Você está aqui: Página Inicial / Cultura / Um baú de relíquias

Cultura

Exposição

Um baú de relíquias

por Rosane Pavam publicado 23/10/2011 09h09, última modificação 25/10/2011 15h08
A Biblioteca Nacional exibe 170 preciosidades do Renascimento escondidas em seus arquivos
Dente, Marco - Venus ferida

Vênus ferida por um espinho de roseira, gravura de Marco da Ravenna, e o desenho As Três Graças, de Orazio Samacchini do século XVI

No início do ano, a historiadora da arte Elisa Byington deparou com o Juízo Final no centro da cidade do Rio de Janeiro. Ele surgia em forma de duas gravuras arquivadas na Biblioteca Nacional. As imagens de época haviam sido feitas a partir do original de mesmo nome de Michelangelo Buonarroti (1475-1564) para a Capela Sistina, no Vaticano. A historiadora, que naquele início de ano correra à instituição brasileira apenas para investigar a existência de obras relacionadas a outro grande nome do Renascimento, Giorgio Vasari (1511-1574), surpreendeu-se com a dimensão do arquivo. O material que velozmente percorreria, de propriedade da família real portuguesa, havia sido trazido ao País, em grande parte, após o incêndio da Biblioteca de Lisboa, de 1755. Desde então, dormira no berço esplêndido tropical, quase sempre sem batismo ou categorização.

“Eu me via com as mãos sobre um enorme baú de tesouros que se abria mais e mais”, conta a CartaCapital a pesquisadora, que então propôs a realização da exibição Giorgio Vasari e a Invenção do Artista Moderno na mesma Biblioteca Nacional do Rio. Em seu Espaço Cultural Visconti, entre 21 de outubro e 11 de dezembro, serão expostas 170 obras, entre gravuras, desenhos e livros, não só de autoria do pintor nascido há 500 anos, mas pertencentes a seu contexto artístico. “Desde que, há menos de três meses, iniciei os trabalhos em torno da exposição, bebo muitas xícaras de chá de camomila”, diz Elisa, autora de O Projeto do Renascimento. A curadora correu contra o tempo não só para realizar os textos destinados à exposição e à organização do catálogo, que deverá sair em um mês, como para organizar as obras em condição de ser expostas.

Elisa não precisou recorrer a qualquer outro museu para finalizar seu trabalho. Isto porque, finda a reconstrução da Biblioteca de Lisboa, que recuperou grande parte das peças enviadas à Colônia, restaram no Rio relíquias suficientes, de diversas origens. Ora teriam pertencido aos jesuítas, expulsos de Portugal pelo Marquês de Pombal em 1758, ora a colecionadores como o arquiteto português Costa e Silva, que vendeu itens de sua propriedade, em 1819, à Biblioteca Nacional, fundada há dois séculos no Rio, em 1811. ­Outro entre os fornecedores é o ourives inglês Charles Dugood, que serviu à Corte portuguesa enquanto viveu na Itália.

Pertenceria ao ourives a primeira edição do Livro das Vidas dos Mais Excelentes Arquitetos, Pintores e Escultores. O estudo de Giorgio Vasari foi apresentado em 1550 e reimpresso 18 anos depois, com a revisão dos textos e a inclusão de 32 novos verbetes. O texto maravilhou Michelangelo, que viu em seu ilustre contemporâneo, arquiteto da Galleria degli Uffizi, em Florença, um “ressuscitador de homens mortos”. E Vasari, por sua vez, atribuiria ao autor do Juízo Final a condição de “vértice das artes”, já que Michelangelo teria sido o único na época a manejar com excelência o desenho, a pintura e a arquitetura, tidos pelo estudioso como as três “artes” ou “graças”.

Para Vasari, “graça” era também um conceito ligado à naturalidade do desenho, que deveria ser fiel às proporções dos objetos na natureza. Rafael Sanzio (1483-1520) seria mestre da “carnosidade do natural”, enquanto Michelangelo, da “terribilidade”. O “terrível” em Michelangelo, segundo Vasari, ligava-se a seu poder de dominar o que era superlativo na existência. Ele e Rafael seriam os verdadeiros autores da “segunda idade” do Renascimento. Nesta, teria havido um progresso nas conquistas da perspectiva e da representação dos ­corpos, desenvolvidas a partir da “primeira idade”, a que se filiaria Giotto (1266-1337). Uma “terceira idade” seria a maneirista. Tendo vencido a natureza, a arte agora copiava a si mesma.

Vasari é essencial ao Renascimento por justamente tê-lo definido artisticamente em seu Livro das Vidas. Ele sistematizou a consciência histórica da arte ao destacar a “imitação com invenção” dos preceitos clássicos. Com seus humanistas, matemáticos, engenheiros, banqueiros, homens de negócio e artistas, Florença constituira a vanguarda da revolução cultural no século XIV. Depois de décadas de luta como consequência da morte de Lourenço, o Magnífico, em 1492, a consolidação do poder viria com Cosme I de Medici, que ascendeu ao governo da cidade aos 17 anos, em 1537. Ele pôs fim a décadas de instabilidade política e promoveu as artes e as letras como caminho para a própria legitimação. Patrocinou a Academia de Artes, a primeira no gênero, fundada por Vasari em 1563.
Três das edições do Livro das Vidas são expostas agora na Biblioteca Nacional. A primeira é de 1550, a segunda, de 1568, e a última foi elaborada no século XVIII pelo abade Giovanni Bottari, que lhe acrescentou notas. Há outros livros importantes em exposição, como Divina Proporção, de Luca Pacioli, ilustrado por Leonardo da Vinci por meio de 60 figuras geométricas que definiam o humanismo matemático. Outra obra essencial é a reunião dos primeiros tratados conhecidos sobre as três artes, realizados entre 1435 e 1450 por Leon Battista Alberti.
Entre as gravuras, há as duas do Juízo Final. A primeira, em formato A4, foi feita pelo

artista dos Países Baixos Jan Wiericx antes que o papa censurasse a obra na Capela Sistina, no século XVI. A segunda traz quatro pranchas, com 3 metros de altura, pelo primeiro gravador do Vaticano, Niccolò Della Casa. Muitos artistas tinham seus próprios gravadores, que copiavam em matrizes os desenhos, pinturas e afrescos dos pintores, multiplicando seus proventos. Os célebres Marcantonio Raimondi, Antonio Veneziano e Marco Dente da Ravenna trabalhavam para Rafael, que lhes pagava pela reprodução, mas retinha as matrizes das gravuras. Isso ocorreu a O Massacre dos Inocentes, esplêndido desenho em cujo ponto de fuga está a mãe, tornada cânone para a representação do extermínio. É igualmente de Rafael A Batalha de Constantino contra Maxênio, concluída como afresco por Giulio Romano na Sala de Constantino, no Vaticano, e refeita como gravura por Raimondi, em 1510, e por Giovanni Battista Cavalleris, em 1571, esta presente na exposição do Rio.