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Cultura

Sugestões de Bravo! para ver

por Redação Carta Capital — publicado 20/11/2011 08h14, última modificação 20/11/2011 08h14
Nesta semana, Orlando Margarido comenta os lançamentos O garoto da Bicicleta e O Céu Sobre os Ombros e Rosane Pavam escreve sobre a exposição de Brassaï
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A felicidade de simplesmente ajudar dispensa explicaçõs

Coração Iluminado

Por Orlando Margarido

O Garoto da Bicicleta

Jean-Pierre e Luc Dardenne

 

Ao fugir da instituição para menores em busca do pai que o abandonou, Cyrill (Thomas Doret) choca-se literalmente com Samantha (Cécile de France). Esta decide conhecer o drama do garoto, leva-o para sua casa e passa a ser seu anteparo, agora não só mais físico, mas emocional e de dignidade também. Não há uma justificativa aparente para tamanho empenho da jovem cabeleireira, e isto se impõe como talvez a maior interrogação para o espectador de O Garoto da Bicicleta, o mais novo e belo filme dos belgas Jean-Pierre e Luc Dardenne, em cartaz a partir da sexta 18. “É proposital”, diz Jean-Pierre em entrevista no Festival de Cannes para um grupo de jornalistas. “Na verdade, queremos buscar uma situação humana natural, ou que deveria ser natural, pois essa questão ao ser levantada já aponta que o mundo não tolera mais uma iniciativa como essa sem precisar de uma explicação”, emenda o irmão Luc.

Para quem acompanha o cinema dos irmãos (A Criança, O Filho), o universo infantil em confronto com a autoridade adulta não surpreende. Mas Samantha, diferente dos tipos anteriores desenhados pelos Dardenne, conquista Cyrill pela atenção, a dedicação e o afeto que o menino perdeu. Não é a única mudança no ambiente sempre cinzento e de personagens muitas vezes sombrios. Num filme luminoso, a figura de Cécile de France também oferece um sorriso iluminado como contraponto a um cenário hostil que o garoto conhecerá nas redondezas, espécie de prova entre dois mundos que terá de escolher.

A atriz reconhece que se debateu com a ausência de um fator motivador da atitude de Samantha. “Até quase ao final da filmagem perguntava aos diretores a razão, mas
não havia. Por isso construí a personagem com esse rosto sempre solar, como se a felicidade de ajudar bastasse”, diz. Vale sugerir que o final compartilha desse sentimento, talvez um dos mais equilibrados de rigor e emoção do cinema recente, num trabalho de renovação que poucos cineastas têm coragem em arriscar. Também por isso os Dardenne levaram consigo o Grande Prêmio do Júri ao deixar Cannes este ano.
CINEMA

A ficção da vida

Por Orlando Margarido

O Céu Sobre os Ombros

Sérgio Borges

 

O recorte inicial em que vemos os personagens de O Céu sobre os Ombros é o de sua intimidade, seja do corpo, seja dos gestos do cotidiano na casa onde vivem. Mas aos poucos eles ganham as ruas e novas informações são adicionadas, ainda insuficientes para determinar um perfil claro. Dessa forma, temos o esboço da jovem que se prepara para sair e segue a rotina do almoço e da leitura. Sobre ela, saberemos ser um transexual e chamar-se Everlyn. Do mesmo modo, Bogus e Lwei Bakongo vão ganhando identificação
com vagar. O primeiro é um adepto da seita Hare Krishna, cozinheiro e atendente
de telermarketing. O outro, um angolano que arrisca escritos nunca publicados.
O que os faz pessoas singulares, no entanto, não são as referências de certa conduta social, e sim aquelas que sugerem um contraponto inesperado de vida.

É nesse eixo que trabalha e alcança grande resultado o documentário de Sérgio Borges, título vencedor do Festival de Brasília do ano passado, em cartaz a partir de sexta 18. Por meio dele, quando o filme já avançou, ficamos a par de que Everlyn é professora formada em psicologia e prostituta, Bogus lidera uma turma de torcedores fanáticos do Atlético Mineiro e Lwei, por fim, nunca trabalhou e tem um filho deficiente físico com quem desenvolve uma relação dúbia. Dizer que Borges apenas documenta esses tipos inusitados é reduzir a proposta e ambição do filme, na medida em que o diretor transferiu
aos próprios personagens escolhidos numa pesquisa a tarefa de se interpretarem
na tela, ou melhor, mostrar-se sem pudor. De tão autênticos, parecem saídos da ficção.

FOTOGRAFIA

O olho de Paris

BRASSAÏ

Centro Cultural Correios
Rio de Janeiro
De 23 de novembro a 8 de janeiro

 

Ele fazia a fotografia equivaler à escrita de Henry Miller. Em lugar das velas do pintor Georges de La Tour, usava os postes de iluminação das ruas. Poeta da escuridão, engrandecia a arte iniciada por Eugène Atget sob o sol. Seus temas eram as sombras, os subterrâneos, as prostitutas, tanto quanto os célebres, como Pablo Picasso. O fotógrafo nascido na Transilvânia Gyula Halász (1899-1984), conhecido por Brassaï, viveria o suficiente para revolucionar.

Nesta exposição com imagens retiradas de um livro que o torno

u famoso, Paris à Noite, estão os personagens vivenciados na capital francesa. O artista não havia tirado uma foto até os 20 anos, já que apenas almejara ser pintor. Sua percepção de que havia arte em fotografia fora igual à de Man Ray. Contudo, a grandeza de Brassaï esteve em orientar-se pela rua, não pelo estúdio. Seu surrealismo vinha desenhado na vida de todo dia.

“O mundo é mais rico do que eu”, escreveu o escritor J. W. Goethe após desistir do romantismo. “Fui muito influenciado por esse autor, por sua objetividade”, disse Brassaï. “Prezo as coisas humanas, mas também a boa composição. A desordem em fotografia jamais me interessará.”

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