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Turismo sentimental

por Rosane Pavam publicado 17/07/2009 15h05, última modificação 16/09/2010 15h06
Viajo para esquecer e para lembrar. O corpo abandona a brutalidade de um período de trabalho no momento do embarque. E no primeiro sinal de trânsito de uma cidade nova já se avista um lembrete de diferença. Jamais uma placa de proibido estacionar será pregada da mesma forma em Salvador, Florianópolis ou Poços de Caldas. Diante das convenções, felizmente, os homens ainda se portam com liberdade.

Viajo para esquecer e para lembrar. O corpo abandona a brutalidade de um período de trabalho no momento do embarque. E no primeiro sinal de trânsito de uma cidade nova já se avista um lembrete de diferença. Jamais uma placa de proibido estacionar será pregada da mesma forma em Salvador, Florianópolis ou Poços de Caldas. Diante das convenções, felizmente, os homens ainda se portam com liberdade.

Não viajo muito hoje em dia, desobedecendo a uma inclinação natural. As viagens são caras e um pouco trabalhosas, mesmo feitas em deliciosas companhias. Mas sei de uma coisa, depois de alguns anos em que desejei transformar em templos as ruas e os prédios desconhecidos. As cidades não combinam com a uniformização do capital.

Há sempre quem deseje torná-las idênticas e fracasse. A aldeia é o detalhe. Na Verona de quase vinte anos atrás, a rúcula nascia entre as pedras do museu de história antiga, a céu aberto. Os homens, vestidos para uma feira como eu me poria em um casamento, andavam de mãos dadas em Milão. Na Bahia desfilavam os mais belos seres sobre a Terra, assoprando doçura. Em Santa Catarina, eram trabalhadores puros. Sobre os fios elétricos, pássaros coloridos cantavam alto. Poços de Caldas mergulhava na embriaguez de árvores escuras. O passado se aprofundava.

De todas as viagens que faço, não resta a geografia exata dos locais. Persegue-me a ausência de um senso de direção ou de uma objetividade cartográfica. Não sou capaz de dizer em que rua me hospedei na Buenos Aires de 1991. Mas me lembro da cidade livre para o passeio da noite. As mulheres sacavam orgulhosamente seus celulares novos. Os botões de seus tailleurs algo militares eram grandes e dourados. E a Buenos Aires antiga parecia existir apenas na esquecida La Plata.

Em Paris, lembro-me da rua Amelot porque seu nome me foi ditado com clareza por um taxista árabe. Havia uma pizzaria simples diante do hotel americano. Sobre a massa, o queijo era o camembert. Os garçons deixavam entrar as vendedoras de flores a dez francos e meu filho, então com dois anos, confundia a expressão dix francs com “de frango”, imaginando que um sabor ainda mais raro de pizza o esperasse. Estes fatos, imagino, não remeteriam qualquer um à ideia global de Paris.

Obviamente, a cidade se transforma naquilo que entendemos por ela. A rue Amelot é tudo que guarda meu coração sobre a capital francesa? Não, certamente, mas, por enquanto, o principal.

Os nomes não importam, embora haja os marcantes. A avenida Antonio Carlos Magalhães em Salvador existia antes que o próprio estivesse morto. Os retratos do político eram pendurados nas paredes dos boxes do Mercado Central, e ele parecia tão santo para algumas pessoas como o Gardel nas paredes do bairro La Boca.

Lembro-me que deixei a Itália uma semana antes do início da Copa do Mundo, embora adorasse os jogos de futebol, ou talvez por isso, considerando nosso time de 1990. Não presenciei os navegantes baianos do Dois de Fevereiro há quatro anos. Mas fiquei um tempo a mais na Plaza de Mayo quando os aposentados ali exigiram mais recursos do governo.

De maneira geral, sou infeliz no tumulto dos eventos, a menos que me veja incumbida de relatá-los. Nestas ocasiões, defendo-me ao transformá-los em personagens de uma narrativa necessária. Usualmente, contudo, não quero uma cidade para narrar sobre ela. Quem não preferiria vivê-la distraidamente?

Paraty não é mais bonita quando ali há feiras literárias (ou seriam apenas feiras?). Estive lá no ano passado para entrevistar Neil Gaiman durante um jantar. Mas Neil Gaiman não responde o que a gente pergunta, especialmente se perguntamos algo diferente do que ele está habituado a dizer. Virou um personagem, como outros. Paraty é melhor sozinha, a meu modesto ver.

A propósito, um leitor me manda um email agora, mostrando seu inconformismo diante da apreensão de livros independentes vendidos durante a Feira Literária de Paraty. O escritor Rodrigo Ciríaco teria tido 16 exemplares de seu Te Pego Lá Fora, pelas edições Toró, tomados. Oferecer edições independentes e caseiras pelas mesas da cidade durante a feira me parece ser uma tradição. E não creio que a venda de obras sem distribuição comercial se constitua atitude a manchar o caráter literário, ou ideário, da Flip. A cidade fechará suas livrarias? Talvez Te Pego Lá Fora tenha sido vítima de sua boa apresentação. É menos um panfleto, mais um livro. Mais candidato a Chico...

Novas cidades, lá vou eu. Viajo por alguns dias, deixando o caro leitor livre de mim. Aguardo ansiosa o esquecimento que se seguirá às lembranças. Ou as lembranças que virão depois de ter esquecido tudo.