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Sugestões de Bravo! para ver

por Orlando Margarido — publicado 26/11/2011 11h14, última modificação 26/11/2011 11h14
Confira a seleção de Orlando Margarido para exposições e cinema
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Na fotogradia de Álvarez Bravo, a sintonia pós-revolucionária

Singular e plural

Na fotografia de Álvarez Bravo, a sintonia pós-revolucionária

MANUEL ÁLVAREZ BRAVO – FOTOPOESIA

Instituto Moreira Salles – Rio de Janeiro
De 26 de novembro a 26 de fevereiro de 2012

 

Num contexto mundial de modernização da linguagem fotográfica, o mexicano Manuel Álvarez Bravo (1902-2002) captou as influências estéticas das vanguardas dos anos 20 e 30
e as moldou a características próprias. As tendências da arte cubista e abstrata o atraíram tanto quanto a outros colegas na Europa e nos Estados Unidos. Sua primeira formação se dera sob a ascendência do avô pintor e do pai fotógrafo amador, além de ter estudado pintura na academia. Mas a realidade em um México pós-revolucionário exigiria uma lente mais próxima dos acontecimentos, da lide do povo e seus costumes, sobretudo de indígenas e trabalhadores. Somava-se, então, às ousadias estéticas a vertente da fotografia direta, tributária da escola americana documental representada por Edward Weston, que se encontrava no país, e artistas estrangeiros.

É dessa síntese de uma carreira plural que parte a mostra Manuel Álvarez Bravo – Fotopoesia, em exibição simultânea com um lote do brasileiro Thomaz Farkas (1924-2011), já apreciado em São Paulo.  A seleção de 250 imagens de Bravo valoriza, entre as sete décadas de atuação do fotógrafo, os anos de 1920 a 1950, de formação e proximidade com as novas investigações artísticas,
como o surrealismo. Deste movimento adotaria características, e o mentor André Breton exporia suas fotos em Paris. O apreço pela pintura colocou Bravo na rota dos muralistas do México, Diego Rivera, José Clemente Orozco e David Alfaro Siqueiros, além da pintora Frida Kahlo.

Seria a fotógrafa italiana Tina Modotti a responsável por aproximar Bravo da linguagem documental ao convidá-lo para trabalhar numa revista em 1930. O ofício propiciaria a ele uma inédita concepção de registro mais simbólico, puro e sem preocupações com marcas autorais, o que vinha de encontro à necessidade de captar uma identidade mexicana de raízes populares. Tornaram-se ícones as fotos de Bravo baseadas nesse modelo, a exemplo de Trabalhador em Greve – Assassinado, em que se vê o personagem morto, estendido no solo. A capacidade de adicionar referências é peculiar em Bravo e também foi levada por ele ao cinema,como se verá no filme Um Retrato para Diego, a ser exibido no dia da abertura, às 14h, seguido de mesa-redonda e lançamento de livro (336 págs., R$ 90).

CINEMA

Homens de fibra

DAWSONILHA 10

Miguel Littin

O cineasta chileno Miguel Littin é protagonista de uma aventura cinematográfica que já dispõe de literatura e merece chegar às telas. Exilado no México quando da ascensão do ditador Augusto Pinochet em 1973, ele retornou ao Chile como clandestino na década seguinte. Mais do que disfarçado, vinha transformado fisicamente. Não foi reconhecido nem mesmo ao entrar no palácio do governo, e pôde assim concluir o documentário Acta General de Chile (1986). Sua ousadia mereceu relato de Gabriel García Márquez no livro A Aventura de Miguel Littin – Clandestino no Chile. Tal estratagema agora não se faz necessário, mas Littin segue persistente na investigação dos tempos obscuros de seu país. “É uma história de hoje, de sempre, e inconclusa”, disse há quase um ano a CartaCapital, quando veio promover Dawson Ilha 10, seu filme de 2009 e só agora em cartaz, a partir de sexta 25.

A dificuldade em conseguir distribuição fora do Chilerende pilhéria do diretor. “Será que se me disfarçar de diretor americano consigo?” É dele talvez o melhor filme chileno, O Chacal de Nahueltoro (1970), sobre a pobreza tornada violência. Littin nunca repetiu tal êxito e acredita ser mais importante agora falar a uma nova geração sobre fatos esquecidos. Dawson Ilha 10 recupera como ficção um desses episódios da ditadura. No período, um campo de concentração foi criado
ao sul do país para receber prisioneiros, homens fiéis a Salvador Allende.  Dois atores são brasileiros.  Caco Monteiro interpreta o ministro das Finanças e Bertrand Duarte, um arquiteto ligado ao governo deposto. “O campo era baseado nas ideias de um nazista então refugiado no Chile e durou pouco mais de um ano; mas as atrocidades ali cometidas refletem o pensamento de um governo que nunca podemos ver repetido”, diz Littin. 

A dura amizade

EU EU EU JOSÉ LEWGOY

Cláudio Kahns

Foi um encontro e tanto esse. De um lado, no set de Fitzcarraldo (1982), estava Klaus Kinski, o ator alemão temperamental que alucinou na Floresta Amazônica e quase foi às vias de fato com o diretor Werner Herzog. Do outro, seu antagonista, o ator brasileiro José Lewgoy, também chegado a um egocentrismo e tido como difícil no trato. Mas até onde se sabe não dado a extremos de violência como o colega, e sim a contrastes de humor. “Quando os índios ameaçaram matar Kinski eu sugeri que talvez depois, pois tínhamos de filmar, e então Lewgoy disse: ‘É, talvez depois’”, conta Herzog num dos melhores depoimentos de Eu Eu Eu José Lewgoy, documentário sobre o ator realizado por Cláudio Kahns que estreia sexta 25.

O título expressa a que vem essa investigação do artista e persona José Lewgoy (1920-2003), um dos grandes intérpretes nacionais do cinema e da televisão, com uma centena de filmes e mais de 20 novelas. Foi como uma figura paternal e bondosa da teledramaturgia que Herzog aponta ter descoberto o ator.  “Mas eu sabia que havia um vulcão ativo nele, uma fera ali dentro, e eu precisava disso no filme.” Herzog estava certo, assim como Glauber Rocha ao reivindicá-lo para o político demagogo Vieira em Terra em Transe, e o próprio Kahns, que teve Lewgoy em O Judeu. Mas nem tão popular como o vilão da tevê pode ser o gaúcho de Veranópolis, que passou maus bocados até ganhar notoriedade nas chanchadas da Atlântida e rumar para uma carreira abortada, talvez precocemente, nos palcos dos Estados Unidos. Vale conhecer essa trajetória incomum e também o homem inteligente, culto, por vezes intratável como revelam amigos, lembrando-se
de uma fachada difícil que, derrubada, expunha a amizade e a generosidade. 

CINEMA

Sem destino

INQUIETOS

Gus Van Sant

 

O garoto Enoch (Henry Hopper) frequenta funerais de quem não conhece. Sugere-se, assim, uma morbidez que no limite se mostrará justificável quando se sabe da perda dos pais em acidente. Damesma forma, há estranheza na presença nos velórios de Annabel (Mia Wasikowska), garota doce
que também simula sua razão de ali estar, primeiro, como dita voluntária para doentes de câncer, depois, uma assumida vítima dessa doença. Condição trágica que torna inevitável a aproximação de ambos. A adolescência sempre foi sombria para o diretor Gus Van Sant, com a inspiração
da violência a marcá-la, mas não é o caso desta vez em Inquietos, seu novo filme
em cartaz a partir de sexta 25.

Nesse drama temos muito mais um esboço de uma geração descolada de certo padrão de normalidade e que assim se conforma em permanecer do que de adolescentes aparentemente inseridos, mas que acreditam transgredir ao alucinar, como em Elefante e Paranoid Park, filmes anteriores de Van Sant. Das perversas ocorrências que os unem, o casal busca reafirmá-las não como excentricidade, mas como recurso para se proteger e desfrutar ao máximo o tempo restante a Annabel.

Van Sant descarta sua visão antes feérica e pinta com sutileza e sensibilidade esse painel outonal, talvez o adoçando demais para quem já desenhou com descrédito a idade da formação. Não seria tão convincente se não tivesse uma dupla ansiosa por ganhar respeito no cinema, como a atriz que foi a personagem principal de Alice no País das Maravilhas na versão de Tim Burton, e aqui lembra Jean Seberg, e o ator que dá continuidade ao respeitável nome do pai, Dennis Hopper.