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Sugestões Bravo! para ver e ouvir

por Redação Carta Capital — publicado 14/01/2012 17h37, última modificação 14/01/2012 17h48
Nesta semana a coluna destaca a mostra de cinema Straub-Huillet no Centro Cultural Banco do Brasil, em São Paulo, e o disco Rio, do músico Keith Jarret
Cena 3 Tinker Tailor Soldier Spy

Alter ego

Cinema

Gente de Palavra

A rara percepção de diálogo e imagem de Straub e Huillet

Straub-Huillet

Centro Cultural Banco do Brasil
Rua Álvares Penteado, 112, Centro, SP
De 17 a 29 de janeiro

No documentário Onde Jaz o Teu Sorriso?, do português Pedro Costa, tem-se um dos melhores retratos do afinamento em que trabalharam Jean-Marie Straub e Danièle Huillet nas quatro décadas de parceria. O casal francês de diretores surge à mesa de montagem durante a edição de Gente da Sicília (1999), talvez seu filme mais reconhecido. Danièle está sentada, mãos na moviola e olhos na tela buscando os cortes, enquanto Straub logo atrás divaga, opina, sai da sala e retorna desatento. A mulher o repreende e tenta trazê-lo de volta ao filme. A situação sugere um braço mais prático e decisivo de Danièle, enquanto o cineasta representaria o espírito flanador da união. O fato é que juntos consumaram obra das mais singulares do cinema, poética e rigorosa, reflexiva e estética, na qual imagem e palavra ganham raro acordo.

Danièle morreu em 2006 e Straub segue no ofício. Mas o legado conjugal preenche a maior parte da programação da mostra Straub-Huillet que o Centro Cultural Banco do Brasil abre na terça 17 e segue até o dia 29. Do primeiro curta, em 1962, Machorka-Muff, às recentes produções-solo do diretor, a exemplo de O Somma Luce, Chacais e Árabes e O Inconsolável, tem-se o valor da literatura para a dupla, dado que são títulos baseados, respectivamente, em Heinrich Böll, Dante Alighieri, Franz Kafka e Cesare Pavese. Neste e seu Diálogos com Leucó, o par ainda se inspirou em Da Nuvem à Resistência (1980) e Esses Encontros com Eles (2006), predileção que Straub manteve nos curtas O Joelho de Artemide e Le Streghe/Entre Mulheres. Óperas, como a de Arnold Schönberg, Moisés e Aarão (1974), e memórias escritas, a exemplo do magnífico Crônica de Anna Magdalena Bach (1967), também os serviram.

É com outro italiano, além de Pavese, um forte vínculo que se explica na representação simbólica das situações de um povo e os diálogos instigantes. Elio Vittorini foi a fonte para Gente da Sicília e Operários, Camponeses (2000), ambos na programação e dos poucos filmes já exibidos no circuito brasileiro, assim como para uma espécie de nova edição do último, O Retorno do Filho Pródigo – Humilhados (2003). Na radical opção pela declamação nesses e em muitos de seus filmes, investe-se na palavra como modo de dificultar o trabalho dos espectadores, pois de outra forma sairiam deles tão desarmados diante da vida quanto antes, como já refletiram os diretores certa vez sobre seu cinema. Também por isso a rara captura de Pedro Costa no documentário não se importa tanto com a imagem e se deixa seduzir pela afetiva disputa verbal. – Orlando Margarido

 

Astúcia valorizada

O Espião que sabia demais

Tomas Alfredson

O período são os anos 1970 da Guerra Fria, mas para além dessa localização no tempo há um propósito em O Espião Que Sabia Demais que o faz soar mais antiquado, atemporal, talvez, como a reafirmar o fim de uma era e um ofício. Esse é, como se presume pelo título, o da espionagem de alto gabarito, recurso das grandes potências, como Estados Unidos, Inglaterra e a então União Soviética no jogo do poder mundial. Na literatura, como se sabe, o melhor conhecedor desse meandro é John le Carré, ele mesmo investido no passado no papel de espião. No cinema são várias as adaptações de suas obras, inclusive uma série de tevê sobre esse mesmo livro de 1974 que agora se renova em ótima versão dirigida pelo sueco Tomas Alfredson (Deixe Ela Entrar), nas salas de cinema a partir de sexta 13.

Le Carré, até por ser testemunha privilegiada, prefere as minúcias, a psicologia da atividade, a dar-lhe ação despropositada ou glamourizá-la. O diretor respeita essa e impõe os diálogos como principal aliado à astúcia do meio. Representante maior dessa habilidade é o personagem George Smiley (um brilhante Gary Oldman), cuja afinidade com os fatos reais permite pensar num alter ego do escritor. Afastado da chefia da agência de espionagem londrina MI-6, ele é requerido pelo alto escalão a voltar quando um agente sofre um atentado e a suspeita de traição surge entre seus colegas, elenco com Colin Firth e John Hurt entre as estrelas. Sua missão é investigá-los, o que revela a decadência, o ocaso e a solidão impostos ao meio, não por acaso simbolizado pelo risco e pela inteligência do jogo de xadrez.  –OM

 

Coisa de moleque

Tomboy

Céline Sciamma

Tomboy, estreia desta sexta 13, venceu o Teddy Bear no Festival de Berlim do ano passado.
É o prêmio entre os Ursos de Ouro da competição reservado às produções com temática sexual diferenciada. Mas isso não condena obrigatoriamente o filme da francesa Céline Sciamma a ser apreciado apenas pelo público gay.
Seu drama aqui pede maior amplitude, embora com evidente discussão da sexualidade que permeia a pré-adolescência. Da mesma forma, um segredo não se mostra a condicionante da história. Saber que Laure (a excepcional Zoé Héran) não é o menino que se esforça por aparentar importa menos do que acompanhar a construção do seu universo idealizado, como indica a delicadeza da cena do banho em que o sexo é revelado logo no início.

Em outra cinematografia que não a francesa, talvez fosse mais difícil aceitar o contexto em que Laure se insere, dos pais que aparentam certo distanciamento da realidade aos amigos com quem convive. A esses, recém-chegada ao novo condomínio com a família, ela se apresenta como Michael e assim é aceita, inclusive com maior demonstração
de carinho por uma garota. A procura por moldar sua personagem “tomboy”, algo como menina-moleque, ostenta tanto habilidade e desprendimento quanto certa ingenuidade que a idade ainda requer. A competência da diretora, que tratou com sensibilidade similar a questão em Lírios d’Água, seu título anterior, está por sua vez em dar o peso certo às descobertas da fase, sem impor maiores significados ao que naturalmente já não tenha. – OM
CD

Beleza em tempo real

Rio
Keith Jarrett
Borandá

Em um universo onde há quem só improvise guiado pela partitura, o pianista americano de Allentown, Pensilvânia, Keith Jarrett, 66 anos, aventura-se na composição em tempo real, à vista (e ouvidos) do espectador. Aos deserdados desse ato único de criação resta a arte congelada nas gravações. Mais de 1 milhão de compradores de seu registro duplo, The Köln Concerts, em 1975, geraram um fenômeno, com inescapáveis desdobramentos. O mais recente é Rio, CD duplo derivado do concerto de Jarrett no Theatro Municipal carioca, no dia 9 de abril de 2011. São 15 temas numerados, sem títulos. Podem durar dos 8 minutos e 40 segundos das intensas camadas sonoras superpostas e gemidos do pianista no início do cortejo aos 3 minutos e 20 segundos da quinta faixa do segundo CD, um blues curto de aliciadora cadência. O tempo é arbitrado pelo músico e sua relação com a plateia, mantida em fervoroso silêncio até mesmo pelas pastilhas de garganta distribuídas por um dos patrocinadores do espetáculo no Rio.

Antes de desembocar nessa performance crua, empenhada em fisgar o ouvinte para o inédito absoluto, sem recorrer nem sequer a citações, Jarrett galgou um caminho árduo. Prodígio do piano erudito aos 7 anos, versado ainda em sax, bateria e vibrafone, diplomado em Berkeley, ele doutorou-se nas bandas de Art Blakey, Charles Lloyd e Miles Davis, além de liderar trios. Solitário em Rio, ele pincela abstrações, insinua imagens, forja desvãos cubistas, instrumentado tanto
pela erudição quanto pelo suingue. Uma instalação sonora de belezas recônditas, renováveis a cada revisita. – Tárik de Sousa

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