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Crônica / Matheus Pichonelli

Tal pai, tal filho

por Matheus Pichonelli publicado 29/01/2016 05h36, última modificação 29/01/2016 08h09
Tentei durante anos imitar a caligrafia, a organização e a habilidade do meu pai em descascar a laranja. Desisti. Do resto herdei quase tudo
Paul Ralphs/Flickr
Pai e filho

Ser pai, ou mãe, é padecer na incompletude. É não deixar de ser filho – ou neto, ou irmão, ou amigo – mas perambular em dívida pela insuficiência de tentar estar em todos os lugares, se desdobrar e não estar em nenhum

Giro a garrafa em direção à torrada. O percurso é lento, custoso até a bolha de ar chegar ao fundo e empurrar o mel para fora. Ele me olha entre curioso e impaciente.

- Olha, pai, tá saindo!

Com o dedo sujo da canetinha azul (a mãe bem avisou que era pra lavar as mãos), ele esfrega o mel na fatia e leva à boca.

Aguardo sua reação como quem aguarda um referendo. Tenho feito isso desde que troquei, pelas manhãs, a margarina pelo mel, mas só hoje meu filho resolveu me acompanhar. Com a boca já melada, ele morde o dedo, me olha, olha para a garrafa, já recomposta em seu volume.

Morde mais um pedaço e pede mais, e eu fico em dúvida se abro de novo a garrafa de mel ou se faço uma foto desse pequeno passo para a humanidade e grande salto para o pai que descobre os prazeres da transmissão de um legado.

É como se, inconscientemente, me sentisse finalmente vingado após fracassar miseravelmente fazendo-o dormir no vídeo-tape da final do Campeonato Paulista de 1993 ou dos meus desenhos favoritos quando tinha a idade dele.

Penso se algum dia, daqui a 30 anos, ele vai se lembrar do dia em que seu pai o levou para conhecer o mel ou as pedras de gelo. Lembrará que estávamos sozinhos em casa, a mãe já no trabalho, ele em cima da mesa, entre uma garrafa e um laptop onde o pai, ainda de pijama, tentava entregar o primeiro texto do dia?

Lembrará que me fez vestir, a contragosto, o gorro de Papai Noel, como tem feito todos os dias, para vergonha de quem é olhado pela janela, desde o fim do Natal? Lembrará das folhas de desenho esparramadas entre uma bola do Brasil e outra do Uruguai?

Haverá alguma recordação da autoridade mal diagramada da minha barba por fazer? Ou do meu destempero atrás da cachorra que comeu o giz de cera quando me distraí e fugiu?

Enquanto ele mastigava, me sentia num ponto equidistante entre este nosso tempo e o de meu pai, que nesta sexta-feira 29 completa 60 anos. Há 30 anos ele provavelmente se exasperava vendo o filho experimentar tudo pela primeira vez – provavelmente com a mesma ansiedade de se ver, de certa forma, continuado em seus gostos e hábitos.

Pois dele peguei quase tudo: do jeito de cruzar os braços quando acuado até o pavio curto quando algo sai errado, passando pelos discos, pelos vícios, pela mania de comer diante da TV, de dormir no meio do filme, de desmentir o próprio ronco, de xingar tudo o que vê na programação, de falar pouco ao telefone (ele até hoje não tem celular), de abusar do café, dos condimentos e da capacidade de trocar qualquer coisa (qualquer coisa mesmo) por uma fatia de presunto italiano.

Até pouco tempo tinha esperança de adquirir alguns hábitos mais invejáveis: a caligrafia impecável, a organização, a habilidade para descascar a laranja (e, até pouco tempo antes da cirurgia, de depositar as cinzas do cigarro no bagaço), o talento de fazer muito com pouco, o senso de direção, a facilidade para fazer conta de cabeça – a essa altura da vida já desisti de escrever a mão como ele ou de organizar meu orçamento na ponta do lápis. Certos ou condenáveis, os hábitos captamos por osmose ou tentativa e erro, num exercício que se repete há 33 anos, desde que nasci.

Posso não recordar dos primeiros dias, mas guardo na memória algumas primeiras impressões. Lembro das voltas pelo quarteirão na garupa da moto antes de ele voltar ao trabalho; ainda hoje posso sentir o cheiro metálico do escapamento, da textura da jaqueta jeans ou de couro, da nicotina misturada à pasta de dente ao fim do almoço.

Lembro de quando nos levava para a escola. Da contrariedade por nos fazer ouvir, todas as manhãs, o programa do Magdalena, o radialista da cidade. De quando chegava a sexta-feira e, com ela, as fitas em VHS para o fim de semana. Das músicas ao pé da vitrola, e depois do equipamento de CD, e depois do YouTube. Das pedradas levadas num jogo da Ferroviária em Catanduva. Das viagens a trabalho pelos laranjais de Taquaritinga, Matão, Limeira.

Das conversas fiadas sobre a criação do mundo. Das negociações para trocar o silêncio na missa por gibis. Dos álbuns de figurinha. Da mesa de bilhar na chácara. Do espremedor de cana. Da plantação de limão cravo. Da Saveiro. Da viagem na carroceria até Minas. Das raras idas ao cinema ou das raras visitas à praia. E do show do Paul no Morumbi.

Lembro do dia em que o vi chorar, pela primeira vez, no caminho de volta de um hospital veterinário em Jaboticabal – nosso cachorro foi sacrificado naquele dia. Do dia em que se trancou no quarto quando o Raul Seixas morreu. Do dia em que deixou um bilhete na minha casa nova em São Paulo, após trabalhar dois dias na mudança, só para não ter que se despedir (Naquele dia eu soube, também pela primeira vez, o que era estar sozinho). E do choro contido quando invadiu, sem autorização, a área de cirurgia do hospital e soube que o neto, nascido prematuro, havia sobrevivido.

Lembro também das enciclopédias, dos fascículos, das coleções. Das novidades das bancas de jornal que forravam as prateleiras de casa. Quase nunca o vi quieto, deitado, com um livro na mão.

Mas a opção pelos números em vez das letras não o impediu de comprar tudo o que surgisse nos catálogos das grandes editoras – cresci, assim, procurando naquelas estantes, e não nas livrarias, os clássicos dos quais começava a ouvir falar na TV ou em sala de aula. Balzac, Shakespeare, Flaubert, Dante, Cervantes, Machado: estava tudo ali, sem uso e ao alcance, para o dia em que os filhos crescessem (obviamente jamais lemos tudo, mas talvez consigamos antes dos 60).

Às vésperas do seu aniversário, com a pretensão de produzir memória com pão e mel para daqui a 30 anos, a vontade é dizer que agora eu sei – agora eu ao menos entendo a distância entre ser adulto e o esforço para parecer um – como resume o personagem de Enquanto Somos Jovens, de Noah Baumbach. Me pergunto o tempo todo se meu filho já percebeu que, no fundo, estamos sempre morrendo de medo, sobretudo de não nos ver reconhecidos um no outro. De alguma forma, acho, meu pai soube nos proteger dessa tensão. Ou fingiu muito bem. Ele foi, afinal, o primeiro da família (talvez o único) a reconhecer os filhos como adultos.

Agora que estou do outro lado, sinto que ser pai (ou mãe) é padecer de uma certa incompletude. É não deixar de ser filho – ou neto, ou irmão, ou amigo – mas perambular em dívida pela insuficiência de tentar estar em todos os lugares, cumprir todos os papéis, se desdobrar e não estar em nenhum.

Na casa dele, nossas presenças são agora acompanhadas por rabugices quando é hora de voltar. “Esse fim de semana passou tão rápido que não valeu nada”, costumo ouvir aos domingos. É a senha para não demorar a voltar.

Os encontros, cada vez mais esparsos, são preenchidos por uma bola verde no canto da tela do computador a acusar que estamos online, nem sempre disponíveis, para colocar as conversas em dia, nem sempre tão em dia – geralmente para relatar a vontade de brigar com algum leitor que me desancou nos comentários, ou para dizer que ficou curioso com meu texto sobre algum filme e resolveu assistir. “Achei uma bosta”. Ou para discutir (e discordar) sobre quem foi maior, se Caetano ou Chico, se John ou Paul, se Beatles ou Stones, se Edmundo ou Evair.

Com o tempo nos tornamos pais dos próprios pais, e deixamos de tomar broncas para distribui-las: “Não leia os comentários, pai. Nunca leia”. “Você é muito teimoso”. “Você não foi ao médico”. “Você não pode beber tanto vinho na tua idade”. “Você tá mancando de novo”.

Silenciosamente vou listando tudo o que gostaria de dizer no aniversário dele até ser interrompido por meu filho de quase três anos que acaba de pegar um pacote de batata palha e cobriu a cachorra de farelo. Olho feio e berro alto. Ele se esconde. “Você tem medo mas não tem vergonha nessa sua cara de pau, né?”. Ele segura o riso e eu me recomponho, tentando lembrar o dia exato em que virei o meu pai.

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