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Sugestões de Bravo! para ver

por Orlando Margarido — publicado 01/10/2011 09h13, última modificação 05/10/2011 20h45
A seção de cultura de CartaCapital faz a crítica de Avenida Brasília Formosa, de Gabriel Mascaro, Uma Professora Muito Maluquinha, de André Alves Pinto e César Rodrigues, e O Dia em Que Eu Não Nasci, de Florian Micoud Cossen

AVENIDA BRASÍLIA FORMOSA
Direção de Gabriel Mascaro

Em um lugar ao Sol, o pernambucano Gabriel Mascaro foi ao alto das torres residenciais encravadas na praia da Boa Viagem, no Recife, para registrar os habitantes da cobertura. Em Avenida Brasília Formosa, com estreia prevista dia 7, ele move sua câmera para não longe dali com intuito semelhante, mas dedicado a um estrato social oposto. Irônica extensão da rica orla recifense, a favela Brasília Teimosa é o cenário para uma investigação que em tudo difere daquela promovida no filme anterior. Avenida... é mais elaborado e destituído dos problemas, até mesmo éticos, imposto ao outro. A começar pela combinação de linguagens, num trabalho que se propõe documental, mas não hesita em lançar mão da ficção, questionando os limites entre uma e outra.

Avenida Brasília Formosa parte do impacto social de que o bairro vem sofrendo com a especulação imobiliária depois da inauguração da via que dá nome ao filme. Mascaro passa, então, a focalizar alguns residentes, sem que necessariamente se apresentem em seus tipos e ofícios originais. A dúvida se estabelece, por exemplo, com Fábio, garçom que também exerce como amador o trabalho de cinegrafista. Ele ajudará no desejo da manicure Débora em concorrer a uma vaga no programa Big Brother e também a de uma criança que quer sua festa de aniversário gravada. Um tanto lateral a essa rede de encontros, um pescador tem sua atividade prejudicada pelas mudanças da vila. Mascaro os contempla como em quadros vivos, indiferente a sua existência real, e com o trunfo de requinte da fotografia do cearense Ivo Lopes Araújo.

UMA PROFESSORA MUITO MALUQUINHA
Direção de André Alves Pinto e César Rodrigues

De raiz aparentemente ingênua e carinhosa, Uma Professora Muito Maluquinha pode se exercitar em outro universo que não aquele infantil pensado por seu autor Ziraldo em livro popular. Na forma de filme que chega às telas na sexta 7, essa vocação, para usar um termo a calhar, evidencia-se por propor relações com outras obras de caráter adulto da criação brasileira. Inevitável ligar a jovem do título, que leciona com ousadia em uma cidade interiorana dos anos 40 e reencontra um amigo de infância, agora enfiado em batinas, a personagens de O Padre e a Moça, de Joaquim Pedro de Andrade, e de Hilda Furacão, de Roberto Drummond. O que vai se dar entre eles, padre e professora, não é por certo sintoma
de novela para crianças.

Até lá, no entanto, o filme de André Alves Pinto e César Rodrigues alcançará com encanto uma digna medida entre a proposta nostálgica que parece pessoal ao autor e a diversão sem pretensões mais reflexivas. Os diretores não parecem ter tido outra intenção senão a de encantar ao escolher Paola Oliveira como protagonista, com sua beleza e simpatia testadas em recente folhetim eletrônico, e assim garantir o necessário aval dos alunos e do padre Beto, interpretado por Joaquim Lopes, atual marido da atriz. Em um elenco de participações tipificadas comuns a esse gênero, cabe uma demonstração de vitalidade e desenvoltura por parte de Chico Anysio, como o tio monsenhor do rapaz, a nos lembrar da boa tradição do humor brasileiro.

O DIA EM QUE EU NÃO NASCI
Direção de Florian Micoud Cossen

O Dia em Que Eu Não Nasci aproxima-se de temas como o desenraizamento repentino ou o impacto da tragédia política sobre vítimas e seus entes próximos. Há uma vaga sensação aqui do mistério em Missing – O Desaparecido, de Costa-Gavras, com personagens que trocam a inocência do nada saber pela truculência dos fatos. Mas o primeiro filme do diretor Florian Micoud Cossen trabalha em contexto próprio e isso faz suas qualidades. Embora Maria (Jessica Schwarz) seja vítima de uma revelação súbita sobre suas origens, ela terá de se haver não com um estado autoritário de coisas e sim com o pai. Nadadora saída da Alemanha para um campeonato no Chile, ela ouve em Buenos Aires uma canção de ninar que lhe traz lembranças incompreensíveis. E o pai (Michael Gwisdek) corre até ela com uma revelação. O diretor calça-se na realidade de uma centena de crianças órfãs relegadas após o período de chumbo no país, mas a fratura que expõe é mais de caráter íntimo, no vínculo entre filha e pai.

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