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Taxista, por acaso Edenilson

por Rodrigo Martins publicado 27/08/2010 12h07, última modificação 27/08/2010 12h09
Silva garante ter inventado a mala de rodinhas, o Plano Real e o Poupatempo. Entre outras...

Silva garante ter inventado a mala de rodinhas, o Plano Real e o Poupatempo. Entre outras...

Ele mal completou o ensino primário, lê e escreve com dificuldade, nunca ocupou cargos públicos, mas é o responsável por inovações que mudaram a vida do brasileiro. Da mala de rodinhas ao Plano Real, há uma infinidade de criações que o taxista Edenilson Gomes da Silva, de 54 anos, jura ser o autor. Sempre disposto a prosear com os passageiros, viu, porém, suas ideias serem apropriadas por terceiros. E decidiu cobrar a fatura.

“Se quiserem me chamar de mentiroso, tudo bem. Registrei minha história em dois livros e, se quiser checar as informações, fique à vontade”, afirma Edenilson, hoje dividido entre o volante e as sessões de autógrafos na Bienal Internacional do Livro de São Paulo. “Mas fiquem tranquilos, não vou brigar por patentes.”

O taxista desembolsou, no ano passado, 3 mil reais para imprimir 500 exemplares do primeiro livro, Não Foi por Falta de Ideias, um relato autobiográfico no qual expõe algumas de suas invenções solertemente surrupiadas pelos passageiros. “Meus clientes adoraram, já vendi 300 cópias”, comemora. Ele acaba de lançar na Bienal sua segunda obra, Ideias e Teorias de um Taxista (mais 500 exemplares, por 4 mil reais). Desta vez, uma história sobre as semelhanças entre os planetas e os seres vivos com o homem. Das roupas que protegem o corpo como a camada de ozônio protege a Terra às similitudes entre a flatulência e a atividade vulcânica.

“No começo, eu achava que o Edenilson era meio, como posso dizer, lunático, né? Mas depois percebi que muitas coisas que ele fala fazem sentido, tanto que foi convidado para a Bienal”, comenta Marcelo Pires, 42 anos, colega do motorista-escritor no ponto de táxi, entre as ruas Oscar Freire e Artur de Azevedo, no bairro de Pinheiros.

Uma das primeiras invenções de Edenilson teria sido a mala de rodinhas, no início da década de 90. “Peguei um passageiro para levar ao aeroporto e reparei que ele arrastava a mala no chão. Pensei em voz alta: ‘Se essa bagagem tivesse rodinhas, o senhor não teria todo esse trabalho’”, conta o taxista visionário. “O cliente adorou a ideia e sugeriu que eu registrasse a patente. Passei três meses até descobrir o local que fazia isso, bati na porta até da Secretaria de Indústria e Comércio. Quando finalmente cheguei lá, me avisaram que a patente havia sido requerida no exterior, um ou dois meses antes. E foi o meu passageiro, porque depois eu vi o cabra dando entrevista na televisão”, diz, sem esconder o ressentimento.

A partir de então, foi uma sucessão de coincidências. Ele comentava suas ideias com passageiros e pouco depois elas viravam políticas públicas. “Não posso dizer que roubaram todas essas invenções, mas que eu pensei antes, pensei.” Ao levar um engravatado para um escritório próximo da Ponte do Morumbi, ouviu no rádio uma reportagem sobre a dificuldade de os cidadãos retirarem a segunda via de documentos perdidos. “Na hora, dei a solução. Reunir num mesmo lugar todos os órgãos de expedição, para acabar com a burocracia. Minha ideia era até mais ousada. Eu imaginei que esse mesmo lugar pudesse centralizar todas as ofertas de emprego da cidade, para facilitar a vida do empregador e do trabalhador.”

Coincidência ou não, alguns meses depois viu o governador Mário Covas inaugurar o primeiro Poupatempo, em 1997, próximo à Praça da Sé. “Tudo bem, você pode dizer que outra pessoa pensou a mes-ma- coisa. Mas com o mesmo nome que eu tinha dado?”, pergunta o taxista. Ele não voltou a ver o misterioso passageiro que ouviu, em primeira mão, sua ideia. Nem guarda rancor. “Se ajudou a população, está tudo bem. Só fiquei chateado com a perda da patente da mala de rodinhas, porque eu teria condições de fabricá-la.”

Filho de um fazendeiro abastado no interior da Bahia que perdeu a fortuna ao mergulhar no alcoolismo, Edenilson migrou para São Paulo com a família ainda na infância. Capinou terrenos baldios e trabalhou como vendedor e balconista antes de virar taxista, há mais de 30 anos. Dos poucos anos de estudo, aprendeu a ler e escrever precariamente. Tanto que precisou de auxílio para escrever os livros.
“Na Bienal, fiquei até meio constrangido ao lado daqueles escritores bambambãs. Sou semianalfabeto, sabe? Mas muito curioso. Não entendi o significado da palavra business, numa placa da exposição, e um passageiro me explicou que eram negócios, em inglês. Agora que sei o que é, vou correndo atrás desse tal Espaço Business da Bienal”, brinca. A despeito da baixa escolaridade, opina sobre temas complexos, como política e economia, com a propriedade de quem se considera um dos pais do Plano Real.

“No trânsito da Avenida 9 de Julho, conversava com um passageiro sobre o governo Collor e a inflação. Daí falei sobre a ideia de criar a URV, uma unidade de valor variável para acompanhar os preços dos produtos. Se um saco de arroz custa 5 unidades nessa semana, tem de custar 5 sempre”, explica Edenilson. “Mas já nessa conversa alertei que esse era só um estágio, antes da criação de uma moeda forte. Batizei essa moeda de real, porque me lembrei de alguma aula da minha infância que dizia ser este o nome da primeira moe-da do Brasil. Dinheiro de verdade, para acabar de vez com aquela farra de cruzeiros, cruzados, cruzeiros novos etc.”

O taxista refuta a pecha de ser um mero contador de causos, uma versão abrasileirada de Forrest Gump. “Repare que eu te explico como tive todas essas ideias, não falo simplesmente o milagre”, afirma. Edenilson garante ainda ter orientado políticos a gerir a cidade. “Dei muitas dicas para o Marco Aurélio Garcia, que era secretário de Cultura da prefeita Marta Suplicy e hoje é assessor do Lula. Ele pegou meu táxi várias vezes e eu sugeri uma monte de coisas para a cidade, como essas viradas culturais e a Parada Gay. Eu dizia: ‘Falta lazer para o povo. Vamos fazer carnavais temáticos, inclusive para os gays, como ocorre em outros lugares do mundo’.”

Das revolucionárias invenções do taxista, existe uma que ele guarda a sete chaves: a solução para as enchentes em São Paulo. “Desafio qualquer engenheiro a dar uma solução como a minha. Só que, desta vez, vou guardar o segredo para ter reconhecimento. Dou apenas uma dica: a água precisa fluir como num rio. As tubulações da cidade estão todas erradas, fazem as águas se chocarem”, explica, com ar de mistério. “E uma das alternativas é fazer a água subir ladeira.” Diante da perplexidade do repórter, Edenilson não se faz de rogado: “É mais fácil do que você imagina”.

De fato, para quem domou a inflação e criou tantas inovações, o desafio das enchentes parece um problema menor.