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Tórridos trópicos

por Jose Luiz Tahan — publicado 30/11/2010 16h27, última modificação 30/11/2010 16h29
As aventuras santistas do desenhista italiano Milo Manara, que esteve no Brasil para encontros com o público e para desenvolver projeto gráfico sobre a mulher brasileira

As aventuras santistas do desenhista italiano Milo Manara, que esteve no Brasil para encontros com o público e para desenvolver projeto gráfico sobre a mulher brasileira

A van chega com quatro horas de atraso a Santos na noite do dia 16. Aguardam o desenhista italiano Milo Manara a equipe que o levará ao encontro de seus leitores, sua tradutora, a assessoria de imprensa do evento e a emissora de televisão local. Ele vem do Rio de Janeiro sem utilizar ponte aérea. Um dos maiores artistas da história em quadrinhos, Manara só viaja de avião quando não há outro jeito. Ele teria preferido vir pelo mar. Mas, iniciados há três anos, os contatos para levar o artista à Baixada Santista esbarraram sempre na complicada logística de recebê-lo em um navio. A temporada dos cruzeiros marítimos não coincidia com as datas imaginadas para sua permanência na cidade. A van foi a solução.

Vinte minutos antes que o veículo chegasse, e para controlar a insegurança de quem apreciava por demais seus livros, mas se encontrava tenso à espera de uma conversa com o artista-autor, parecia melhor aguardá-lo fora do confortável saguão do hotel. Chega a van e, de dentro dela, saem Manara e esposa, seu editor italiano e companheira, agente dos livros na França. Enquanto a bagagem é transportada, Manara acende um charuto. Contudo, ao saber que concederá entrevista, rapidamente o apaga, para logo em seguida procurar um cantinho onde repousá-lo, em meio a algumas folhagens. Trinta minutos mais tarde, depois de responder a tantas perguntas, Manara volta discretamente ao local para resgatar seu charuto.

Para os que não o conhecem, Milo Manara, 65 anos, é um dos maiores e mais cultuados artistas de quadrinhos adultos. Dono de um traço delicado e firme, como a carne de suas belas musas de papel, ele tem pelo mundo um séquito de fãs que colecionam apaixonadamente suas histórias, como Clic, Verão Índio e El Gaucho (publicadas, aqui, pela Conrad, de cujas edições ele muito elogia as capas).

Naquela noite, a fera repousou, para, no dia seguinte, perambular de forma quase anônima pela cidade de Santos. Passamos o dia com Manara e sua comitiva, caminhamos por ruas do centro antigo, comemos peixe, bebemos cerveja e café, nessa ordem. No interior do prédio da Bolsa Oficial do Café, ele conhece as pinturas de Benedito Calixto, que retratou Santos em épocas diferentes, em detalhes arquitetônicos e perspectivas que chamaram sua atenção. Manara, é bom lembrar, estudou arquitetura antes de encontrar o caminho dos quadrinhos.

Chegara o momento do bate-papo, evento que prometia um grande público no Sesc. Manara estava curioso sobre o conteúdo da conversa, além de desejar entender o tipo de plateia que iria encontrar naquela noite. Ele carregava para cima e para baixo um DVD misterioso, com imagens que gostaria de projetar enquanto falava ao público. Um bate-papo ilustrado? Melhor impossível.

Para que os leitores tirassem o máximo de proveito da noitada, montamos uma equipe com uma tradutora, um jornalista e um mediador, que, juntos, conversariam com o convidado, cada um com uma missão bem definida. O tempo, infelizmente, não permitiria perguntas da plateia. Pelo que se conhece dos fãs ávidos de Manara, abrir o microfone talvez significasse submeter o mestre a uma sabatina que só acabaria na manhã seguinte. O jornalista Celso de Campos Jr., autor de Adoniran – Uma biografia (Globo), foi então convocado para a tarefa de conduzir a entrevista.

Cerca de 400 pessoas compareceram ao teatro do Sesc de Santos para viver uma noite na companhia do artista. No palco, ele lhes contou sobre seu ingresso no mundo do desenho, sua opção pelos quadrinhos adultos, além de relatar curiosidades pessoais. Manara se disse um homem de extrema sorte, dando ênfase à palavra sorte. Sabíamos que a maioria da plateia estava ali para ouvir as histórias supostamente devassas do maior desenhista de mulheres nuas do planeta. Pois a conversa com Manara, para surpresa de muitos, desviou-se para suas incríveis histórias com o diretor italiano Federico Fellini (1920-1993), de quem foi parceiro e amigo, uma relação que misturava irreverência e admiração mútua.

O DVD misterioso que ele preparara continha verdadeiras relíquias. -Havia imagens de trabalhos que realizara em conjunto com o cineasta, uma parceria que começou quando Fellini leu uma história em quadrinhos na qual Manara não colocava ponto final (no último quadrinho, lia-se a expressão “sem fim”). Fellini, contou o artista, não gostava de ver a palavra fim ao término de suas películas, preferindo deixá-las prosseguir na imaginação de seus espectadores.

O relato de Manara estendeu-se pelos bastidores de Viagem a Tulum, HQ que desenvolveu em parceria com Fellini. Trata-se de uma história delirante, que o cineasta gostaria de ter filmado, mas que ficou mesmo no papel por circunstâncias no mínimo estranhas. Disse o artista que Fellini leu e ficou entusiasmado com os livros de Carlos Castañeda, e que foi atrás dele, no México, em Tulum. Castañeda era místico, não foi simples tentar contato. Depois de muito procurar pelo escritor, Manara desistiu. Frustrado, voltou à Itália. Mas aí foi Castañeda quem o procurou.

Até então, a ideia era a de fazer um filme com o roteiro de Viagem a Tulum, mas alguns episódios desencorajaram a dupla. Fellini recebia telefonemas misteriosos, com uma voz metálica que ameaçava colocar ponto final na carreira do cineasta caso fossem adiante os planos de filmar a cultura tolteca. Castañeda, aterrorizado, pulou fora. Fellini achou melhor acatar as primeiras orientações do interlocutor- metálico. Os contatos continuavam, ora ameaçando, ora elogiando o projeto, o que parecia ainda mais inusitado. Por fim, Tulum ficou apenas no papel.

Além dessa obra espetacular, Manara realizou cartazes para filmes de Fellini e o retratou em várias oportunidades, como se pode observar na exposição contendo suas ilustrações Uma Vida Chamada Desejo, em cartaz na Oficina Cultural Oswald de Andrade, em São Paulo, até 11 de dezembro. Mas o diretor escolheu um grande amigo para compor seu alter ego nas aventuras desenhadas, Marcello Mastroianni. É o ator que se vê retratado nas aventuras de Tulum e em outras obras do diretor.

Sou livreiro, editor da Realejo Livros, e faço a ele uma questão que me acompanha. Por que, quando somos crianças, quase todos desenhamos, e na vida adulta quase ninguém desenvolve a habilidade do traço? Na opinião de Manara, as crianças que continuam a desenhar depois dos 4 ou 5 anos tendem a manter o gosto e, por consequência, a aumentar a chance de ser artistas. O fato de aprendermos a escrever, desenvolvendo o raciocínio, inibiria a descrição por imagens? Manara relembrou que descendemos do Homo sapiens, que já desenhava nas paredes das cavernas, ao contrário do parente mais distante, o Neanderthal, que não dominava essa prática. Como se vê, são inquietações sem respostas definitivas.

Milo Manara fez ainda vários elogios à mulher brasileira, que deve ser tema para seu próximo trabalho, a partir de um convite da editora Casa 21, do Rio, que o trouxe ao Brasil. Manara também falou sobre outro livro inédito que terá como personagem central uma modelo do pintor Caravaggio, naquela mistura de que o artista gosta, entre vida real, história e fantasia.

Ninguém saiu do teatro de Santos antes do fim. Os aplausos foram demorados, o público em pé. Em alguns minutos, começaria a sessão de autógrafos. Manara sentia calafrios. Algumas aspirinas efervescentes haviam minado o problema ao longo do dia, mas, naquele momento, ele não estava bem. O enorme público se avolumava em uma fila que dava voltas no foyer do teatro. Ele decidiu aceitar um chá quente. Aliviado, empunhou uma caneta hidrográfica e fez um sinal de positivo com a cabeça. Caminhou decidido até o local onde autografaria seus livros.

Por força da gripe, só alguns autógrafos vieram acompanhados de desenhos. Eles eram destinados ao leitor que se dizia cartunista, que fazia aniversário ou dava uma piscada, jeitinho brasileiro na veia. Algumas manifestações foram inusitadas. Um cliente da livraria se ajoelhou gritando “Obrigado! Obrigado!” Mas a melhor aconteceu com o próprio Manara. Uma moça fez reverência e tascou um beijo na mão do autor. No mesmo instante, ele exclamou: “Eu, um santo padre?!” A ironia foi deliciosa, já que Milo é autor da série Bórgia, que escancara segredos nebulosos da Igreja Católica. Depois de atender até o último leitor, a comitiva seguiu dia 18 para São Paulo, última parada antes do retorno a Verona.