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Cultura

Crônica

Tio Orlando

por Matheus Pichonelli publicado 13/03/2012 15h52, última modificação 13/03/2012 18h08
Aos 84, o ex-maquinista não reconhecia amigos nem parentes. Cultivava poucas distrações fora as brincadeiras com uma cachorrinha poodle
maquinista

Meu tio Orlando foi talvez o único maquinista de trem que conheci na vida – e me interessava, desde criança, pelas histórias que minha vó contava sobre ele. Foto: Galeria de fernand0/Flickr

Logo depois do almoço, minha vó reuniu as filhas e o neto para fazer seu único pedido daquelas férias de fim de ano: que a acompanhássemos até a casa do tio Orlando, seu último irmão vivo, em São José do Rio Preto.

Era uma tarde quente de fim de ano, na semana entre as festas de Natal e Ano Novo. Quem é ou conhece a região sabe que as rajadas solares não costumam perdoar amadores por aqueles lados. Ainda assim, entupimos o carro e fomos para a cidade.

Aos 84 anos, tio Orlando estava doente, já não reconhecia amigos nem parentes, e cultivava poucas distrações na vida fora as brincadeiras com uma cachorrinha poodle toda torta que parecia ter nascido antes que seu dono.

A casa era simples, de paredes gastas, sem jardim, quadros ou livros em estante. Dos tempos áureos, só ficaram as paredes. Por causa do calor, não se via gente pelas ruas, brincando, correndo, falando, tomando sorvete. O bairro estava deserto e mudo enquanto o sol tentava esturricar a todo custo as pedras das calçadas e o piche das avenidas.

Estacionamos junto com outro automóvel. Do outro carro saltou uma figura vestida de preto, de aparentes 60 anos, os cabelos brancos e um rosto gordo, com sotaque não identificável a olho nu. Era um padre.

Sem entender o que acontecia, entramos na casa juntos, ressabiados. Tio Orlando estava de pijamas, vestimenta comum em seus últimos dias, e uma acompanhante de idosos de olhar cansado, camiseta larga e um símbolo do Santos Futebol Clube pendurado no pescoço.

Tio Orlando saldou a irmã e acusou certo estranhamento diante dos sobrinhos.

-Como tá, Orlando?, perguntou minha vó.

-Morrendo, respondeu, como quem se queixa de dor nas costas.

Menos de dois anos antes, era ele quem visitava a irmã no hospital. Minha avó passava por uma delicada cirurgia de joelho, e foi surpreendida certo dia ao ver o irmão mais velho subir as escadas com a ajuda de uma bengala, distribuindo beijos à distância assim que a viu. Naquela visita, fez minha vó, com medo da cirurgia, acreditar que eles deixariam aquele hospital andando pela porta da frente, o que não tardaria a acontecer.

Em pouco tempo era ele que mal podia andar, preso a uma cadeira da sala de entrada.

 

Olhava para ele e tinha dificuldade para reconhecer o tio que conheci quando criança, e que há tanto não visitava. Magro, arqueado, com dificuldade de ingerir ou reter líquidos e alimentos, era só sombra do homenzarrão vaidoso, de bochechas elásticas e bigode que o deixavam a cara de um Rubem Braga engordado. Foi talvez o único maquinista de trem que conheci na vida – e me interessava, desde criança, pelas histórias que minha vó contava sobre ele, sobre os caprichos com o uniforme, sobre os passeios com as sobrinhas pelos trilhos que cortavam o interior paulista (trilhos que haviam empregado também meus avôs paterno e materno). Depois da morte da mulher, criou praticamente sozinho as filhas ainda adolescentes, duas delas gêmeas, formadas professoras.

Eram elas que, na ausência da mãe, ajudavam na casa e preparavam a marmita para o pai em plena madrugada, quando assumia seu turno na ferrovia.

Lembrava dele numa visita à nossa casa, do sorriso solto que parecia não caber no rosto, e da generosidade no cumprimento e trato com os netos, meus primos, e das histórias das aventuras amorosas em plena terceira idade. Era figura rara, o tio.

Ainda fazia força para associá-lo com aquele homem que estava diante de mim quando o padre pediu para ficar sozinho com o doente. Deveria ouvir a sós os pecados do dono da casa, muitos, talvez, associados às suas duas antigas paixões – as mulheres e o Corinthians (e talvez não nessa ordem).

Ficamos no quintal, em silêncio e maldizendo o sol que àquela altura estourava miolos desprotegidos. Em instantes, fomos chamados de volta, para acompanhar a extrema unção. Gelamos.

Era a primeira vez que assistia ao sacramento, espécie de instante preparatório para a morte. O cenário não poderia ser mais adequado: naquela sala de paredes nuas, o padre deu início em voz baixa à oração e logo foi interrompido pelos céus. A primeira rajada veio tímida, mas a segunda sacudiu as bases da janela entreaberta. Começava a chover.

O som da benção era abafado pelo estardalhaço das gotas que se arrebentavam no chão quente. As cortinas rodopiavam, e todos correram para fechar portas e frestas de janelas, de onde olhava, de fora, o tempo limpo e o céu azul no entorno das outras casas. Em pânico, a cachorra grudou nas pernas do dono, a quem lambia como quem prepara um presente.

Parecia inacreditável, mas a tempestade foi embora assim que a unção se encerrou. Naquela tarde de dezembro, mesmo com o caminho pavimentado pelo padre que acabava de visitar o tio, minha vó ainda puxaria a orelha do irmão, pedindo para ele parar de bobagens e não falar mais da morte – morte que estava desenhada até na sombra que pairava pela casa, já condenada pela idade e pela velhice.

-Ih, Orguinha (era como ele chamava a minha vó, Olga). Isso não é para agora, não. Isso vai ser bem depois.

Em silêncio, voltamos para casa sabendo que aquela era a última visita ao tio doente – menos minha avó, que, mesmo com o joelho gritando, voltou a visitar o Orlando, o último de seus cinco irmãos, todos os dias, até o último domingo 11, quando ele partiu de vez com uma única queixa da vida que deixava: por que os cães não acompanham seus donos quando entram nos quartos da UTI?