ademir Pascale (136 págs, R$ 28,90). Ambos os textos são de iniciantes no romance, embora o segundo autor já tenha publicado contos e organizado coletâneas.

O primeiro tem pontos fracos, mas talento e criatividade mais que satisfatórios para um autor adolescente, que escreveu seu livro enquanto completava o ensino médio e este ano é calouro em uma faculdade de Letras. “Jim Anotsu” é um pseudônimo, adotado por exigência de uma família religiosa e conservadora (o romance nada tem de impróprio para menores, mas as heroínas não foram concebidas como modelos de bom comportamento).

Annabel & Sarah é uma história de duas gêmeas adolescentes muito diferentes que se detestam, até que uma delas é raptada para um universo paralelo e a outra, impulsionada pelo senso de dever ou por um afeto que recusava a reconhecer, vai em seu socorro e cai em outro mundo fantástico.

O romance flui bem, é leve, divertido e original. O texto da contracapa o relaciona a Alice no País das Maravilhas de Lewis Carrol, mas o ambiente é de fantasia urbana e o tema de desafio e amadurecimento juvenil lembra mais A História de Chihiro e obras de Neil Gaiman, como A Máscara da Ilusão, Stardust eCoraline. Daria um bom roteiro para uma animação de Tim Burton.

Essas comparações não devem ser entendidas em prejuízo da originalidade da trama, que não pode ser considerada uma mera imitação. São duas aventuras paralelas, uma cheia de referências irônicas à cultura beat em ritmo de romance policial hardboiled (Annabel), outra uma sátira da cultura de autoajuda em clima de distopia orwelliana (Sarah), ambas diferentes de outras obras semelhantes tanto isoladamente quanto por sua combinação. Embora o alvo seja claramente o público infanto-juvenil, essas alusões irônicas podem bem divertir um leitor mais adulto e escolado, tanto quanto as de Carroll a paradoxos da lógica e da linguagem.

Senso de ironia e de fantástico não faltam. Sarah cai na cidade de Allegria, onde a felicidade é obrigatória, pela lei da ditadora Gioconda. Uma amostra do que vê ao chegar:

“Os habitantes da cidade eram bizarros e pareciam deveras envolvidos com essa celebração. Os homens usavam sorridentes máscaras brancas em forma de bico, casacos largos e capas de seda sobre os ombros. As mulheres deslumbravam em alegres estampas, lenços multicoloridos e corpetes de couro. Em quase todos os postes havia ao menos um cartaz com a foto de uma velha gorda com lábios borrados de batom vermelho e a seguinte legenda: ‘GIOCONDA VÊ VOCÊ! VOCÊ ESTÁ FELIZ ?’.” (pág. 37).

A irmã, por sua vez, chega a uma cidade de nome beat, na companhia de um malandro chamado Dean Chinaski, “uma grande raposa em pé sobre duas patas. Vestia calças jeans surradas e sujas. Sapatos desgastados, uma camisa branca e uma jaqueta preta de couro. Os pelos da cabeça estavam penteados para trás e brilhavam por causa de algum gel usado”. Vai com ele à procura do detetive Op Spade – um lobo –, o único capaz de ajudá-lo a encontrar a irmã:

“Kerouac era uma cidade estranha e cinzenta. Repleta de becos labirínticos e sombrios, enfiados por entre prédios que se destacavam contra o céu. Restos de comida estavam espalhados pelo chão enquanto o vento frio da noite empurrava velhos jornais amarrotados. Vapores escapavam dos bueiros e perfumavam as ruas com o cheiro da podridão, que era oferecida com estardalhaço pelos anúncios em néon. Mendigos se aglomeravam pelas ruas ao mesmo tempo em que filhotes corriam em bandos roubando a carteira de desavisados. A urbe era uma velha feia e gorda, a boca aberta repleta de dentes podres. Oferecendo carinhos envenenados na horrível e encantadora madrugada. Cidade vasta. Infértil. Um bom lugar para uma bebida”. (pág. 61)

Para que fosse um romance juvenil realmente bom, faltou acabamento. Como se pode notar pelos exemplos citados, faltou elegância e um melhor domínio da linguagem e a revisão ocasionalmente deixou um pouco a desejar: por exemplo "coisas que podem lhes entreter durante algum tempo..." (pág. 16).

A história deixa pontas soltas pelo caminho e deixa de explorar e aprofundar a personalidade das protagonistas e as peculiaridades do cenário tão bem quanto poderia e deveria (embora, no caso de Annabel, isso seja compensado por páginas de seu diário de inconformista revoltada, a título de interlúdios). Como muitos textos de autores iniciantes, concentra-se em descrições e diálogos, uma estratégia que seria apropriada em um roteiro, mas deixa de aproveitar o poder da literatura para desenvolver as sutilezas da subjetividade e dos relacionamentos.

Em pelo menos um ponto, o texto é inconsistente. No mundo onde Annabel vai parar os humanos, segundo o raposo Dean “estão em extinção. São realmente selvagens e a maioria não sabe nem mesmo se comunicar, aqueles que vivem na cidade são animais de estimação ou comida na maioria das vezes. São caros e para possuir um de vocês é preciso ter uma licença do governo”.

Vemos o raposo ser detido pela polícia, reagir e ser baleado porque a posse de humanos é ilegal – mas Annabel é levada, antes e depois, a lanchonetes e casas de espetáculo sem despertar nenhuma reação de surpresa ou escândalo dos muitos animais falantes presentes.

Mas os defeitos desse livro parecem mais do que perdoáveis quando o comparamos com O Desejo de Lilith que, embora escrito por um autor adulto e formado em linguística, mostra deficiências muito mais sérias. À primeira parte, na qual um policial envolve-se na trama ao investigar um suicídio falta de verossimilhança e de conhecimento dos temas relevantes para o enredo. À segunda, na qual o herói transforma-se em imortal, falta imaginação e aspirações dignas, acabando por um final falso e forçado.

A narrativa apresenta-se como a transcrição do diário do protagonista e narrador, inicialmente “detetive-chefe” da polícia de Hortolândia, São Paulo. Atrás de explicações para um suicídio em sua cidade, ele vai à capital atrás de um “pesquisador da Bíblia” que poderia ter informações relacionadas ao mistério. Encontra-o, mas dias depois também o suposto erudito se suicida.

O segundo suicídio, ocorrido num prédio de apartamentos de classe média do Itaim Bibi no início de 1978, é investigado pela Polícia Federal. É um contra-senso, pois esta só investiga crimes relacionados a terrorismo ou tráfico de drogas ou que envolvem o interesse da União, como contrabando, corrupção e sonegação. O detetive de polícia entra no prédio como um ladrão para levar documentos do falecido – e quando os “policiais federais” se aproximam, joga-se do quinto andar – nada menos – para fugir deles, quando tinha razões perfeitamente plausíveis para pedir informações sobre a investigação.

Não quebra nada, vê-se num “beco escuro e malcheiroso” (improvável nesse bairro, para dizer o mínimo) e pega um táxi. Sem dinheiro, pula do carro em movimento e é brutalmente espancado pelo taxista, sem reagir, dar carteirada, ou mostrar o distintivo. Em plena ditadura militar. Seu chefe vai procurá-lo, encontra-o em estado lamentável, “demite-o” no ato e o ex-detetive vai receber a “rescisão” como um balconista demitido de uma loja.

Os meses seguintes à “demissão” dão oportunidade às páginas menos lamentáveis da narrativa. O ex-policial falido refugia-se num prédio invadido na “Praça Ramos”, sem luz e água. Não há nada assim nesse endereço, mas perdoemos isso, bem como a inverossimilhança da situação. Há algumas cenas convincentes, quase comoventes, da vida nesse prédio onde Rafael conta apenas com a solidariedade de vizinhos de corredor, um travesti e um “roqueiro” cabeludo de jaqueta de couro que o socorrem nos momentos difíceis. Esse momento de simpatia por homossexuais, pobres e excluídos é o que há de melhor no livro. Tudo que se segue é constrangedor.

Rafael é atacado por Caim em pessoa e salvo pelos vizinhos, que então se revelam como “anjos caídos” e explicam ao ex-policial, agora um marginal cabeludo como eles, que o toque do arquivilão o tornou um “imortal”. Estragou-se tudo. Abandonai toda esperança de um desenvolvimento interessante, ó vós que chegastes a este ponto. As explicações dos anjos caídos sobre sua luta milenar com Caim são pueris e incoerentes e o que vem depois é pior ainda. O único consolo é o humor involuntário de filme trash.

Para que não se pense que o resenhista exagera, citem-se alguns trechos:

“Para piorar a confusão em minha, [sic] Lameque disse que o travesti Suzetti também era um dos anjos caídos e que seu nome real era Ieialel. Ele tinha nascido anjo e era mais antigo do que o próprio Qayin. Seu pecado foi ter sido enganado pelo querubim Samael e, juntos, terem criado uma política que ia contra as ideologias do Criador: não seguir ordens e punir severamente os seres humanos por qualquer tolice que cometessem.” (pág. 85)

“O escritório dos Black Angels ficava em uma travessa da Avenida Brasil, em uma rua ao lado da Igreja Nossa Senhora do Brasil, obra de requintada arquitetura gótica [sic], simplesmente magnífica”. (pág. 90)

Mas o melhor exemplo é o “manual do imortal” então revelado ao recruta. Seguem amostras desse texto impagável (págs. 91 a 93):

“Procedimentos que todos os imortais devem seguir:

1 - Seguir todas as regras do Manual do Imortal, escritas pelo segundo anjo caído, Ieialel (...)

13 - A organização Black Angels terá vários líderes, entre eles: Yesalel, Sitael, Achaiah, Hacamiah, Reyel, Omael e Mebahiah. Cada um será designado para liderar um setor dentro da organização (...)

Omael: zelador do bem-estar dos anjos caídos, da saúde dos corpos dos mortais que foram possuídos pelos imortais, além de ser nutricionista, liderando e trabalhando na variada e complexa alimentação de todos os imortais, juntamente com outros cozinheiros e chefes de cozinha.

Mebahiah: responsável por cuidar do visual dos imortais, para sempre mantê-los na moda, independentemente do local e da época. (...)

15- Deus e Samael estabeleceram o acordo de manter o equilíbrio, dando o livre arbítrio para cada ser vivente escolher o seu lado, o Yin e o Yang. Mas Qayin, filho de Samael e Lilith, quebrou o acordo seguindo os conselhos de sua mãe. (...)

O Manual do Imortal é um tesouro que se equipara à Arca da Aliança ou ao Santo Graal”.

As páginas 97 e 98 descrevem o ambiente da organização dos “anjos caídos”:

“Estou hospedado em um hotel luxuoso, digno de reis, situado na região dos jardins, próximo à Avenida Paulista (...) Yesalel me encaminhou ao setor financeiro da Black Angels e apresentou o encarregado, o anjo caído Hacamiah. Na presença de outros dois anjos caídos, pediu que me auxiliassem no preenchimento de alguns papéis para dar procedimento à abertura de uma conta corrente em um banco, pois me seria fornecido um salário mensal equivalente a 30 vezes o que recebia anteriormente, quando era um simples detetive de polícia. Preenchi outros papéis e, dos que me lembro, um era para a aquisição de um Lincoln Continental Mark V da cor vermelha, outro para encher o tanque quando bem entendesse e outro era para o luxuoso hotel onde estou hospedado por conta da Black Angels.

Após o encontro com Hacamiah, Yeialel me encaminhou para o setor do anjo caído Mebahiah. Era um setor diferente dos outros que tinha visto dentro da organização, cheio de manequins, espelhos, revistas de moda, estilistas, manicures, cabeleireiros e roupas de todos os estilos e cores possíveis.

Mebahiah era um anjo peculiar. Usava roupas alegres e de fino trato, diferente dos outros anjos caídos que abusavam do preto. Sai [sic] de lá com um visual completamente diferente. Mebahiah bem que tentou cortar meus cabelos compridos, mas não deixei. Então, depois de muita insistência, deixei que fizesse relaxamento e depois escova, e até que ficou bom. (...)

Depois de um breve e delicioso coffee-break oferecido pelo anjo Omael, fui levado ao setor do anjo Reyel, que me inscreveu em alguns cursos internos da organização, iniciando com aulas de inglês, português, literaturas, etiqueta, culinária nacional e estrangeira, yoga e tai chi chuan. Depois de concluídos eu passaria para a segunda etapa.

Estou feliz, apesar do medo da novidade de ser imortal e vinte anos mais jovem”.

Tudo é dado de graça sem motivo ou lógica. Mas não se trata de uma sociedade secreta cuja existência e atividades são mantidas há milênios sob o mais absoluto sigilo? Para quê desfilar com um Lincoln vermelho por São Paulo? Qual o sentido desse luxo (palavra incansavelmente repetida no livro) e, mais que isso, de ostentação grosseira de novo-rico?

Pode-se suspeitar que se trata, simplesmente, de alimentar o devaneio de uma ascensão social instantânea que proporciona todos os privilégios de um milionário ou de um alto executivo que o escritor de classe média é capaz de imaginar, sem esforço, riscos, conflitos penosos com rivais ou questionamentos éticos. Citem-se mais estas pérolas de sabedoria:

“É bom ser imortal, pois não tenho mais as velhas preocupações com a saúde, muito menos com a morte”.(pág. 102)

“É incrível, mesmo sendo imortal, tenho prazer em fazer compras”. (pág. 105)

Resta dizer que, enquanto realiza seus sonhos de consumo, o herói é perseguido por Caim. Não se explica, em parte nenhuma do livro, por que esse ser bíblico e multimilenar, com poderes capazes de abalar o mundo, perde seu tempo possuindo pobres coitados e brincando de pega-pega com os “anjos caídos”, sem que uns ou outros saiam de São Paulo.

Curioso, também, como esse texto respira misoginia, provavelmente inconsciente, mas impressionante: nem a Igreja medieval foi tão radical no seu desprezo ao sexo feminino. As únicas três mulheres que aparecem (muito brevemente) estão possuídas por Caim. Todo o mal provém não do Diabo ou do pecado original, mas da primeira esposa de Adão, Lilith, apresentada como mãe dominadora de Caim e esposa infiel do senhor do Inferno, senhor cordato que, apesar das divergências “ideológicas”, respeita seu acordo de cavalheiros com Deus e, ao que tudo indica, deve seus chifres a esse casamento infeliz.

Para encerrar esta tão melancólica resenha com um sorriso, uma amostra da que talvez seja a pior cena de perseguição da história da literatura:

“Sai [sic] com meu Lincoln para espairecer, mas com o hábito de sempre. Não conseguia relaxar (...) Foi nessa noite acidentada que um motoqueiro se aproximou de mim com sua Harley-Davidson. Quando senti o calor do motor e ouvi o ronco do escapamento, o motoqueiro virou para mim com seus olhos demoníacos, revelando Qayin, o milenar demônio. Meu coração acelerou e o calor tomou conta do meu corpo de tal maneira que tive que tirar a camisa às pressas. Travei os dentes com tanta força enquanto o demônio acelerava ao meu lado que senti um deles explodir dentro da boca, causando um sangramento que escorria pelos lábios”.