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Um ano bom, mas não sob todos os aspectos

por Antonio Luiz M. C. Costa publicado 08/01/2009 15h33, última modificação 15/09/2010 15h37
Desde o início, o ano de 2008 foi proclamado pelo escritor e editor Fábio Fernandes como o Annus Mirabilis (“Ano Maravilhoso”, em latim) da literatura fantástica e de ficção científica no Brasil.

Desde o início, o ano de 2008 foi proclamado pelo escritor e editor Fábio Fernandes como o Annus Mirabilis (“Ano Maravilhoso”, em latim) da literatura fantástica e de ficção científica no Brasil. Escritores de ficção científica não têm necessariamente a obrigação de serem bons profetas, mas a previsão foi confirmada – embora os fãs desses gêneros não abram mão da esperança de que os próximos sejam ainda melhores.

No editorial do quarto número do fanzine eletrônico Terra Incognita (disponível emhttp://www.verbeat.org/terraincognita/), ele e o co-editor Jacques Barcia fizeram o balanço que justifica considerar o ano que passou como o mais importante dos últimos dez ou vinte para a ficção especulativa no País. Além de vários eventos e um congresso bem-sucedido, as editoras retomaram a publicação de obras do gênero, estagnada há quase duas décadas.

Incluem-se aí republicação de clássicos da ficção científica estadunidense há muito não editados no Brasil, como A Mão Esquerda da Escuridão, de Ursula K. LeGuin, O Orador dos Mortos, de Orson Scott Card e Neuromancer, de William Gibson, este acompanhado pela primeira vez dos outros dois volumes da trilogia, Count Zero e Mona Lisa Overdrive.

Como esta coluna comentou em outra oportunidade (leia , de 3 de setembro), mesmo esta obra chegou no Brasil com muito atraso – 25 anos – e nesse meio-tempo, muito do que soava futurista quando foi publicada nos EUA virou nostalgia. Como a onipresença de aparelhos de fax, o uso de telefones públicos (fixos, naturalmente) acionados por moedas e uma “Matrix” (a futura internet) ausente do quotidiano do comum dos mortais e restrita a grandes empresas e hackers especializados.

Foi já no fim do ano que, por fim, foi publicada uma obra de ficção científica estrangeira suficientemente recente para não conter anacronismos que saltem a vista e que aborda um tema que não só continua relevante para a ordem do dia como subiu vários degraus dentro dela: Tempo Fechado, de Bruce Sterling, de 1994, que aborda os riscos do aquecimento global e da mudança climática de maneira um tanto exagerada, mas eficaz e interessante.

Igualmente notável, ou mais ainda, foi a quantidade e variedade de títulos nacionais de ficção científica e fantástica publicadas em 2008. A qualidade, entretanto, ainda deixa bastante a desejar. Dos que este resenhista chegou a ler, o único que está disposto a recomendar sem ressalvas é Fábulas do Tempo e da Eternidade, de Cristina Lasaitis (Editora Tarja, 174 págs., R$ 20)

Há vários outros títulos dignos de interesse, ou pelo menos de curiosidade, por parte dos aficionados, mas cuja narração, linguagem ou consistência deixaram a desejar. Um exemplo é um pequeno romance intitulado O Imane Devastador, do carioca L. Cláudio A. Belo (Editora Corifeu, 176 págs., R$ 25).

Não se julgue o livro pela capa, dizem. Mas neste caso, a capa, se não ajuda em nada a editora ou o autor, ao menos serve como honesta advertência. Comecemos pelas boas notícias: o autor não massacra a língua portuguesa tanto quanto a estética ou as técnicas literárias. Não há muito mais de bom a dizer.

Para resumir o ponto de partida da trama, um cientista em busca de fórmulas para aumentar a produtividade agrícola inventa acidentalmente um soro que faz células se expandirem quarenta mil vezes em cada direção, o que significa muitos trilhões de vezes em volume. Também por acidente, um ser humano é contaminado por essa substância e fica com dezenas de quilômetros de estatura. Mais que um gigante, atinge as proporções de um acidente geográfico – melhor dizendo, de uma catástrofe global.

A ideia de um “soro do crescimento” não é nova. A premissa foi usada por H. G. Wells no romance O Alimento dos Deuses, de 1904, sem falar dos filmes estadunidenses e japoneses dos anos 50 protagonizados tanto por humanos quanto por formigas, aranhas e outros bichos ampliados por experiências com novas armas, radiações ou intervenções alienígenas.

Mas no livro de Wells, os homens afetados pelo tratamento atingem meros doze metros de altura e o mais descabelado dos B-movies a retomar a ideia chamava-se A Mulher de Quinze Metros (“Attack of the 50 Foot Woman”, de 1958). A escala da amplificação imaginada por Cláudio Belo é tão imensa que traz consequências qualitativamente novas e o autor tenta explorá-las de maneira criativa e interessante.

Jorge dos Santos, o infeliz protagonista, mal consegue encontrar água doce e alimento – as florestas são para ele como limo, baleias, como grânulos. Precisa andar de quatro, para que seu nariz esteja a uma altitude na qual o ar ainda seja suficientemente denso para ser respirado: cada vez que tenta ficar de pé, é sufocado. Destrói cidades e regiões inteiras sem perceber, ao caminhar ou atender a suas necessidades fisiológicas, porque seres humanos e a maioria de seus veículos e construções tornaram-se, de seu ponto de vista, pequenos demais para serem notados. Atravessa oceanos em minutos e julga que foi misteriosamente transportado para um minúsculo asteróide.

O problema é que o pressuposto é grotescamente implausível e o autor não se esforçou o suficiente para encontrar maneiras cientificamente engenhosas de torná-lo menos absurdo, nem soube usar a linguagem para criar um clima fantástico que convide o leitor a suspender a descrença e aceitar o impossível.

De onde viriam os trilhões de toneladas de massa necessárias para expandir um corpo humano a tais dimensões em minutos ou horas? Um leitor regular e atualizado de ficção científica faz essa pergunta, e ainda outras: como uma célula, cuja bioquímica evoluiu para funcionar com poucos micrômetros de extensão, poderia continuar a desempenhar as mesmas funções depois de expandida para o tamanho de uma bola de futebol?

Ou, para ficar no básico: como ossos e músculos suportariam pressões e tensões quarenta mil vezes maiores do que o normal, já que a massa se expandiria muitos trilhões de vezes, mas a área, um mero bilhão? Galileu Galilei já notou esse problema no século XVII e deduziu que se existissem gigantes com altura duas vezes maior que um humano normal, teriam de ter pernas não duas vezes, mas quase três vezes mais grossas pois o peso oito vezes maior exigiria que ossos e músculos tivessem uma área oito vezes maior (logo, um diâmetro 2,8 vezes maior). Por isso, elefantes têm patas proporcionalmente muito mais grossas do que, digamos, os cavalos.

Em vez de amenizados ou justificados por uma história bem construída, os pontos fracos da premissa são acentuados pela inverossimilhança do enredo. Nos anos 20 ou 30, talvez parecesse aceitável ao leitor ingênuo de ficção científica pulp que um cientista solitário e idealista criasse milagres em um laboratório de fundo de quintal; em 2008, até uma criança sabe que pesquisa de ponta é feita em equipe, em grandes instituições empresariais, governamentais ou universitárias. A isso se soma um enredo cheio de clichês desatualizados, acidentes forçados e reações absurdas (o cientista que faz a tal descoberta fantástica e perigosa a larga descuidadamente na mesa e vai tomar uma cerveja e ler um romance...)

Se não bastasse, o autor abusa de preciosismos descabidos. Um exemplo está no título. Este resenhista confessa que precisou ir ao pai dos burros para saber o que significa “imane” (sinônimo de “imenso”). Isso em si não é grave – não é que o autor devesse levar em conta a ignorância deste leitor em particular – mas o nome de “imane devastador” teria sido dado ao supergigante por um militar estadunidense, mas immane é pelo menos tão arcaico em inglês quanto seu equivalente em português e extremamente improvável na boca de qualquer um, exceto, talvez, um professor de literatura dos mais pedantes. Um patrulheiro da guarda-costeira dos EUA diz que “está com um auspício” e um funcionário da NASA que diz que “a Índia virou um averno” e por aí vai. Convenhamos que usar tais termos em diálogos que deveriam parecer espontâneos não contribui para a verossimilhança da história.

Desperdiçou-se uma ideia que, por estranha que pareça, poderia ter sido mais bem usada para provocar à imaginação. Um autor de ficção científica engenhoso talvez também pudesse criar algo de instigante. Um autor com talento para lidar com o fantástico, o absurdo ou o grotesco – um Jonathan Swift, um José J. Veiga, um José Saramago, digamos – poderia ter tirado dela uma obra interessante para um público mais amplo. Infelizmente, do jeito que foi escrita, só pode ser indicada como curiosidade, ou para o equivalente literário dos apreciadores do cinema trash, aqueles para os quais não há maior diversão do que a ruindade exagerada de um enredo precário com diálogos piores.