Você está aqui: Página Inicial / Cultura / Sugestões de Bravo! para ver

Cultura

Cinema

Sugestões de Bravo! para ver

por Orlando Margarido — publicado 05/11/2011 09h56, última modificação 05/11/2011 10h11
As indicações de Orlando Margarido desta semana são A Pele que Habito (foto), de Pedro Almodóvar, e Tela Negra – O Cinema do Blaxploitaio. Confira aqui as críticas.
pele

Menos escracho. Banderas e Elena Anaya em A Pele que Habito, de Almodóvar

Algo familiar

A PELE QUE HABITO

Pedro Almodóvar

Pedro Almodóvar já disse que ser diretor é a ideia mais próxima de ser Deus. A reflexão ressoa no protagonista de A Pele Que Habito, o mais novo filme do espanhol, em cartaz a partir da sexta 4. Pois é uma brincadeira de criador e criatura o mote que se desenrola, um pouco à luz de clássicos como Frankenstein, mas, principalmente, como o realizador assume, do cult do cineasta francês Georges Franju, Os Olhos sem Rosto (1960). Neste, um cirurgião arranca a pele de jovens para tentar refazer a face da filha destruída em acidente.

É outra a razão agora do cirurgião plástico (Antonio Banderas) em buscar caminho semelhante
de pesquisa com o mesmo material, como aos poucos se esclarece a partir da condição da jovem (Elena Anaya), mantida em cárcere privado pelo médico, sob a tutela da mãe deste (Marisa Paredes).

Além do universo das novas propostas da ciência em lidar com o artificial, Almodóvar também nos leva a um território mais conhecido de sua carreira. O filme relaciona-se à genética, mas também à transexualidade e mudança de sexo, com personagens quase sempre irônicos
em sua condição. Mas, se em outra fase havia humor e irreverência, em A Pele Que Habito o diretor parece se levar a sério demais e perde o traço de escracho social. Não que o filme dispense o apelo provocativo e de mistério, no qual ainda é passível de reconhecer a marca genuína do autor. O recurso, inclusive, é devedor da influência brasileira de que Almodóvar tanto gosta e voltou a aludir no Festival de Cannes este ano, quando apresentou o filme. Ele lembrou Ivo Pitanguy como referência mundial na cirurgia plástica. E, claro, citou o amigo Caetano Veloso, cuja Leãozinho lhe é tão querida e está ironizada no personagem que se traveste de tigre para trazer um passado familiar indesejado ao protagonista. Disse ter pensado no poder deletério da família e na obsessão pela vingança como males maiores, o que, neste caso, não está tão longe assim do que sempre pautou seu cinema.

Pelo direito

TELA NEGRA – O CINEMA
DO BLAXPLOITATION

CCBB Rio de Janeiro
e São Paulo, CineSesc
Até 24 de novembro

Conhecido tributário de uma cultura popular americana, Quentin Tarantino fez emergir em 1997 uma dessas expressões com seu filme Jackie Brown. Tratava-se de um legítimo representante do blaxploitation, gênero voltado ao universo negro surgido nos anos 70, de caráter eminentemente de ação e violento, então formado no momento de conquista dos direitos civis e de afirmação política nos EUA.

A audiência negra queria se ver representada e ganhou títulos como Rififi no Harlem, uma das primeiras produções em 1970, ou Super Fly (1972), sucesso de bilheteria. Ambos integram uma mostra em centros culturais do Banco do Brasil até 13 de novembro, e no CineSesc, entre os dias 18 e 24.

Entre outras apreciações, é possível constatar a diversidade de subgêneros ali criados, a exemplo do documentário Wattstax (1973), espécie  de Woodstock negro, o desdobramento em série de personagens como Shaft (1971) e suas duas sequências nos anos seguintes, O Grande Golpe de Shaft e Shaft na África. Havia, ainda, o natural surgimento de musas como Tamara Dobson e Pam Grier, esta resgatada por Tarantino. A variada produção abriu portas para astros negros chegarem a Hollywood, e o caso de Mario Van Peebles é sintomático numa relação sanguínea direta. Seu pai, Melvin Van Peebles, é diretor e atua em Sweet Sweetback Baadassss Song (1971).