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Cultura

Cinema e exposição

Sugestões de Bravo! para ver

por Orlando Margarido — publicado 16/10/2011 21h25, última modificação 16/10/2011 21h26
Nesta semana, a seção de cultura de CartaCapital traz Capitães da Areia, de Cecília Amado, Crazy Horse, de Frederick Wiseman e a exposição Chaplin e sua imagem
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Crazy Horse, de Franck Wiseman, que descreve cabaré de luxo

Cinema

CRAZY HORSE

Frederick Wiseman

O princípio da arte de documentar para Frederick Wiseman é dar ao ordinário, ao corriqueiro, uma estrutura dramática. Foi assim que o diretor americano em 1967 chegou à instituição de doentes mentais para registrar as mazelas do lugar e seus pacientes com tamanha crueza que o filme Titicut Follies terminou por ser interditado. Quando liberado, no entanto, tornou-se referência de um cinema verdade e hoje ainda pode ser flagrado na sua influência em títulos como Ilha do Medo, de Martin Scorsese.

A partir daí, Wiseman seguiria cutucando universos à margem social ou de contexto peculiar, nunca determinado a julgar e emitir opiniões. Um centro de treinamento do exército dos Estados Unidos em Basic Training (1971), pessoas que dependem da ajuda do governo em Welfare (1975), um projeto de moradia polêmico em Public Housing (1997) ou o tema óbvio de Violência Doméstica (2001) são assuntos de documentários que convocaram controvérsia também por uma ética. Traziam à exposição, muitas vezes à revelia, personagens em situação sensível ou impossibilitadas de rejeitarem a câmera, caso dos esquizofrênicos. “Esses filmes se passam em locais públicos, criados pelo governo com dinheiro de impostos e eu, como cidadão que os paga, tenho o direito de estar ali”, explica em entrevista a CartaCapital durante o mais recente Festival de Cinema de Veneza. “Registro aquilo que meus olhos veem,
e que outros poderiam ver.”

Wiseman, de 81 anos, esteve no festival em setembro para exibir o 40º trabalho de sua carreira, Crazy Horse, integrante de um estudo sobre o corpo iniciado em 1987 e que ganhou trilogia com La Danse, voltado ao balé da Ópera de Paris, e Boxing Gym, dedicado ao boxe. O que atrai seu interesse agora é o interior do clube homônimo parisiense
e seu show de nudez feminina. A filmagem ali, desta vez, exigiu negociação para
o diretor registrar as meninas do cabaré no palco e nos bastidores, os frequentadores e os artistas responsáveis pelos números, a exemplo do coreógrafo Philippe Decouflé. Wiseman adentra um clube privado que viu a chance de boa publicidade. Mas, no seu método sem narrativa ou intervenções, o glamour, tanto quanto as dificuldades do meio, se deixam mostrar. “Há algo de abstrato na postura com que as jovens se exibem”, comenta o diretor sobre o que viu lá. “Como se o corpo, o produto que vendem, deixasse de ser algo real, palpável, mais pertencente ao campo da fantasia.”

CAPITÃES DA AREIA

Cecília Amado

Há uma sintonia positiva na temática de Capitães da Areia, com certa realidade atual demonstrada pelo cinema brasileiro, que deve ser levada em conta. O bando de meninos de rua abandonados à sorte e partidários da delinquência, naqueles anos 30 do livro de Jorge Amado, mas válidos ainda hoje, tem seu retrato similar aproximado nas comunidades cariocas de 5 Vezes Favela – Agora por Nós Mesmos e na periferia de Bróder. Em que pese diferentes graus de violência ou desamparo social, são crianças e jovens envolvidos numa ética muito particular de sobrevivência que estão ali retratados. Mas há também um traço insistente e incômodo no filme em cartaz de Cecília Amado, neta do autor, que provém de outra sintonia. Talvez por ter colaborado como assistente de direção de Cidade dos Homens, a diretora almeje abertamente a pegada moderna, com recursos de videoclipe, que marca tanto a série quanto sua primeira fonte, Cidade de Deus.

A opção faz a história se dar aos saltos, por sorte comprometendo apenas partes dela. Em outras, vê-se com interesse e apelo emotivo a trajetória desoladora do grupo liderado por Pedro Bala (Jean Luís Amorim), apoiado de perto pelo Professor (Robélio Lima), com quem dividirá a atenção pela única menina ali (Ana Graciela Conceição). Entre pequenos delitos, como roubos a ambiciosos assaltos a residências, os meninos também contextualizam uma crônica da Salvador do período, menos política do que traçou o velho comunista Jorge no seu original, mais humana para atingir plateias afeitas a noções críticas.

Exposição

CHAPLIN E SUA IMAGEM

Instituto Tomie Ohtake
São Paulo
De 20 de outubro a 27 de novembro

A cada um, seu Chaplin. Para Mack Sennett, ele foi o artista recém-chegado da Inglaterra que criou aos seus olhos o eterno Carlitos em 1914, e ali mesmo nos Keystone Studios, de propriedade do ator, diretor e produtor. Para o artista da vanguarda francesa Fernand Léger, admirado por Charles Chaplin, a figura do simpático e melancólico vagabundo de bigode, chapéu e bengala cabia com perfeição nas linhas cubistas e a adotou em algumas
de suas telas. Há também o realizador político e engajado na crítica social, que em 1940 tratou de Hitler em O Grande Ditador ainda sob a égide do nazismo, mesmo ano em que abandona o cinema silencioso pelo falado.
A partir dos anos 50 viu sua fama decrescer com o público. Chaplin incomodava então, a ponto de não ser mais aceito como cidadão americano, obrigando-o a se exilar na Suíça com a última mulher, Oona, e oito filhos. Ali morreria em 1977.

Qualquer que seja a persona escolhida, ela provavelmente estará representada na exposição Chaplin e a sua Imagem, em cartaz no Instituto Tomie Ohtake a partir de quinta 20. São mais de duzentas fotografias, acompanhadas de gravuras que se passam por sequências cinematográficas, além do Álbum Keystone composto de fotogramas e manuscritos relativos aos 35 curtas protagonizados por Chaplin nos estúdios. Nestes filmes iniciais, vê-se o paulatino surgimento da figura de Carlitos.
Assim como os trechos de filmes, inclusive caseiros produzidos em 8 milímetros e um making of colorido de O Grande Ditador realizado pelo irmão, cartazes
e as obras de Léger, todo material provém do arquivo da família do comediante e cineasta. Foi esta a fonte para o pesquisador Sam Stourdzé chegar
ao retrato dimensional de um artista único.