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Cultura

À francesa

Sugestões de Bravo!para cinema

por Orlando Margarido — publicado 11/06/2011 10h40, última modificação 14/06/2011 17h46
As dicas desta semana de Orlando Margarido mergulham na França: Meia-Noite em Paris, de Woody Allen e com a primeira-dama Carla Bruni, e a comemoração dos 80 anos de Jacques Demy são os destaques
Sugestões de Bravo! para cinema

As dicas desta semana de Orlando Margarido mergulham na França: Meia-Noite em Paris, de Woody Allen, com a primeira-dama Carla Bruni, e a comemoração dos 80 anos de Jacques Demy são os destaques

Na boa mansidão

MEIA-NOITE EM PARIS

Woody Allen

Na circunstância cômoda de um passado ainda em vantagem, a produção recente de Woody Allen desliza tranquilamente como aqueles barcos de turistas no Rio Sena. A comparação é propositada e vem por conta do novo filme do diretor, Meia-Noite em Paris, que se apropria desta vez da capital francesa como cenário e chiste, a exemplo das anteriores Barcelona e Londres. A sugestão de certa comodidade, para alguns apreciadores, seria fácil e simplista. Haveria, sim, esforço do veterano americano em retrabalhar suas histórias num contexto que lhe parece inexplorado, novo e, portanto, admissível ao seu cinema.

Vejamos. A razão e graça dessa trama não recairiam tanto na Paris atual, onde passa férias uma família americana abonada às vésperas do casamento da filha (Rachel McAdams) com o roteirista Gil (Owen Wilson), mas na década de 1920. É nesse período que tanto o fascina que Gil vai parar depois de se perder nas ruas. Fascinante especialmente porque ele vive a angústia do primeiro romance e um encontro com Scott Fitzgerald, Ernest Hemingway, Gertrude Stein e toda a chamada Geração Perdida será bendito. Como é também para Allen, versado na arte de boas tiradas, fazer Gil predizer a Luis Buñuel o surrealismo de O Anjo Exterminador e o cineasta repudiar e lhe questionar a razão. Pode ser que nesta insuspeita diversão haja algo mais que um realizador em descanso depois do trabalho duro, empolgado por ter a primeira-dama Carla Bruni numa ponta a nos lembrar o que é a França atual. Mas ainda sim, convenhamos, é uma maré mansa. ORLANDO MARGARIDO

Ascensão e graça

FAMÍLIA BRAZ – DOIS TEMPOS

Arthur Fontes e Dorrit Harazim

Será interessante ter como contraponto nas telas os recentes documentários Um Lugar ao Sol e este que estreia, Família Braz – Dois Tempos. No primeiro,

Gabriel Mascaro mira nos moradores de coberturas de edifícios a partir. Ouve-os em suas razões e gosto por ocupar um tipo de habitação associado a dinheiro e status. Já na proposta documental de Dorrit Harazim e Arthur Fontes, a residência do clã em questão localiza-se na Vila Brasilândia, bairro pobre nos limites da Grande São Paulo. É modesta, mas aos poucos recebeu melhorias graças à evolução econômica que se efetivou denominar de ascensão de uma nova classe média. Não só a casa mas seus ocupantes progridem e nos depoimentos se reconhecem como emergentes. Além da circunstância social em que se inscrevem, os filmes se tocam pelo dilema de abordagem. O risco desse método é fazer dos personagens protótipos de um senso comum e buscar prová-lo pelas falas e imagens, questão ética que os diretores contornam bem e o colega do andar de cima nem tanto.

Quem sabe por que os primeiros conhecem de antemão seu objeto de estudo. Há uma década, eles haviam documentado a lida diária da família Braz e voltam agora para reencontrar os seis integrantes em novo contexto. Dona Maria, dona de casa, e o marido Toninho, pedreiro, continuam a liderar o grupo de quatro filhos e têm lá algumas de suas ambições atendidas. Mas mudou mesmo a geração mais nova. Denise foi promovida de recepcionista a vendedora, Gisele cursa pedagogia e Éder largou a moto de entregador para ser técnico de laboratório. Apenas Anderson casou e se dedica a seguros. Há outras insígnias da mudança, como carros, restaurantes, cirurgia plástica e até viagens de cruzeiro. Longe de captar esse trajeto pela via excêntrica, que poderia constranger, os realizadores se abrem para a sinceridade e a graça dos Braz, e promovem a empatia necessária. – OM

Justa revisão

JACQUES DEMY

Cinemateca Brasileira, São Paulo

Até 26 de junho

Planejada ou não, uma feliz coincidência veio unir na tela e na cidade Jacques Demy àquela que foi sua descoberta e musa de longa parceria. O cineasta francês nasceu há 80 anos e para lembrar a data a Cinemateca Brasileira promove ciclo com dez de seus filmes. Entre eles estão Os Guarda-Chuvas do Amor, o primeiro musical, Duas Garotas Românticas e Um Homem em Estado Interessante, todos estrelados por Catherine Deneuve.

O mito por excelência da França esteve esta semana em São Paulo e no Rio para lançar Potiche – Esposa troféu, de François Ozon, um dos diretores atuais que a celebram. Ao compará-los, a atriz pontuou sobre Demy: “Está mais para o conto e tinha certo pessimismo. As pessoas cantam em cena, mas não é tão alegre como parece”.

A revisão que a carreira de Demy pede se encaixa na retrospectiva. Quando estreou em 1960 com Lola – A flor proibida, “um musical sem música”, o cineasta bateu de frente com a Nouvelle Vague e apreciadores do movimento o compreenderam como romântico e superficial.

Se o trabalho seguinte, A Baía dos Anjos, sintonizava o diretor um pouco mais com os que lhe requeriam realismo e modernidade, as músicas adocicadas de Michel Legrand para Os Guarda-Chuvas do Amor e Duas Garotas Românticas azedaram de vez a relação. Demy, no entanto, prosseguiu até seu último filme, Três Lugares para o 26, divertindo-se, fazendo pensar e dizendo mais da França do que muitos colegas de geração. Desde sua morte em 1990, a mulher e também cineasta Agnès Varda, que lhe dedicou Jacquot de Nantes, é a principal incentivadora de um culto ao marido. Entusiasmo que cresce e se atualiza nas telas, como em Potiche, um genuíno Demy de cabo a rabo. - OM