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Cultura

Crônica

The book is on the table

por Alberto Villas publicado 19/04/2012 10h37, última modificação 06/06/2015 18h56
Mister Élcio era um professor de inglês que não ria nunca, ninguém nunca o viu esboçando uma ameaça de sorriso. Era um poço de mistério, uma pedra

Confesso que fiquei muito assustado quando entrei pela primeira vez naquele casarão do século passado, mais precisamente na sala de número 4 do Colégio de Aplicação da Universidade Federal de Minas Gerais, na Rua Carangola 288, para assistir a primeira aula de inglês, logo eu que não sabia o que era yes, o que era no.

Se algum dia muitos anos depois alguém me pedisse um retrato falado de Mister Élcio não seria nada difícil. Era um homem de meia-idade, uns quarenta e cinco cinquenta anos, cabelos grisalhos, orelhas grandes, sobrancelhas bem fechadas, bigode farto, boca fechada, sisuda. Era um homem que vestia sempre o mesmo terno cinza, ninguém sabia se era único ou se tinha vários ternos cinza todos com o mesmo corte, o mesmo modelo. A camisa era branquinha, limpa, engomada, muito bem passada. A gravata era azul marinho, as meias pretas e os sapatos também pretos.

Mister Élcio era um professor de inglês que não ria nunca, ninguém nunca o viu esboçando uma ameaça de sorriso. Mister Élcio não era de conversa, chegava na sala de aula e a primeira coisa que fazia era colocar uma pasta de couro em cima da mesa e imediatamente começar a apagar o que estava escrito no quadro negro, não importava o quê. Tratava-se de um homem metódico, sistemático mesmo, que começava a apagar o quadro negro sempre pela esquerda e ia apagando bem devagar até deixá-lo limpinho.

Mister Élcio abria a caixinha de giz de várias cores e começava a escrever sem parar tudo em inglês. No final ele dava o recado em duas palavras: Tomorrow, test. Ninguém sabia nada sobre Mister Élcio, nem mesmo o seu sobrenome. Era Mister Élcio e só e pronto. Se era casado, se tinha filhos, onde morava, se tinha cachorros ou gatos, o que comia, que músicas ouvia, que livros lia. Mister Élcio era um poço de mistério, uma pedra.

O teste no dia seguinte começava por ordem alfabética, de Abel a Wellington. Todos desfilavam ali na frente respondendo as questões que ele escrevia no quadro negro com giz azul. A resposta deveria ser em amarelo e se alguém pegasse o giz errado ele simplesmente dizia: Yellow!

Na última sexta-feira do mês Mister Élcio aplicava uma prova escrita. Respondíamos a dez questões numa folha de papel almaço e essas provas chegavam todas corrigidas religiosamente na aula seguinte. Sem dizer uma palavra ele ia distribuindo as provas corrigidas uma a uma chamando pelo nome, de Abel a Wellington. Nas questões certas Mister Élcio colocava um C e nas questões erradas colocava um X.

No final do mês o resultado final vinha numa Caderneta Escolar de capa dura, a soma da arguição com a prova escrita dividido por dois. Durante um ano inteiro convivi com Mister Élcio. Confesso que perdi noites estudando, tentando entender as lições do livro Spoken English de João Fonseca. Passei raspando, como se dizia, com um 5 cravado no quadrinho onde estava escrito: Inglês Resultado Final.

Hoje meu inglês ainda é ruim mas sei perfeitamente o que que dizer a frase que ele escreveu no quadro negro no primeiro dia de aula na sala de número 4 daquele casarão do século passado: The book is on the table!