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Crônica do Villas

Trilha sonora

por Alberto Villas publicado 13/12/2012 09h08, última modificação 06/06/2015 18h56
Foram anos e anos sem Internet, sem Instagram, sem Skype, sem iPhone, sem iPad
paris

Foto: Miguel Medina/AFP

 

Em Paris

Sempre que perambulo pelas ruas dessa cidade maravilhosa eu me lembro dos muitos anos que passei aqui sem colocar os pés no meu país. Foram anos e anos sem Internet, sem Instagram, sem Skype, sem iPhone, sem iPad. Eram tempos de cartas que chegavam em envelopes verde e amarelo escritos assim: Via Aérea/Par Avion.

Meus pais iam envelhecendo, meus sobrinhos nascendo, crescendo, meus avós morrendo, e eu aqui. Sempre que venho a Paris volta à minha cabeça a trilha sonora que cantava baixinho em cada passo que dava pela cidade. Quanto mais o tempo ia passando e eu caminhando à beira do Sena cantava para os meus botões a certeza de que um dia a areia branca meus pés iriam pisar e que iria molhar meus cabelos a água azul do mar.

Quando abria o pacote cheio de jornal Movimento, muitas vezes com minhas matérias mutiladas, não dava outra: Tá legal, eu aceito o argumento, mas não me altere o samba tanto assim. Vinha aquela raiva de dentro e a vontade de não voltar nunca mais. Não me perguntava, não me respondia, não me procurava e não me escondia. Ficava calado, me deixava mudo.

Nas manhãs de folga ia até a Place des Voges, sentava num banco verde frio e às vezes úmido do orvalho e quando via aquelas crianças encapotadas correndo pra lá e pra cá, eu me perguntava cantando baixinho: Existirmos, a que será que se destina?

Segunda-feira era dia de ir ao aeroporto buscar os jornais que vendia na Livraria Portuguesa, bem ali na Rue des Écoles. Da janela do ônibus embaçado de suor cantarolava: Vai meu irmão, pega esse avião, você tem razão de correr assim desse frio, mas beija o meu Rio de Janeiro antes que um aventureiro lance mão.

Era atravessando o Jardin du Luxembourg rumo a faculdade, céu escuro ainda, que caia na real. Nessa hora eu era apenas um rapaz latino-americano sem dinheiro no bolso, sem parentes importantes e vindo do interior.

Na Pont Neuf me vinha uma força estranha. Observando aqueles bateaux mouches passando cheio de japoneses dando tchau, eu olhava, olhava e tinha vontade de cantar alto, bem alto: Eu sou da América do Sul! Eu sei, vocês não vão saber mas agora sou cowboy sou do ouro, eu sou do mundo, sou Minas Gerais!

No verde tão lindo dos gramados do Jardin des Tulleries eu pensava na grama do aterro, nos hipócritas rondando ao redor, nos amigos presos, amigos sumindo pra nunca mais.

No metrô, todas as noites, sentado naquele vagão quase que solitário eu via pessoas com um ar cansado de um dia inteiro de trabalho e tentava assobiar baixinho: Lava roupa todo dia, que agonia, na quebrada da soleira, que chovia.

Nas ruas do Châtelet, entrando no Boulevard Sébastopol e saindo na Rue de Rivoli, remando contra aquela maré de gente apressada eu era o avesso do avesso. Olhava um a um que passava e ia cantando: Você precisa saber da piscina, da margarina, da Carolina, da gasolina, você precisa saber de mim.

Quando colocava os pés do lado de fora da Livraria Joie de Lire, depois de folhear todos aqueles jornais alternativos da América do Sul que lutavam contra suas ditaduras, não pensava em outra coisa: O que será, que será?
Que andam suspirando pelas alcovas, que andam sussurrando em versos e trovas, que andam combinando no breu das tocas
, que anda nas cabeças anda nas bocas, que andam acendendo velas nos becos, que estão falando alto pelos botecos
e gritam nos mercados que com certeza
está na natureza.
Será, que será?

Nas madrugadas frias, trabalhando bem abaixo de zero na autoestrada A2, entre um café e outro eu tinha uma única certeza cantarolando: Amanhã se der o carneiro, o carneiro, vou-me embora daqui pro Rio de Janeiro.

Músicas citadas:

. Debaixo dos caracóis dos seus cabelos (Roberto e Erasmo Carlos)

. Argumento (Paulinho da Viola)

. Me deixe mudo (Walter Franco)

. Cajuína (Caetano Veloso)

. Samba de Orly (Chico Buarque/Toquinho)

. Apenas um rapaz latino-americano (Belchior)

. Para Lennon e McCartney (Fernando Brant/Marcio Borges/Lô Borges)

. Não chore mais (versão: Gilberto Gil)

. Juventude transviada (Luiz Melodia)

. Baby (Caetano Veloso)

. O que será? (Chico Buarque)

. Carneiro (Ednardo)

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