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Sugestões de Bravo! para ver

por Orlando Margarido — publicado 09/10/2011 09h35, última modificação 10/10/2011 10h56
Nesta semana, Bravo! traz Hoje, de Tata Amaral, Elvis e Madona, de Marcelo Lafiftte e Os três mosqueteiros, Paul W.S. Anderson

HOJE
Direção de Tata Amaral

Há vários dispositivos sofisticados que confluem para fazer de Hoje, o novo longa-metragem de Tata Amaral, um trabalho de rara equação e sensibilidade. No plano dramatúrgico, o principal talvez tenha sido imaginar o visitante inesperado da história um fantasma que vem cutucar memória dolorosa, conforme nos conta Jean-Claude Bernardet, um dos roteiristas ao lado de Rubens Ewald e Filipe Sholl. A lembrança indesejada é de Vera (Denise Fraga), ex-militante política torturada durante a ditadura, e que no fim dos anos 90 ainda tenta driblá-la e sobreviver. O papel do inoportuno cabe ao seu companheiro de luta, Luiz (o uruguaio Cesar Troncoso). Ele reaparece no recém-adquirido apartamento de Vera, quando esta apenas se instala com as caixas de mudança e aspirações a uma nova vida. Nesse ambiente único se desenrolará o embate, universo que requer sutilezas como a luz de uma diurna melancolia e enquadramentos precisos que pouco revelam o lado de fora. Não ao acaso roteiro, fotografia e direção de arte foram contribuições premiadas pelo júri oficial do 44º Festival de Brasília, encerrado na segunda 3, que também reconheceu como melhor atriz a protagonista e, por fim, o próprio filme.

Sofisticação não significa disjunção e o espectador, antes de apartado, é conclamado a ser uma testemunha preferencial do conflito em cena. A cumplicidade cresce na mesma proporção em que se nega a outros poucos personagens, a dupla de carregadores ou a vizinha bisbilhoteira, a integração ao drama. O recurso espelha uma das habilidades maiores de Tata Amaral e sua predileção por trabalhar no espaço fechado, o huis clos presente nos filmes anteriores Um Céu de Estrelas e Através da Janela. Agora beneficiado pela busca de compreensão da diretora do regime autoritário já abordado na série de tevê Trago Comigo e pelo viés pessoal da morte em circunstâncias penosas do marido, a quem ela dedica seu filme. Ao entrelaçar tais contextos, social e íntimo, Hoje encerra um país.

ELVIS & MADONA
Direção de Marcelo Laffitte

No território intricado das novas identidades sexuais em que se arrisca, Elvis & Madona é um filme que aspira a muitas posturas por meio de uma impostura. Esta nos é dada pela condição consumada de um transformista (Igor Cotrim), que se ilude como Madona, com um ‘n’ só, e de uma lésbica (Simone Spoladore) metida em trejeitos de Elvis Presley. A horas tantas, quando as vidas corriqueiras de cabeleireiro de um e de entregador de pizza de outra já convergiram para um envolvimento amoroso, saberemos que aqueles papéis não são tão sólidos assim. Dessa relação nascerá um filho, sem artifícios de procriação, mas pelo método mais natural do mundo.

É por acreditar na possibilidade de inversões ditadas pelo desejo que o longa-metragem de estreia de Marcelo Laffitte assume sua melhor e mais corajosa postura. Credo esse que pode levar a leituras definidoras de um universo que não as comporta. Convocou-se, por exemplo, a ideia de um olhar machista porque, no limite, o gay e a lésbica retomam suas condições originais pela sedução de formar uma família. É mais complexo do que isso o quadro de sentimentos em pauta, por também envolver sonhos, um show de drag queen no caso de Madona, a fotografia para Elvis. O filme inspira dessa forma uma resposta nos moldes de Almodóvar ao apontar, como o espanhol, não ser da ordem da razão o entendimento aqui.

OS TRÊS MOSQUETEIROS
Direção de Paul W.S. Anderson

Na circunstância de uma das obras literárias mais adaptadas ao cinema, Os Três Mosqueteiros requer pretextos para voltar à tela. Os produtores desta versão dirigida pelo inglês Paul W.S. Anderson, que chega aos cinemas na quarta 12, encontraram em parte a justificativa no formato 3D, de pouca valia aqui além de uma curtição entre o público infanto-juvenil. Mais consistente como recurso de entretenimento, ainda que apelativo, é a opção por uma linguagem coloquial, para não dizer vulgar. Como a pretender sintonia com a pouca exigência no campo dos diálogos, busca-se um efeito cômico rápido, condenando o francês de Alexandre Dumas em prol de uma sátira e colocando, no lugar, o inglês da nação vizinha em acento atual.

Dessa forma, sobra mais atenção para invenções de sentido visual e de ação, representados pelos dirigíveis que retiram os combates do chão e os levam aos céus. Uma ideia estrambótica, mas que tem lá sua função simbólica na disputa com a Inglaterra de uma França sob o rei Luís XIII.  Jovem e inexperiente monarca, ele coloca-se à sombra do Cardeal Richelieu (Christopher Waltz), este acordado com a espiã Milady de Winter (Milla Jovovich) para usurpar o trono. Será preciso, para defendê-lo, seu trio predileto de espadachins, Athos (Matthew Macfadyen), Porthos (Ray Stevenson) e Aramis (Luke Evans), e estes, personagens aqui sem empatia, do recém-chegado e impetuoso D’Artagnan (Logan Lerman), um herói ao menos com frescor para o velho capa e espada.

COPACABANA
Direção de Marc Fitoussi

Há provavelmente muito a ser dito por uma filha sobre uma mãe como Isabelle Huppert, mas se envergonhar, talvez não. O diretor Marc Fitoussi tira bom proveito desse quadro curioso e insólito, que não deixa de ter sua graça ao reunir em Copacabana mãe e filha na vida real e estender essa ligação à tela. Huppert contracena pela primeira vez com Lolita Chammah, herdeira de sua vocação, já que anteriormente integraram elencos de mesmo filme, mas não chegaram a se encarar. Agora não apenas o fazem, como trabalham na perspectiva do antagonismo, Esmeralda como a jovem madura, correta e careta, e Babou, a doidivanas cinquentona que não cabe nos padrões sociais e de sua idade, preferindo chocar com maquiagem carregada e modelitos de minissaia com casacos de pele.

O primeiro choque é, claro, com a própria filha, que rejeita Babou e suas extravagâncias e a leva a mudar para outra cidade, um porto e reduto de condomínios de férias sem personalidade na Bélgica. Ali, Babou não será compreendida também pela chefia e seus colegas em um emprego de corretora desses apartamentos de temporada. Mas ela segue, imutável, preparando-se para um sonho. Quer conhecer o Brasil ou, pelo que o título aponta, aquela parcela litorânea que ainda nos representa infinitamente. Sim, teremos samba, mulatas, descontração, mas, nesse caso, ao menos como uma apoteose de possível entendimento entre as protagonistas. Huppert, a musa malvada que tanto era apreciada por Claude Chabrol, mais uma vez faz o talento parecer da natureza.