Você está aqui: Página Inicial / Cultura / Um brasileiro reinventa a galáxia

Cultura

Cultura

Um brasileiro reinventa a galáxia

por Antonio Luiz M. C. Costa publicado 25/05/2009 17h16, última modificação 09/09/2010 17h17
A Ética da Traição, um conto no qual explorou as possibilidades de um mundo no qual o Paraguai tivesse vencido a guerra de 1864-70

O físico e escritor Gerson Lodi-Ribeiro já fez muito pela ficção especulativa brasileira. Começou por fundar o gênero da história alternativa no Brasil com A Ética da Traição, um conto no qual explorou as possibilidades de um mundo no qual o Paraguai tivesse vencido a guerra de 1864-70 e o dilema de um cientista brasileiro que, vivendo nessa realidade, tinha a seu alcance a possibilidade de mudar o desfecho do conflito de maneira que o resultado fosse a realidade que conhecemos.

Lodi-Ribeiro escreveu ainda outras linhas de provocações históricas. Numa delas, o Quilombo de Palmares torna-se nação independente e importante entre um Brasil português e outro holandês. Em outra (desenvolvida sob o pseudônimo “Carla Cristina Pereira”) os astecas se aliam aos portugueses.

Além disso, Gerson também escreveu histórias de ficção científica mais convencionais, na maioria das vezes envolvendo o contato entre humanos e espécies alienígenas. Ou que evoluíram a partir de alguma espécie do passado da Terra, tais como neandertais e dinossauros e se encontram conosco através de estranhos caminhos do tempo e do espaço.

De cinco anos para cá, Gerson tem-se concentrado numa ficção científica espacial mais tradicional, algo entre ficção científica hard (centrada em tecnologia) e space opera (centrada em grandes batalhas espaciais). Com bons motivos: foi contratado como consultor para o desenvolvimento de Taikodom, RPG online de ficção científica da Hoplon Informática, e se tornou, disse ele mesmo em entrevista a Roberto Causo, “o primeiro brasileiro a ser (bem) remunerado em bases mensais trabalhando como escritor de FC".

Compreensivelmente, seus contos e noveletas dos últimos anos têm-se baseado nessa realidade virtual da qual é o principal idealizador. Essa produção foi agora editada pela Devir como a coletânea Crônicas(R$ 39,50, 360 págs.) segundo livro da coleção Taikodom, inaugurada por Despertar de J. M. Beraldo, já criticado nesta coluna Como explicaremos a seguir, é um livro com altos e baixos, embora em média possa ser classificado como bom.

Como se poderia esperar, a coletânea de Lodi-Ribeiro escapa à sensação, que enfraquece o livro de Beraldo, de que nada decisivo pode acontecer. Trata-se do criador desse universo. Tem carta branca para definir seus rumos, de maneira que as ações de seus personagens não são arbitrárias aventuras de videogame, mas podem realmente ditar o futuro de sua civilização, o que permite dar mais interesse e profundidade aos enredos.

Lodi-Ribeiro também não compartilha da insistência de Beraldo em dar nomes anglo-saxões para a maioria dos privilegiados habitantes do universo Taikodom e enfatizar a marginalização dos (sempre brasileiros) “ressurectos”, sobreviventes congelados do passado da Terra que despertam no estranho mundo novo como ralé. O leitor não fica com a sensação de que pertence a um povo que só pode entrar na ficção científica como penetra ou como um imigrante nos EUA que só pode esperar o trabalho perigoso e pesado.
Nesta versão, o Taikodom é mais multicultural. Os nomes dos “nativos” sugerem o caldeamento de culturas e povos europeus, asiáticos, africanos e latino-americanos e alguns nomes brasileiros estão associados a personagens mais ou menos bem posicionados nesse universo.

Permanece o paradoxo de uma sociedade que intitula seus integrantes de “cidadãos”, à maneira da Revolução Francesa, mas os divide em diferentes categorias de direitos – cidadão sênior, cidadão pleno, cidadão “ressurrecto” de segunda classe – e nega à maioria deles reais direitos políticos e a possibilidade de participar do governo, o que é negar o próprio conceito de cidadania. O universo Taikodom é controlado por um superconglomerado comercial-industrial conhecido como Consortium, cujo Estatuto Universal, tal como consta no site http://www.universotaikodom.com.br, mais se parece com um regulamento interno de empresa do que com uma Constituição ou Declaração de Direitos Humanos.

O livro constitui-se de sete contos, disponíveis também no site do jogo (http://www.universotaikodom.com.br/acervo). O primeiro, Point of K(No)w Return, trata da fundação, por assim dizer, desse universo, quando seus exploradores, algumas décadas depois da quarentena imposta à Terra, viajam pela primeira vez para outros sistemas solares. É um bom conto na linha da ficção científica mais hard, ou seja, que enfatiza a especulação sobre tecnologia e ciências naturais. Para quem não é fã desse estilo, os detalhes técnicos, nem sempre indispensáveis, podem parecer um tanto excessivos, mas de resto poderia sustentar uma comparação com Isaac Asimov ou Arthur C. Clarke.

Despertar do Físico vem com o aviso: “conto de alto teor erótico, inadequado para menores de idade”. Foi originalmente escrito para uma revista masculina e saiu um tanto machista, mas as considerações sobre sexo em gravidade zero são divertidas de ler. Ao menos uma vez, um brasileiro “ressurrecto” dá-se bem ao ser despertado no universo Taikodom.

Morituri te Salutant! marca uma inflexão um tanto estranha na história desse universo. Uma antiga sonda inteligente revela a uma expedição humana um sistema abandonado por alienígenas desaparecidos, cheio de artefatos misteriosos. O peculiar é que o grupo de astronautas pertence a uma dissidência doConsortium que adotou nomes, hierarquias e costumes dos antigos romanos, conhecido como Imperium. Por que uma civilização do futuro adotaria a coreografia de um cruel império escravocrata, desaparecido há milênios? Não que seja impossível: isso aconteceu no século XX, no contexto de movimentos políticos de aspirações abertamente reacionárias, o fascismo e o nazismo. Serão os neo-romanos fascistas? Faltou a ousadia de explorar o que isso significa em uma civilização espacial que cortou todos os vínculos com a Terra, o que teria rendido uma história mais interessante.

O Guia Tertius do Taikodom para o Turista Independente é o conto mais longo e – sinto muito – um ônus para o livro, a não ser, talvez, para um fanático pelo jogo interessado em minúcias do cenário. Há uma virada interessante no final, mas não basta para redimir a chatice aflitiva das cinquenta dispensáveis páginas que o precedem. Ao viajar dezenas de anos-luz por seis sistemas solares, o turista deixa a impressão de que os pacotes turísticos do século XXIII serão tão tediosos quanto os de hoje. Viajar peloTaikodom será tão monótono quanto visitar uma sucessão de aeroportos, hotéis e restaurantes das mesmas grandes cadeias internacionais, descendo do ônibus refrigerado aqui e ali para fotografar um cartão postal. É um passeio acomodado de burguês bem-sucedido, falta-lhe a atitude de um autêntico mochileiro das galáxias...

Em Escambos com Nativos, o Consortium, aflito com os ataques de alienígenas misteriosos, regateia (com muita mesquinhez, diga-se) informações com os sobreviventes empobrecidos e semibárbaros do apocalipse que vitimou a civilização humana na Terra, ainda isolados pela misteriosa quarentena imposta por alienígenas. Apesar de todas as suas desvantagens, os terráqueos mostram-se suficientemente espertos para conseguir os recursos que precisam, cobrando um preço justo por sua assessoria, baseada em dados históricos esquecidos nas bibliotecas que os emigrados para o espaço deixaram para trás. Pena que os conselhos neles implícitos mostrem-se um tanto óbvios demais, o que enfraquece a ironia e a verossimilhança da história.

Com Segunda Ressurreição, o livro retoma o pique dos primeiros contos. É uma história de “primeiro contato”, na qual uma “ressurrecta” é capturada pelos misteriosos alienígenas que atormentam o Taikodom. O confronto entre ela e seus captores é interessante, principalmente pela forma como aprendem, pouco a pouco, a se entender. E mais ainda o confronto dela com seus iguais, ao ser devolvida – de certo modo – à sua gente. Entretanto, Lodi-Ribeiro, do qual nos acostumamos a esperar mais astúcia e imaginação, repete um clichê ingênuo. Como é comum a muitas histórias de abdução, a humana capturada é confinada – por meses a fio, talvez por anos – em uma câmara vazia de material branco e luzente, apenas com uma plataforma que serve para dormir, uma mesa e quatro bancos. Na mesa, água e uma gosma azulada e inodora são servidas regularmente para alimentar a prisioneira. Pergunta-se: como a moça atendia às suas demais necessidades fisiológicas e higiênicas? Respostas e sugestões diretamente ao autor do conto, por favor.

O livro fecha-se com Confronto com Quimera, no qual um cruzador espacial humano mede forças, por fim, com uma nave-mãe alienígena. É uma space opera que faz lembrar as melhores batalhas e perseguições espaciais dos blockbusters de Hollywood e lhes dá com um tratamento consideravelmente mais científico e realista sem deixar de ser excitante, além de explorar muito bem as pecularidades da sociedade e tecnologia do universo criado pelo autor. Talvez seja o melhor conto do livro cuja capa, apropriadamente, o ilustra.

Só tem um defeito: a ação desse conto dá-se simultaneamente ao final do precedente e seus personagens desse conto estão relacionados à protagonista de Segunda Ressurreição, que termina em uma situação de risco e suspense – um cliffhanger, como se diz em Hollywood. O leitor espera que o último conto dê uma resolução à tensão que fecha o anterior, mas se frustra, pois nada disso acontece. Do ponto de vista editorial, sente-se como uma falha: o comprador do livro deveria ter direito ao fechamento desse arco narrativo, ainda que se quisesse deixar um gancho para o próximo volume da coleção. Lodi-Ribeiro ficou devendo a conclusão, no site ou em um novo livro.

Num balanço geral, o livro vale a pena para os apreciadores de ficção científica hard e aventuras espaciais, mas em profundidade e criatividade a space opera de Lodi-Ribeiro ainda não satisfaz tanto quanto seus melhores contos de história alternativa, como os apresentados na coletânea Outros Brasis(Mercuryo, R$ 19,90, 208 págs.), comentada na revista CartaCapital em 2006 e ainda disponível nas livrarias. Esperemos que o autor continue a inovar e se superar.