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Tratamento de choque

por Antonio Luiz M. C. Costa publicado 30/03/2011 16h56, última modificação 30/03/2011 18h49
O teórico Slavoj Zizek problematiza a "chantagem liberal" de que todo projeto político emancipado leva a catástrofes e ditaduras
Tratamento de choque

O teórico Slavoj Zizek problematiza a "chantagem liberal" de que todo projeto político emancipado leva a catástrofes e ditaduras. Por Antonio Luiz M.C. Costa

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Em defesa das Causas Perdidas (Boitempo, 480 págs., R$ 69) é uma síntese do crescente interesse de Slavoj Zizek pelas grandes revoluções e seus momentos de terror revolucionário – notadamente em edições comentadas de textos de Robespierre, Lenin e Mao, publicadas no Brasil – com suas críticas da cultura de massas e do pensamento político e filosófico contemporâneo. Publicado em inglês em 2008, ficou mais instigante ao chegar aqui em 2011, depois que a crise econômica global e a série de revoltas árabes encerraram uma era de aparente prosperidade econômica e marasmo político mundiais.
A trajetória de Zizek assemelha-se à de muitos dissidentes do Leste Europeu. Membro do partido comunista esloveno até 1988 – embora tivesse conexões com dissidentes e sua tese de mestrado fosse condenada como “não marxista” em uma fase de endurecimento do titoísmo – podia ser considerado sem muitas dúvidas um pós-marxista nos últimos anos do regime e primeiros da nova ordem, quando chegou (em 1990) a ser candidato à Presidência da Eslovênia pelo centrista Partido Liberal-Democrata.
Muitos europeus do Leste inicialmente entusiasmados com as possibilidades da democracia liberal e da integração à União Europeia desiludiram-se: pesquisas de opinião mostram a força da nostalgia da era soviética. Já Zizek não lamenta os velhos tempos, mas busca uma saída para a frente e é hoje menos marxista do que pós-pós-marxista. O objetivo da nova obra, apesar de vastas digressões (valiosas em si mesmas) que abordam desde a crítica da música de Prokofiev até as relações da Turquia com a União Europeia, é problematizar a democracia e a “chantagem liberal”, a ideia de que todo projeto político de emancipação leva a catástrofes e ditaduras, e refletir sobre o conceito de revolução.
Para Zizek, o problema não é redescobrir a ortodoxia marxista, mas reinventar a imaginação e enfrentar o medo e a condenação moralista do sonho revolucionário. Implica aplaudir a ousadia da ruptura, não só apesar da violência radical como, até certo ponto, por causa dela. Ainda que a recíproca não seja verdadeira, não há ruptura autêntica sem terror – pois é assim que os fatos são vistos a partir do paradigma violentado, de quem é expropriado do que tinha como justo e natural: moral, direitos, propriedades e privilégios.

Para melhor enfatizar o argumento, Zizek discute entre as causas perdidas que merecem resgate teórico, além dos jacobinos e marxistas-leninistas, o apoio de Michel Foucault à revolução iraniana que levou os aiatolás ao poder e até mesmo Martin Heidegger, filósofo que aderiu ao nazismo em 1933 e nunca o repudiou totalmente. Para Zizek, foi “o passo certo, embora na direção errada”.
Avisa, por outro lado, que o terror pode ser uma maneira de encobrir o fracasso, o equivalente político da “passagem ao ato” no sentido psicanalítico – a situação no qual o indivíduo troca a conscientização por ações transgressivas e excessivas que têm uma relação apenas simbólica com seus desejos.
A revolução cultural de Mao seria exemplo dessa “impotência de gerar o novo”, que se refletia também na rejeição maoísta do conceito hegeliano-marxista de “negação da negação”, a síntese dialética que deveria resultar da tese e antítese e que o líder chinês só conseguia entender como uma indesejável acomodação entre uma posição e sua negação radical ou simples destruição do inimigo. Zizek explica seu verdadeiro significado: “Em primeiro lugar, a velha ordem é negada no interior de sua forma político-ideológica; depois essa própria forma tem de ser negada. Os que temem dar o segundo passo e superar a própria forma querem a ‘revolução sem revolução’”.
A verdadeira vitória não ocorre quando o inimigo é vencido ou aniquilado, mas quando passa a falar a língua do vencedor – como quando os social-democratas de Tony Blair passaram a aceitar a lógica do neoliberalismo de Margaret Thatcher. Mao e Stalin falharam não por serem extremistas, mas por encobrirem com o terror sua incapacidade de serem revolucionários de fato.
Mas Zizek só dá exemplos de causas perdidas. Como distinguir a revolução “falsa” da “verdadeira”, capaz da transformação social real? Nesse ponto, o pensamento do filósofo esloveno, em geral racional, apesar dos ziguezagues e da ocasional falta de rigor, flerta com o misticismo. Melhor o engajamento desastroso que a indiferença. A fé no “Evento” redentor e imprevisível, capaz de trazer a mudança revolucionária, se torna um valor em si, mesmo que leve a apostar em Hitler. Soa como a aposta de Pascal e está sujeito à mesma objeção: ainda que se aceite o argumento de que vale a pena apostar a vida na existência de Deus, como saber em qual deus apostar?

Se o centro-esquerda, principalmente o europeu, perdeu o sentido da verdadeira política para defender posições morais dentro do arcabouço neoliberal, parece que Zizek igualmente o perdeu para defender posições filosóficas e existenciais distantes da prática. Quando trata do aqui e agora, o esloveno só mostra simpatia para com a mobilização das favelas por Hugo Chávez, mesmo se é claro que também não rompe com o capitalismo.
E o livro conclui com um “Que se há de fazer” evocativo de Lenin que aponta mais para o medo do que para a esperança: a proposta de “justiça igualitário-revolucionária” para impor a todos os países as mesmas restrições per capita de consumo de energia e emissão de dióxido de carbono. Mesmo que se aceite isso como justo e necessário, não há nessa fórmula abertura ao novo, mas uma espécie de alternativa coletivista, “de esquerda”, ao sobrevivencialismo individualista da direita dos EUA, sem outro horizonte do que o da subsistência física, com uma ênfase no terror e na repressão soa mais como um vingativo ecofascismo do que como um ecossocialismo que aspire a uma nova forma de vida, desenvolvimento e liberdade.
Mesmo que constitua mais uma sarcástica provocação de Zizek, páginas antes ocupado em advertir sobre a “ecologia do medo” e o ecologismo como novo ópio do povo, é um sinal de que estar consciente da necessidade de superar os referenciais do atual debate político não é o mesmo que saber fazê-lo. •

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Tratamento
de choque
FILOSOFIA | Slavoj Zizek resgata o radicalismo para romper com a chantagem liberal
POR ANTONIO LUIZ M. C. COSTA
Em defesa das Causas Perdidas (Boitempo, 480 págs., R$ 69) é uma síntese do crescente interesse de Slavoj Zizek pelas grandes revoluções e seus momentos de terror revolucionário – notadamente em edições comentadas de textos de Robespierre, Lenin e Mao, publicadas no Brasil – com suas críticas da cultura de massas e do pensamento político e filosófico contemporâneo. Publicado em inglês em 2008, ficou mais instigante ao chegar aqui em 2011, depois que a crise econômica global e a série de revoltas árabes encerraram uma era de aparente prosperidade econômica e marasmo político mundiais.
A trajetória de Zizek assemelha-se à de muitos dissidentes do Leste Europeu. Membro do partido comunista esloveno até 1988 – embora tivesse conexões com dissidentes e sua tese de mestrado fosse condenada como “não marxista” em uma fase de endurecimento do titoísmo – podia ser considerado sem muitas dúvidas um pós-marxista nos últimos anos do regime e primeiros da nova ordem, quando chegou (em 1990) a ser candidato à Presidência da Eslovênia pelo centrista Partido Liberal-Democrata.

Muitos europeus do Leste inicialmente entusiasmados com as possibilidades da democracia liberal e da integração à União Europeia desiludiram-se: pesquisas de opinião mostram a força da nostalgia da era soviética. Já Zizek não lamenta os velhos tempos, mas busca uma saída para a frente e é hoje menos marxista do que pós-pós-marxista. O objetivo da nova obra, apesar de vastas digressões (valiosas em si mesmas) que abordam desde a crítica da música de Prokofiev até as relações da Turquia com a União Europeia, é problematizar a democracia e a “chantagem liberal”, a ideia de que todo projeto político de emancipação leva a catástrofes e ditaduras, e refletir sobre o conceito de revolução.
Para Zizek, o problema não é redescobrir a ortodoxia marxista, mas reinventar a imaginação e enfrentar o medo e a condenação moralista do sonho revolucionário. Implica aplaudir a ousadia da ruptura, não só apesar da violência radical como, até certo ponto, por causa dela. Ainda que a recíproca não seja verdadeira, não há ruptura autêntica sem terror – pois é assim que os fatos são vistos a partir do paradigma violentado, de quem é expropriado do que tinha como justo e natural: moral, direitos, propriedades e privilégios.

Para melhor enfatizar o argumento, Zizek discute entre as causas perdidas que merecem resgate teórico, além dos jacobinos e marxistas-leninistas, o apoio de Michel Foucault à revolução iraniana que levou os aiatolás ao poder e até mesmo Martin Heidegger, filósofo que aderiu ao nazismo em 1933 e nunca o repudiou totalmente. Para Zizek, foi “o passo certo, embora na direção errada”.
Avisa, por outro lado, que o terror pode ser uma maneira de encobrir o fracasso, o equivalente político da “passagem ao ato” no sentido psicanalítico – a situação no qual o indivíduo troca a conscientização por ações transgressivas e excessivas que têm uma relação apenas simbólica com seus desejos.
A revolução cultural de Mao seria exemplo dessa “impotência de gerar o novo”, que se refletia também na rejeição maoísta do conceito hegeliano-marxista de “negação da negação”, a síntese dialética que deveria resultar da tese e antítese e que o líder chinês só conseguia entender como uma indesejável acomodação entre uma posição e sua negação radical ou simples destruição do inimigo. Zizek explica seu verdadeiro significado: “Em primeiro lugar, a velha ordem é negada no interior de sua forma político-ideológica; depois essa própria forma tem de ser negada. Os que temem dar o segundo passo e superar a própria forma querem a ‘revolução sem revolução’”.
A verdadeira vitória não ocorre quando o inimigo é vencido ou aniquilado, mas quando passa a falar a língua do vencedor – como quando os social-democratas de Tony Blair passaram a aceitar a lógica do neoliberalismo de Margaret Thatcher. Mao e Stalin falharam não por serem extremistas, mas por encobrirem com o terror sua incapacidade de serem revolucionários de fato.
Mas Zizek só dá exemplos de causas perdidas. Como distinguir a revolução “falsa” da “verdadeira”, capaz da transformação social real? Nesse ponto, o pensamento do filósofo esloveno, em geral racional, apesar dos ziguezagues e da ocasional falta de rigor, flerta com o misticismo. Melhor o engajamento desastroso que a indiferença. A fé no “Evento” redentor e imprevisível, capaz de trazer a mudança revolucionária, se torna um valor em si, mesmo que leve a apostar em Hitler. Soa como a aposta de Pascal e está sujeito à mesma objeção: ainda que se aceite o argumento de que vale a pena apostar a vida na existência de Deus, como saber em qual deus apostar?

Se o centro-esquerda, principalmente o europeu, perdeu o sentido da verdadeira política para defender posições morais dentro do arcabouço neoliberal, parece que Zizek igualmente o perdeu para defender posições filosóficas e existenciais distantes da prática. Quando trata do aqui e agora, o esloveno só mostra simpatia para com a mobilização das favelas por Hugo Chávez, mesmo se é claro que também não rompe com o capitalismo.
E o livro conclui com um “Que se há de fazer” evocativo de Lenin que aponta mais para o medo do que para a esperança: a proposta de “justiça igualitário-revolucionária” para impor a todos os países as mesmas restrições per capita de consumo de energia e emissão de dióxido de carbono. Mesmo que se aceite isso como justo e necessário, não há nessa fórmula abertura ao novo, mas uma espécie de alternativa coletivista, “de esquerda”, ao sobrevivencialismo individualista da direita dos EUA, sem outro horizonte do que o da subsistência física, com uma ênfase no terror e na re Slavoj Zizek resgata o radicalismo para romper com a chantagem liberalpressão soa mais como um vingativo ecofascismo do que como um ecossocialismo que aspire a uma nova forma de vida, desenvolvimento e liberdade.
Mesmo que constitua mais uma sarcástica provocação de Zizek, páginas antes ocupado em advertir sobre a “ecologia do medo” e o ecologismo como novo ópio do povo, é um sinal de que estar consciente da necessidade de superar os referenciais do atual debate político não é o mesmo que saber fazê-lo. •