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Tutto nel mondo è burla!

por Alexandre Freitas — publicado 04/03/2010 15h41, última modificação 20/09/2010 15h42
Tutto nel mondo è burla!

Tutto nel mondo è burla!

E, numa solenidade inesperada, Falstaff se dirige ao público: “Todos enganados!” O coro repete a frase mezzo piano e, em um grande crescendo, os cantores entoam a risada final. Giuseppe Verdi se despede do mundo.

“Depois de ter feito ressoar todos os gritos e todas as lamentações do coração humano, terminar com uma imensa explosão de hilaridade! Que coisa deslumbrante!”. É assim que se expressa Arrigo Boito, o autor do libreto da última ópera de Verdi. Saída digna do mais teatral dos compositores.

Sem mais amplas melodias ou maiores arrebatamentos dos solistas, Falstaff é uma obra dos conjuntos vocais. Construções harmônicas e melódicas engenhosas encadeiam os coros femininos e os masculinos. Falstaff, aquele para o qual sua barriga era seu reino, é personagem das “Alegres comadres de Windsor” de Shakespeare. “Grande poeta”, “grande trágico”, “a própria encarnação do teatro” era como Verdi se referia ao escritor inglês. Ele precisava fundir o drama e a música, mas sem trair seu ídolo. Tinha que ser autêntico na natural impossibilidade de autenticidade de uma adaptação de ópera. “Copiar o verdadeiro pode ser bom, mas inventar o verdadeiro é ainda melhor”, são suas palavras e sua solução.

Verdi levou quase três anos para compor Falstaff e, na sua estréia, aos 80 anos de idade, cuidou de cada detalhe: escolha dos cantores, cenários, figurinos. No calor do público, Gioachino Rossini acolhia radiante o grand finale do mestre italiano.

Sábado passado era o humilde colunista que, na galeria do Théâtre des Champs Elysées, acolhia e descobria, estupefato, na aurora da sua melomania operística, a grandeza do Shakespeare de Verdi. Falstaff revelava pouco a pouco tudo aquilo que tínhamos intuído logo nos primeiros compassos. A música é densa, mas de uma densidade disfarçada de leveza. Alguns entusiastas dizem que o Falstaff de Verdi supera a peça de Shakespeare. Abstenho-me de opinar.

Só sei que Anthony Michaels-Moore inventou o verdadeiro Falstaff. E a bela italiana Anna Caterina Antonacci, desde o ano passado Chevalier de l'Ordre National de la Légion d'honneur da França, encarnou a heroína brilhando em sua discrição. Alice, com a ajuda das comadres, orquestrava as lições ao marido ciumento, ao malandro Falstaff e, como se não bastasse, une a filha a seu verdadeiro amor. Sucesso de uma direção cênica simples e direta de Mario Martone e da direção musical perfeita de Daniele Gatti à frente da Orquestra Nacional da França.

Nada de burla, para nos convencer de que Tutto nel mondo è burla.

O finale da ópera sob direção de George Solti e com Gabriel Bacquier, aqui.