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Um ano fantástico para a fantasia

por Antonio Luiz M. C. Costa publicado 21/12/2009 18h08, última modificação 08/09/2010 18h09
Várias vezes, ao longo de 2009, esta coluna e a seção de resenhas de CartaCapital tiveram oportunidade de mencionar lançamentos de livros nacionais de ficção científica e fantasia e de coletâneas que incluíram contos brasileiros

Várias vezes, ao longo de 2009,  e a seção de resenhas de CartaCapital tiveram oportunidade de mencionar lançamentos de livros nacionais de ficção científica e fantasia e de coletâneas que incluíram contos brasileiros, incluindo vários volumes das coleções Paradigmas (Editora Tarja), Imaginários (Editora Draco) e Ficção de Polpa (Não Editora) e as antologias Rumo à Fantasia (pela Quymera, selo de fantasia da Editora Devir), Futuro Presente (Editora Record), Steampunk (Tarja).

O game online de ficção científica Taikodom, criado pela empresa brasileira de software Hoplon com assessoria do escritor Gerson Lodi-Ribeiro, começou a ganhar o mundo: em junho de 2009, a K2 começou a distribuí-lo em 9 línguas e a 31 países, incluindo EUA, México, Canadá, Turquia e toda a União Europeia. Foi publicado mais um livro baseados nesse universo ficcional: a coletânea de contosTaikodom: Crônicas, do próprio Lodi-Ribeiro (em 2008 já fora publicado o romance Taikodom: Despertar, de J. M. Beraldo) e dois volumes do romance em quadrinhos Taikodom: Eterno Retorno, de Roctavio de Castro, todos pela Editora Devir.

Entre os lançamentos de ficção científica nacional de 2009 que não chegaram a ser resenhados nesta coluna é preciso citar ao menos Os Dias da Peste, de Fábio Fernandes (Tarja), e a trilogia Padrões de Contato, reedição pela Devir da obra do veterano Jorge Luiz Calife.

Nas últimas semanas do ano chegou às livrarias, pela Editora Draco, o muito promissor Xochiquetzal: uma princesa asteca entre os incas, de Gerson Lodi-Ribeiro – uma história alternativa na qual Vasco da Gama descobre as Américas, casa-se com uma princesa mexica e viaja com ela a Cuzco. Também já estão nas livrarias uma segunda edição da coletânea FC do B pela Tarja e um romance de terror fantástico, Anjo de Dor, de Roberto Causo, editado pela Pentagrama, selo de terror da Devir.

Foi uma excelente notícia para os autores e apreciadores brasileiros desses gêneros, por muitos anos praticamente confinados a fanzines e blogues. Segundo Richard Diegues, contista e editor de três volumes da coleção Paradigmas e da antologia Steampunk (recentemente resenhada e elogiada pelo crítico estadunidense Larry Nolen como um dos melhores lançamentos do ano), o número de lançamentos em literatura fantástica no Brasil ao longo do ano que passou deve ficar apenas 13% abaixo do que se vê nos EUA. Número provavelmente subestimado, pois essa estatística não inclui livros paradidáticos, parte dos quais poderiam ser classificados como de fantasia ou ficção científica.

É verdade que as tiragens são muito menores e a qualidade mais irregular: muitos títulos foram medíocres ou francamente amadores. Embora haja exceções, isso inclui grande parte dos livros autopublicados. Algumas editoras, como a Andross, encontraram um pequeno filão na publicação de antologias de contos escritos por amadores ávidos de notoriedade, que para participar precisam apenas se comprometer a vender certo número de exemplares (ou pagar a quantia correspondente em dinheiro).

Já para os apreciadores brasileiros de ficção especulativa estrangeira, o ano não foi tão bom: nada especial, na verdade. No que se trata de ficção científica, as editoras continuam tímidas: fogem dos riscos e publicam, quando muito, traduções de obras consagradas há décadas. Na verdade, este ano só se pode citar a editora Aleph, que republicou em 2009 a trilogia Fundação original de Isaac Asimov, clássico dos anos 50 (nem se pense nas continuações escritas pelo mesmo autor nos 80) e Ubik, romance de 1969 de Philip K. Dick.

Um caso à parte foi Associação Judaica de Polícia, romance de 2007 de Michael Chabon que foi editado no Brasil neste ano. A Companhia das Letras faz questão de anunciar em seu site que “não publicamos livros de auto-ajuda, gestão empresarial, marketing, esoterismo, ficção científica ou espiritualismo”, mas não é coerente com o próprio preconceito: tem no catálogo Vinte Mil Léguas Submarinas, de Júlio Verne,Contato, de Carl Sagan e Complô Contra a América, de Philip Roth, entre outros. Assim como o romance de Roth, que se desenvolvia num cenário imaginário no qual os EUA se aliavam à Alemanha nazista, o de Chabon pertence ao subgênero da ficção científica conhecido como história alternativa: neste caso, supõe-se que (entre outras modificações na história real) Israel foi destruído na guerra com os árabes de 1948 e um Estado judeu alternativo foi fundado no Alasca, onde se passa a trama.

O ano também foi menos pobre em lançamentos de fantasia estrangeira. Pode-se citar exemplos como a antologia Rumo à Fantasia da Devir, que combinou contos nacionais e estrangeiros, O Portão de Ptolomeu, último livro da trilogia Bartimaeus de Jonathan Stroud, pela José Olympio e Filha da Magia, de Justine Larbalestier, pela Galera, selo “jovem” da Record. Faltaram, porém, novos megassucessos de repercussões hollywoodianas comparáveis com Senhor dos Anéis de J. R. R. Tolkien, a série Harry Potterde J. K. Rowling ou Fronteiras do Universo, de Philip Pullman.

Com uma notável exceção.

Sosseguem os leitores: este colunista não vai discutir a série Crepúsculo, até para não comprar uma briga inútil com metade das adolescentes do País e do mundo. Mas é interessante notar como a literatura sobre vampiros tem, assim como os próprios, o hábito de morrer e ressuscitar periodicamente, por mais que se pense que está morta e enterrada.

Desde 1748, quando o alemão Heinrich August Ossenfelder publicou um poema chamado O Vampiro(confira, nesta mesma coluna, A genealogia do vampirismo, artigo de 22/09/2008), a moda vem e vai, os supostos poderes e características desses seres variam, mas um aspecto é constante em todas as obras mais populares do vampirismo: o jogo erótico com a ambiguidade entre amor e violência, vida e morte, ferocidade e humanidade, beleza e horror. Foi assim com o vampiro pioneiro de Ossenfelder, com o Lord Ruthven de John Polidori (sátira de Lord Byron) no auge do romantismo, com o Drácula de Bram Stoker na era vitoriana, com a versão de Bela Lugosi nos anos 1930 e com o bissexual Lestat de Anne Rice nos anos 1970 e 1980.
Ao longo deste ano os adocicados vampiros gospel da geração 2000 puderam ser vistos nos ônibus e nos metrôs, nas mãos de adolescentes do sexo feminino de todas as idades. E muitas delas, não satisfeitas, procuraram também os similares nacionais, alguns dos quais se tornaram os mais vendidos da literatura brasileira de fantasia em 2009.

Desde 2000, André Vianco tem sido o mais popular dos escritores brasileiros que escrevem sobre vampiros, mas não foi quem mais se beneficiou. Seus vampiros, voltados para um público teen masculino, são pouco românticos e mais lembram heróis de quadrinhos.

Quem estava mais bem posicionada para surfar nessa onda era a maranhense Nazarethe Fonseca. Desde 2001, bem antes que Stephenie Meyer sonhasse com seu primeiro vampiro, ela tem publicado histórias no estilo sangue-com-açúcar. Mais adultas e um tanto mais picantes que as da concorrente estadunidense, suas obras esmeram-se em cenas de amor e ciúme entre vampiros endinheirados e sofisticados. Até 2008, seu sucesso tinha sido muito moderado, mas os eflúvios crepusculares do norte lhe deram um enorme ímpeto. De repente, esgotaram-se as primeiras edições de seus livros.

Em segunda edição, Alma e Sangue: o Despertar do Vampiro é agora a obra de ficção mais vendida da Editora Aleph, superando monstros sagrados da ficção científica anglo-saxã como Isaac Asimov (Fundação), William Gibson (Neuromancer), Philip K. Dick (O Homem do Castelo Alto), Anthony Burgess (Laranja Mecânica) e Ursula K. LeGuin (A Mão Esquerda da Escuridão). A sequência, Alma e Sangue: o Império dos Vampiros tem um início de carreira igualmente promissor, enquanto Kara e Kmam, na mesma linha, tornou-se o primeiro lançamento da Editora Tarja a esgotar-se e exigir nova edição.

Outra autora que tirou bom proveito da mania foi Giulia Moon. Lançado pela Editora Giz na Bienal do Livro deste ano, Kaori: Perfume de Vampira esgotou-se rapidamente nos estandes e continua vendendo bem, mas as interessadas devem ser prevenidas de que esse romance está para Crepúsculo mais ou menos como a Justine de Sade para a série Sabrina. Nessa escala, Nazarethe poderia ser comparada à série Mirella: picante, mas straight vanilla, na gíria do erotismo – pelos padrões vampíricos, bem entendido.

Criada no cruel Japão dos samurais e escolada nas perversões do Oriente e do Ocidente, a bela vampira-cortesã Kaori é uma dominatrix para Sacher-Masoch nenhum botar defeito. Os capítulos se alternam entre presente e passado, entre a atual não-vida de Kaori na São Paulo moderna e o início de sua carreira na Era Tokugawa. Apesar de o prólogo soar a clichê e o primeiro capítulo começar morno, a trama logo ganha ritmo e densidade.

O ponto fraco talvez seja a propensão excessiva de personagens ingênuos a buscar situações estranhas ou se meterem em enrascadas por excesso de bondade, o que por vezes os faz parecer pouco críveis – um clichê comum a muitas obras de tom sadomasoquista. Mas tanto o cenário paulista quanto o japonês são muito bem desenvolvidos e explorados e a obra acrescenta à lenda tradicional algumas ideias novas e interessantes. Entre elas, a simbiose dos vampiros com uma linhagem de homens-cães que se encarrega de devorar e eliminar os cadáveres e a existência de “observadores de vampiros” especializados, dedicados a tomar nota de seus hábitos. Um deles é Samuel, co-protagonista do romance que tem como uma de suas muitas peculiaridades o gosto por refrigerantes diet. Bem adequado, pois esta é uma história para quem gosta de pouco açúcar e muita, mas muita pimenta.

Ainda mais criativo é o romance O Vampiro da Mata Atlântica, de Martha Argel, apesar de não caber nos moldes românticos da moda. Nem galã, nem femme fatale, sem nenhum traço de charme e sedução, esse vampiro feito a partir de um desprezível criminoso comum e caçador clandestino, é pobre, feio e bruto. Exatamente como seus remotos ancestrais do folclore balcânico e com muitas de suas curiosas e pouco conhecidas limitações.

O vampiro surge nas matas do Vale do Ribeira e encurrala na floresta uma dupla de cientistas encarregada de fazer um estudo sobre a viabilidade de criar ali uma reserva natural. A engenhosa trama oscila entre o horror mais sinistro e o humor mais desbragado com habilidade surpreendente.

O fantástico se alterna com descrições minuciosas e realistas das dificuldades e emoções do trabalho de campo de um biólogo na vida real, Além disso, o romance fornece muita informação sobre a fauna, a flora e os problemas ecológicos da Mata Atlântica. Tendo sido concebida como paradidática, a obra é complementada por onze páginas de anexos sobre esse ecossistema e suas espécies e indicações bibliográficas para aprofundamento do tema, mas igualmente pode ser lida como pura diversão.

Agora, para quem adora vampiros de todos os tipos, formatos e preferências sexuais e não se incomoda com exageros, a melhor pedida do ano talvez seja Anno Dracula, romance de 1992 do escritor e crítico britânico Kim Newman.

Na passagem mais crucial do clássico Drácula, de Bram Stoker, Van Helsing e três aliados irrompem no quarto do casal Harker e, armados de hóstia e crucifixos, afugentam o monstro antes que transformasse Mina em vampira. Mas e se fracassassem? Esta ficção alternativa britânica, cuja edição brasileira chega bem a tempo de explorar as modas Steampunk e Stephenie Meyer, explora essa possibilidade. Realiza-se o pesadelo do caçador de vampiros: o Conde vence, seduz e vampiriza a rainha viúva e muitos vitorianos influentes, por meio dos quais domina o Império Britânico.

Essa nova aristocracia suga mais literalmente que a tradicional o sangue do povo “quente”, ou seja, não-vampiro. Mas um sobrevivente do grupo de Van Helsing, com o pseudônimo de Jack, começa a estripar vampiras nas noites de Londres e põe em risco a nova ordem ao mostrar que os mortos-vivos podem ser destruídos. A condução das tramas política, policial e amorosa é competente, mas “de manual”, sem golpes de gênio. O confronto final com o “chefão” é tão cheio de clichês que se tem a sensação de ter saído de um livro para entrar num videogame. Mas se não chega a ser genial, é um bom entretenimento. Mesmo quem não detém tanta erudição pop quanto o autor pode se divertir com essa trama irônica e intrincada.

Desfilam mais de cem personagens. Alguns tirados da história real, como Bram Stoker, Oscar Wilde, Eleanor Marx e Bernard Shaw. Outros, da ficção de autores como Arthur Conan Doyle, Henry Rider Haggard, Rudyard Kipling, Robert Louis Stevenson, Sax Rohmer, Virginia Woolf, Anne Rice e Stephen King, do cinema de horror ou do próprio Newman, incluindo a maioria dos vampiros mais famosos da literatura, do cinema e das séries de tevê. Citações e alusões a outras obras pululam, como é costume entre críticos literários quando tentam a mão como escritores. É preciso perdoá-lo: nada mais lógico para um fã confesso dessas criaturas da noite do que vampirizar todas as obras do gênero que passaram a seu alcance.