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Crônica

Turma do Fundo

por Alberto Villas publicado 21/08/2014 16h59, última modificação 21/08/2014 17h03
Com trauma do tal do interativo, não quero ficar correndo risco
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Já passei apertos por sentar na frente, quando não tinha mais lugar no fundo

Sempre odiei a primeira fileira. Não importa de onde, se do cinema, do teatro, da palestra, da aula, do avião. Morro de medo da primeira fileira, desde pequenininho. Desde o primário, quando o primeiro da fila era o encarregado de limpar o quadro-negro ou era chamado lá na frente pra falar o que é trigonometria, quais são os afluentes do rio Amazonas e qual é a capital da Noruega. Por isso, sempre sentei lá no fundo, se possível na última fileira.

Já passei apertos por sentar na frente, quando não tinha mais lugar no fundo. Um dia, num espetáculo do Cirque du Soleil, no Parque Villa-Lobos, quando o malabarista foi aproximando, aproximando e chegando pertinho de mim, pensei em me passar por cego, sair correndo ou ou simplesmente fingir um desmaio. Sorte que ele passou raspando em mim e pegou a próxima vítima, que estava sentada bem ao meu lado. Dei sorte.

Já deixei de viajar um tempo pela TAM quando o RH da empresa colocou dois palhaços pra fazer um pocket show antes do avião decolar na ponte-aérea. Acho que, por isso, também nunca fui ver uma peça do Zé Celso Martinez Corrêa. E o medo de ele me chamar lá na frente e me colocar inteiramente nu diante da plateia? Gosto do Zé Celso, já até ficou hospedado na minha casa uma época, mas peça dele, nem escondido na última fileira.

Um dia estava na Euro Disney com minhas filhas, quando elas inventaram de ver um sei lá o quê interativo. Entramos numa sala enorme e quando as luzes se apagaram, quem eu vejo diante dos meus olhos, pertinho do meu nariz? Um Mickey Mouse iluminado, todo animado, olhando nos meus olhos esbugalhados e dizendo: Bonjooooouuurr! Quase tive um troço.

Em segundos, achei que teria que subir no palco e dançar um twist com o Pluto, feito um Pateta. Só respirei aliviado quando minha filha me cutucou e disse que todos estavam vendo o mesmo Mickey em 3D. Ufa!

Nunca gostei do meu aniversário, só por causa do parabéns. Eu ali iluminado por aquelas velinha e todo mundo ao redor cantando e batendo palmas e olhando para mim. Todo 3 de agosto, o que mais peço é: Por favor, sem parabéns!

Quando vejo uma rodinha de espetáculo em praça pública, mudo de calçada. E o medo de me chamarem pra participar? Ficar lá no meio segurando uma faca, um lenço e fingindo que estou adorando tudo aquilo.  Tô fora! Definitivamente, não gosto de nada participativo, interativo, nada que termine em ivo.

Hoje cedo, estava num ponto de ônibus na Avenida Luiz Carlos Berrini e, meio atrasado, optei pelo táxi. Passou um, dois, três e nada de parar. Veio um quarto, devagar e quando foi se aproximando, vi escrito na porta: Táxi-karaokê!

Esfriei. O motorista era japonês e deu um sorrisinho amarelo. Fingi que não era comigo e achei mais prudente pegar o ônibus. Já pensou eu dentro de um táxi, sozinho com um japonês, cantando “Pense em mim/Chore por mim/Liga pra mim/Não, não liga pra ele...”

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