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Crônica do Villas

Um Cheiro de Goiaba

por Alberto Villas publicado 19/11/2015 13h31, última modificação 20/11/2015 09h27
O dia em que uma bomba explodiu em Paris, ao meu lado
Reprodução
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Uma das imagens do atentado em Paris em 1986

Eu estava na fila do caixa com o livro Une Odeur de Goyave nas mãos, quando ouvi o estrondo que fez tremer o chão. Um estrondo seco, assustador. A caixa da Fnac Rennes, em Paris, perguntou para sua colega ao lado o que se passava. Ela não sabia, ninguém sabia. 

Não houve pânico, algumas pessoas abriram os olhos além do normal, outras desistiram das compras, deixaram os discos e livros por ali mesmo, e saíram – literalmente – à francesa.

Paris já tinha sofrido treze atentados nos últimos tempos mas, confesso, não passou por minha cabeça que aquele estrondo que ouvi na livraria poderia ter sido o décimo-quarto. Até que sirenes começaram a soar, uma, duas, umas dez. Alguma coisa tinha acontecido. 

Só quando coloquei os pés na calçada já com algumas folhas secas no chão, naquele final de verão, que me dei conta do que tinha acontecido. A Rue de Rennes já estava fechada, ninguém entrava, ninguém saia. As luzes das sirenes giravam frenéticas e as camionetes do Samu estavam com as portas abertas, já recebendo feridos. 

Não havia celular, internet, não havia WhatsApp que nos desse notícias do que se passava. O boca a boca corria. 

Atentado!

Atentado!

Aos poucos, fomos sabendo das coisas. Dois homens passaram num velho BMW e jogaram uma bomba na multidão que se aglomerava na porta da Tati, a loja mais popular de Paris, aproveitando a liquidação anunciada na véspera.

Em alguns minutos já sabia que cinco pessoas foram mortas na hora, ali na calçada, uma corria risco de vida dentro de uma das camionetes do Samu e dezenas estavam feridas. 

Captura de Tela 2015-11-16 as 17.32.49.pngNão demorou muito o Comitê de Solidariedade com os Prisioneiros Políticos Árabes reivindicou a chacina. Eles vinham anunciando um Setembro Negro para Paris e exigindo, nos últimos dias, a libertação de três terroristas presos na França: Anis Naccache, Georges Ibrahim Abdallah e Varadian Garbidian.   

Era uma quarta-feira, 17 de setembro de 1986.

Depois de devidamente revistado dos pés à cabeça e liberado, fui caminhando pela Rue de Rennes no sentido do Boulevard Saint Germain, muito assustado. Apressei o passo para chegar até o hotelzinho onde estava hospedado e pouco tempo depois, estava no Boulevard Pasteur. 

No hotel, vi pela televisão as primeiras imagens da tragédia. Flashes entravam de minuto em minuto e as imagens eram assustadoras. A Fnac era a vizinha mais próxima da Tati e por isso tremeu.

Tinha ainda uns vinte dias de férias pela frente e, sentado na cama do Hotel Innova, comecei a refletir o que faria naquele momento e nos próximos dias. 

Como sairia nas ruas para flanar o dia todo, como sempre faço quando vou à cidade onde morei durante quase uma década e a que mais gosto de todas elas? 

Não teria coragem de entrar no metrô, de parar numa banca de jornal, de visitar um museu, de ir ao cinema, de ir jantar no Chartier. 

Na manhã seguinte fui a uma agência da Nouvelles Frontières para decidir o meu destino. Encontrei uma passagem barata e é pra lá que eu vou. Próxima parada: Istambul! Voei para a cidade que conhecera e apaixonara nos meus tempos hippie.

Instalado num hotel vagabundo no centro de Istambul, fui surpreendido por um comboio de ambulâncias que passava lá embaixo desviando dos carros, das motocicletas e dos pedestres, a 120 por hora.

Com o meu inglês ruim e o meu turco nota zero, desci até a portaria do hotelzinho para saber o que se passava. O senhor apenas fazia alguns gestos que pareciam rajadas de metralhadoras.

Só no dia seguinte que soube da notícia, ao ler num jornal francês. Um fanático entrou numa das mesquitas da cidade disparando e matando 17 pessoas.

Paguei a diária e fui para a rodoviária, um lugar que tinha apenas uma pequena casa e muita poeira. Comprei uma passagem para Kaymakli, uma cidadezinha na capadócia, na certeza de que estava fugindo para o fim do mundo, longe das bombas e das rajadas de metralhadoras.

Lá passei quinze dias, sem rádio sem notícia das terras civilizadas. Tive tempo de sobra para ler Une Odeur de Goyave, uma longa entrevista que Gabriel Garcia Márquez deu ao jornalista Plinio Mendoza, e reler Cem Anos de Solidão.

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