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Tomie Ohtake completa 97 anos e inaugura exposição inédita

por Arlete Gomes — publicado 22/11/2010 16h18, última modificação 31/01/2011 11h39
A mostra, que conta com 25 obras em tamanhos grandes,será aberta nesta terça 23.Por:Arlete Gomes.Foto:Julio Taubkin
Tomie Ohtake completa 97 anos e inaugura exposição inédita

A mostra, que conta com 25 obras em tamanhos grandes, será aberta nesta terça 23. A Arlete Gomes.Foto:Julio Taubkin

A mostra trará  25 obras em tamanhos grandes que trazem o círculo como protagonista

Tomie Ohtake inaugura exposição com obras inéditas no instituto que leva seu nome. A mostra abrirá as comemorações do 10º ano da instituição que coincide com a semana do aniversário de 97 anos da artista plástica comemorado no próximo domingo 21. As 25 telas foram produzidas nos últimos quinze meses e apresentam formatos grandes, de 1,5 metros a 2 metros. Nelas, Tomie usa a círculo como inspiração. A abertura da exposição será no próximo dia 24.

Nascida no Japão em 1913, a artista veio para o Brasil com 23 anos, mas só iniciou sua trajetória artística aos 40 anos de idade. Em 1973 naturalizou-se brasileira. Sua arte tem como princípio o reinventar, com isso coleciona premiações e é conhecida no Brasil e no mundo. 

CartaCapital entrevistou Ricardo Ohtake, arquiteto, filho da artista e diretor geral do Instituto Tomie Ohtake

CartaCapital: Há quanto tempo a Tomie Ohtake não realizava uma exposição no próprio Instituto?
Ricardo Ohtake
: Quando inauguramos fizemos uma exposição com uma retrospectiva do trabalho dela, depois tivemos outra com a coleção do crítico Miguel Chaia. Uma exposição com obras recentes, inéditas, é a primeira vez que faremos no Instituto.

CC: A exposição que está em cartaz no Mamam, em Recife, traz obras da artista com trabalhos agrupados por épocas diferentes e ficam nítidas as mudanças de técnicas ao longo da carreira. A exposição que será inaugura no Instituto Tomie Ohtake retrata uma nova fase?
RO:
Totalmente nova. Ela resolveu pegar o círculo como tema do trabalho, não especificamente para exposição. O círculo está presente no trabalho dela de 20 anos para cá. Já produziu umas 15 obras que tivessem círculos. O círculo que ela faz agora é mais geométrico do que os que ela fazia anteriormente, não totalmente, é uma figura geométrica que ela gosta de fazer.

CC: Qual a imagem que ela tem do círculo e qual a finalidade de explorá-la. Seria sua simbologia oriental? Tem para ela uma conotação especial?
RO:
É uma forma sintética. Ela considera a forma mais sintética que existe, pois é preciso trabalhar com muita precisão, por conta disso, sempre faz o círculo numa relação com a tela e em cada tela ela faz de um jeito, seja a textura, a borda ou colocando círculos um dentro do outro. Nesta exposição o círculo ocupa quase que a tela inteira e apresenta uma ampla variação. As obras retomam um vocabulário que ela usou a vida toda. O jeito com que trabalha essa figura geométrica é de um vocabulário que ela já usou, assim como fez para esta exposição.

CC: No trabalho dela encontramos pinturas, gravuras, esculturas. Ela tem preferência em trabalhar com alguma destas artes?
RO:
O maior tempo de trabalho dela é com pintura. No caso da gravura ela trabalha com a matriz e quem executa a impressão é um profissional que a auxilia na preparação da chapa matriz, nos banhos químicos, na impressão e nas provas. O tempo que ela gasta para fazer uma gravura é bem menor do que o que gastaria para fazer uma pintura, mas ela faz uma quantidade de pinturas muito maior do que de gravuras. Em um ano e meio ela pintou essas 25 telas, nesse período não fez nenhuma gravura. Se ela se propõe a fazer uma série de gravuras termina em dois ou três meses. Escultura, ela faz os modelos e uma metalúrgica ou usina executam do tamanho que precisa.  São peças enormes, de três, cinco e até quinze metros. Tem peças menores que não tem como ela entortar o ferro, então faz com o pessoal da metalúrgica. O tempo que ela gasta para fazer as peças é menor, mas o que se concentra em fazer são pinturas.

CC: A Caixa Cultural, como parte das comemorações de seus 150 anos, abriu a maior mostra simultânea do País. Nela poderão ser vistas obras de artistas como Di Cavalcanti e Portinari, entre outros. A Tomie aparece entre uma das mulheres de maior expressão, levando-se em consideração que o número de artistas mulheres é inferior ao de homens. Ela se considera uma precursora da inserção de mulheres na arte no Brasil?
RO:
Essa é uma questão que nem passa pela cabeça dela. Ela sabe da existência da Tarsila (do Amaral) da Anita (Malfatti). No Brasil as mulheres artistas trabalhavam muito cedo, no começo do século elas já trabalhavam muito e no modernismo as mulheres começaram a exercer ativamente a profissão de artista. Ela começou a trabalhar com quase 40 anos, em 1952 já havia muitas artistas mulheres que produziam arte.

CC: Como ela consegue manter suas características e o reforço de suas convicções sem ser induzida pela cultura de massa e pelo apelo do consumo em que muitos novos artistas se submetem a fim de se adequarem ao sistema de mercado?
RO:
Ela usa o termo arte comercial. Ela vê uma pintura é diz: “Essa pintura é muito comercial”. Pinturas para quem está preocupado em vender. Tomie acha que é uma coisa extremamente pejorativa. A preocupação de vender não é algo que ela tenha tido em sua trajetória artística. Vender ou agradar realmente não é uma preocupação que passa por sua cabeça. É claro que fica contente quando as pessoas gostam, mas não está preocupada em agradar simplesmente. Ela quem tem que gostar. Essa questão de ética na arte é muito forte na geração dela, que trabalha desde 1950. Para ela é importante não fazer arte comercial e não se preocupar com gostos, para agradar.

CC: Entre os prêmios já conquistados por ela no Brasil, melhor pintora 74, 79, 83, artista do ano, Prêmio Nacional de Artes Plásticas. Tem algum que ela gosta mais? E as esculturas, na lagoa Rodrigo de Freitas, a de homenagem à imigração japonesa, tem alguma que ela mantém um carinho especial?
RO:
Em geral ela gosta do último. Aquele monumento que fica na entrada do aeroporto de Cumbica, feito em homenagem ao centenário da imigração japonesa, foi o último que fez e é ela gosta muito. Fala muito daquela obra. O próximo que ela fizer deve ser a que irá gostar mais.

CC: Quanto ao aniversário de 97 anos? Como ela vê essa data? Qual o significado para ela?
RO:
Ela falou: “Puxa eu estou ficando velha”. (risos)

CC: Como é o dia a dia dela?
RO:
Ela trabalha diariamente, começa às 10hs da manhã e vai até umas 18hs que é quando acaba a luz do dia. Tem dias em que faz outras coisas depois das 18hs, por exemplos, esculturas. Por trabalhar com modelos, pode fazê-los sem a luz do dia. Trabalha praticamente todos os dias, porém antes trabalhava mais, mas a idade fez com que ela trabalhe um pouco menos, pois se cansa mais.

CC: Ela se mostra uma pessoa disposta?
RO:
Sempre. Entusiasma-se para fazer as coisas. No dia do aniversário dela, combinou de almoçar com familiares e amigos, umas 15 pessoas. A noite verá o show do Paul McCartney (Domigo 21). Quando recebeu o convite, do ex-jogador de futebol Raí, disse que iria. Assim como foi ao show da Madonna há dois anos atrás.

CC: E a entrada do 10º ano do Instituto?
RO:
Comemoramos a entrada do ano 10. Dia 23 inauguraremos a exposição da Tomie Ohtake que no dia 24 será aberta para o público. Dia 25, pela primeira vez, faremos um concerto no hall de entrada do Instituto. Será um concerto com músicas de Villa-Lobos com o quarteto da cidade São Paulo, Ensemble SP, junto com o quinteto Pau-Brasil e o cantor Renato Braz. Será uma apresentação com música erudita e música popular. Para assistir ao concerto bastará retirar um ingresso antecipado.

Clique na imagem para ampliar e confira alguns dos trabalhos de Tomie Ohtake

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Exposição: Tomie Ohtake – Pinturas Recentes
Abertura: 24 de novembro de 2010
Terça a domingo, das 11h às 20h – entrada franca
Instituto Tomie Ohtake
Av. Faria Lima, 201 (Entrada pela Rua Coropés) - Pinheiros SP 
Fone: 11.2245-1900