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Tempo de releitura

por Antonio Luiz M. C. Costa publicado 24/03/2008 16h24, última modificação 15/09/2010 16h25
Quem já leu O Gene Egoísta de Richard Dawkins há tempos e sensatamente o considerou uma obra sobre seleção natural, genética e evolução das espécies talvez não precise se dar a mais trabalho. Mas quem a entendeu como manifesto político ou ensaio sobre filosofia ética ou sociedade – principalmente aqueles que o conheceram de ouvir falar – deveria tomar conhecimento da edição comemorativa dos 30 anos do lançamento original, de 1976.

Quem já leu O Gene Egoísta de Richard Dawkins há tempos e sensatamente o considerou uma obra sobre seleção natural, genética e evolução das espécies talvez não precise se dar a mais trabalho. Mas quem a entendeu como manifesto político ou ensaio sobre filosofia ética ou sociedade – principalmente aqueles que o conheceram de ouvir falar – deveria tomar conhecimento da edição comemorativa dos 30 anos do lançamento original, de 1976.

A tese fundamental – da qual Dawkins não foi o criador, mas o popularizador mais eficaz – é de que o objeto da seleção natural e da evolução não é a espécie, a população, o grupo ou o organismo, mas o gene. “Nós, e todos os outros animais, somos máquinas criadas pelos nossos genes”, é seu mote.

A idéia tem ampla aceitação entre especialistas, embora não unânime. Richard Lewontin rejeita esse enfoque reducionista e insiste na importância da dialética entre genes, organismos e ambiente para explicar a evolução. O famoso Ernst Mayer insistiu, até a morte em 2005, que a unidade de seleção é o organismo individual expresso como um fenótipo, não o gene. David Sloan Wilson procura demonstrar, com argumentos empíricos e teóricos, que há fenômenos evolutivos que só podem ser explicados pela seleção de grupo.

Mas esse debate, ainda hoje, mal chegou ao leigo. O que tornou esse livro um best-seller polêmico, que já vendeu mais de um milhão de cópias em todo o mundo, foi o curto-circuito entre a noção técnica de “egoísmo do gene” e uma suposta defesa do egoísmo enquanto comportamento humano.

A época colaborou para isso: a primeira edição foi publicada pouco depois da ascensão da ultra-individualista Margaret Thatcher ("Não existe essa coisa de sociedade, o que há e sempre haverá são indivíduos") à liderança do Partido Conservador britânico e do lançamento da Sociobiologia de Edward Wilson, que pregava um estrito determinismo genético do comportamento humano. Milton Friedman assessorava Pinochet e escrevia que a (única) "responsabilidade social das empresas é aumentar seus lucros".

Mas o próprio Dawkins teve sua parcela de responsabilidade, ao exagerar no ímpeto retórico contra biólogos e antropólogos então populares que, como Konrad Lorenz, enfatizavam a importância da cooperação e “supuseram que o importante na evolução é o bem da espécie (ou do grupo), em vez do bem do indivíduo (ou do gene)”. No primeiro capítulo, Dawkins cunhou frases que facilmente passariam por slogans neoliberais (ou coisa pior). “Como os bem-sucedidos gângsteres de Chicago, nossos genes sobreviveram (...) num mundo altamente competitivo. Isso nos permite esperar deles algumas qualidades (...). Uma qualidade predominante que se pode esperar de um gene bem-sucedido é o egoísmo implacável. Em geral o egoísmo do gene originará um comportamento individual egoísta. (...) Por mais que desejemos acreditar no contrário, o amor universal e o bem-estar da espécie como um todo são conceitos que simplesmente não fazem sentido do ponto de vista evolutivo.”

Ao longo do livro, muitas ressalvas importantes são feitas – das quais, a mais importante é que isso não implica que as pessoas deveriam ser egoístas. Pelo contrário, segue no mesmo capítulo: “Tratemos então de ensinar a generosidade e o altruísmo, porque nascemos egoístas”. Ironicamente, também essa frase bem-intencionada aprofunda a confusão e no fundo é falaciosa, reconhece hoje o cientista. Genes não têm mentes e seu metafórico “egoísmo” nato não tem um sentido que possa ser contrastado com o altruísmo a ser ensinado às crianças (ou equiparado ao egoísmo humano real).

Os riscos de mal-entendidos se ampliam no último capítulo da edição original – que desde 1989, com o acréscimo de dois novos capítulos bastante técnicos, tornou-se o antepenúltimo. Ali, Dawkins propôs a tese muito mais arrojada, original e controvertida – na verdade, escassamente levada a sério no meio acadêmico, a não ser pelo seu criador – de que também a cultura pode ser reduzida a unidades “egoístas” auto-replicantes chamadas “memes”.

No último parágrafo desse capítulo, o autor volta a expressar posições morais e políticas – e é para, louvar nosso “poder de desafiar os genes egoístas que herdamos e, se necessário, os memes egoístas com que fomos doutrinados” e propõe “discutir maneiras de ensinar deliberadamente o altruísmo puro e desinteressado”, pois “somos os únicos na Terra com o poder de nos rebelar contra a tirania dos replicadores egoístas”. Até mesmo “a despeito de sermos pessimistas e de assumirmos o pressuposto de que o ser humano é fundamentalmente egoísta”, como escrevera pouco antes.

O leitor médio, porém, aparentemente ignorou tais passagens que, segundo Dawkins, deveriam ter bastado para evitar mal-entendidos. Especialistas e leigos mais perspicazes à parte, tanto os fãs quanto os críticos da obra entenderam que, segundo o livro, nossas vidas deveriam ser guiadas pelo egoísmo, que os seres humanos são fundamentalmente gângsteres de Chicago e que, gostemos ou não, comportamentos abomináveis são parte inescapável de nossa natureza.

Um dos fãs mais exaltados do livro veio a ser Jeffery Skilling, presidente da Enron que fez de O Gene Egoísta seu livro de cabeceira. Criou um método de administração “darwinista” e fez da empresa um ninho de fraudadores sem escrúpulos, gângsteres gananciosos e sociopatas insensíveis, o que acabou por levá-la à falência, como bem relatou o documentário Enron: The Smartest Guys in the Room, de Alex Gibney (2005). Em nota de rodapé a Deus, um Delírio, Dawkins explicitou sua profunda consternação com o episódio.
É para tais leitores que a edição comemorativa é indispensável. Em uma das notas de rodapé acrescentadas desde a edição de 1989, Dawkins já esclarecia, em relação a uma passagem controvertida, que votava nos trabalhistas e repudiava o thatcherismo: “Agora que a Grã-Bretanha tem um governo da nova direita, que elevou a mesquinharia e o egoísmo à categoria de ideologia, as minhas palavras parecem ter adquirido, por associação, um tom desumano, o que eu lamento.”

Na nova introdução, o autor explica o caráter metafórico da personificação antropomórfica dos genes contida no título e outras passagens da obra, convida o leitor a suprimir mentalmente frases enganadoras (que continuam, mesmo assim, no texto), esforça-se por dar as chaves para uma leitura correta e quase pede desculpas. Mais uma vez, insiste em que não deveríamos derivar nossos valores do darwinismo e que podemos e devemos nos rebelar contra os genes que insiste em chamar de “egoístas”.

A história da obra e de sua recepção continua, porém, a ilustrar os riscos da retórica e do sensacionalismo na popularização da ciência. Segundo Steven Rose, amigo e colega biólogo do autor, teorias como as popularizadas por O Gene Egoísta tiveram um papel na guinada à direita do final dos anos 70, como instrumento da contra-revolução conservadora e da construção de sua concepção de natureza humana como xenofóbica e competitiva. Acrescentaríamos que foi a isso, mais que ao mérito científico, que esse livro deveu seu sucesso editorial e a marca que deixou na história.

Dawkins, irritado, chamou isso de “atirar no mensageiro” – castigar o portador de más notícias, diríamos. Deveria antes ter aprendido que quem traz mensagens importantes deve tomar cuidado com a maneira de transmiti-la. Uma retórica descuidada não só obscurece, como pode inverter o sentido pretendido. A ideologia que parece expressar na superfície pode soar muito mais compreensível e relevante para a vida do leigo do que o conteúdo científico que está no fundo, mas o leitor foi mal preparado para apreender.