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Um artista de família

por Orlando Margarido — publicado 25/08/2011 10h56, última modificação 26/08/2011 11h01
De novo diretor, Reginaldo Faria reencontra as referências que o levaram a ser um intérprete vigoroso do cinema e da televisão

O açougue dos Faria não fez só alimentar a pequena comunidade de Nova Friburgo nos anos 40 e 50. Ao cinema brasileiro legou uma noção de disciplina, trabalho e esforço conjunto que se revelaria em um dos clãs mais influentes do meio. “A colaboração começou ali, no comércio do nosso pai, quando nós, os filhos, saíamos para fazer as entregas de bicicleta”, lembra Reginaldo Faria, a face mais exposta da família por ter se tornado o galã das telenovelas e protagonista preferido do irmão cineasta e produtor Roberto Farias. Foi em boa parte por essa afinidade, lograda em parcerias prestigiadas como Assalto ao Trem Pagador, que ele se tornou também diretor de sucesso. Um ofício em que não se exercitava havia quase três décadas e ao qual retorna agora, aos 74 anos, com O Carteiro. Se não se pode dizer que a comédia romântica e de humor ingênuo resgata a boa mão do realizador no gênero um dia avalizada por picos de público, como aconteceu em 1971 com Os Paqueras, ao menos autoriza a uma revisão de momentos significativos de sua trajetória artística.

A história escrita por Reginaldo sobre o jovem carteiro apaixonado que viola as correspondências da amada estreou no recente 39º Festival de Gramado, evento que o premiou algumas vezes e traz evidências de sua memória pessoal e de seu gosto cinematográfico. O cenário do filme é uma vila encravada no Vale do Vêneto gaúcho, onde o mundo virtual ainda não deu as caras aos missivistas. O tom anacrônico, que o diretor prefere assinalar como atemporal, é reforçado pelas bicicletas do carteiro e seu -melhor -amigo, -referência ao Vittorio De Sica, que lhe é tão caro. Mas se Ladrões de Bicicleta ocupa- o seu imaginário desde as matinês no Cine Teatro Leal, juntamente com Flash Gordon e John Ford, também aí está uma característica marcante desde o início da carreira. “Para mim, cinema, de início, foi trabalho físico, carregar cenários, tripés, chassis”, diz. “Foi assim que comecei, depois de acordar às 4 da manhã para destrinchar boi, entregar carne, e antes de me tornar ator por acaso.” Talvez seja essa a motivação da crítica ao filme. A partir do pensamento do diretor, convocam-se o exagero de gestual, o excesso de corre-corre e a repetição de atos, recursos típicos de uma tradição chanchadeira que, aliás, igualmente se encontra na biografia do ator e diretor.

Quando denota o esforço braçal, Reginaldo está se referindo aos primeiros tempos no Rio de Janeiro, momento em que foi encontrar o irmão Roberto nos estúdios da Atlântida. Ele foi o terceiro Faria a descer a serra fluminense para ganhar a vida, logo depois de Rivanildes, o Riva, e antes de Rogério. Para ambos, sempre envolvidos na produção de filmes, como para Reginaldo, o cinema era destino natural. Ainda que a sobrevivência o obrigasse a uma escala como bancário, o jovem chegava com uma bagagem teórica fornecida por um ocupante inesperado da sobreloja do açougue. Era Adacto Filho, ou Artur Pereira de Melo, cantor lírico, diretor e dramaturgo então aposentado que fundara a companhia Os Comediantes. Ele iniciou o entregador na arte da interpretação e nas obras do teatro, de Shakespeare- a Nelson Rodrigues, que adaptou com frequência. “Ao mesmo tempo, eu já tinha lá minhas brincadeiras de atuar, de imitar, eu buscava algo sem saber o quê. Tanto que o Watson Macedo me convidou ainda muito garoto para atuar num projeto que não deu certo”, aponta, referindo-se a um dos principais nomes da Atlântida.

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