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Sugestões de Bravo! para ler

por Redação Carta Capital — publicado 25/09/2011 09h46, última modificação 25/09/2011 09h46
Nesta semana, Fabio Alexandre dos Santos liga a urbanização à lida com recursos hídricos e Claudio Magris faz um retrato de uma Europa multicultural

DOMANDO AS ÁGUAS: SALUBRIDADE E OCUPAÇÃO DO ESPAÇO NA CIDADE DE SÃO PAULO, 1875-1930
Por Fabio Alexandre dos Santos. Editora Alameda, 320 págs., R$ 56

Domando as Águas: Salubridade e ocupação do espaço na cidade de São Paulo, 1875-1930, livro de Fabio Alexandre dos Santos que resulta de um doutorado em História Econômica na Unicamp, busca entender o lugar das águas no período em que a capital paulista iniciava o seu processo de crescimento demográfico e de expansão da mancha urbana, responsável por transformá-la em metrópole. O historiador procurou acompanhar como ela lidou com rios e córregos, com o abastecimento humano, com as águas servidas e as que produziam energia elétrica. Domá-las por meio de intervenções de ordem física e regulamentações tornava-se imperativo, uma vez que a cidade acolhia aceleradamente a urbanização. Interesses mercantis poderosos e a concentração de renda e poder dificultavam, se não impediam, a apropriação dos recursos naturais e de construção do espaço urbano que atendessem aos interesses da maioria dos habitantes.

Talvez uma das passagens mais interessantes do livro seja a que trata do longo processo de urbanização da Várzea do Carmo, junto ao Rio Tamanduateí, na altura do núcleo urbano central, iniciativa conjunta do poder municipal e da iniciativa privada que custou a sair do papel e provocou impactos sociais. Depois de debates e contratempos e do loteamento e venda de parte da várzea, foi entregue à cidade o Parque Dom Pedro II, inaugurado ainda incompleto, em 1922, como parte das comemorações do Centenário da Independência, tornando-se uma bonita e apreciada área de recreação da cidade, a figurar em cartões-postais.

Nas décadas seguintes, novas obras transformaram completamente o Parque Dom Pedro II, ocupado por pistas expressas de automóveis, viadutos e estacionamentos, o Rio Tamanduateí brutalmente poluído e esquecido. Uma paisagem desoladora em uma cidade que constrói e destrói em ritmo frenético, sempre com elevados custos financeiros e sociais, mas que ainda não conseguiu chegar a um bom termo com suas águas e áreas verdes. – JANES JORGE

MICROCOSMOS
Por Claudio Magris. Editora Companhia das Letras, 296 págs., R$ 46

O escritor italiano Claudio Magris é autor de um livro essencial da cultura europeia: o poderosíssimo Danúbio, ensaio que desenterra a história da Europa Central ao longo do Rio Danúbio. O avançar do rio garantia a mobilidade da trama de Claudio Magris, um escritor despreocupado em confeccionar narrativas que fluam linearmente. Microcosmos, seu livro recém-editado no Brasil, carece justamente delas. Fincado na cidade de Trieste e seus arredores, o livro é estático, avança pesaroso e com dificuldade. O que falta em dinamismo, no entanto, conquista em erudição. Retrato íntimo de uma Europa multicultural, narrado por meio de um olhar capaz de fazer uma arqueologia de cada esquina da cidade, é uma leitura enciclopédica que apenas um grande escritor como Claudio Magris poderia proporcionar.

Há historiadores que são excepcionais narradores, como Carlo Ginzburg, e narradores que são excepcionais historiadores, como W. G. Sebald e Bruce Chatwin. Mais do que evidenciar a falência do ficcional, como advogam alguns críticos, esses recentes livros mistos, cuja obra-prima é O Caminho da Chegada, de V. S. Naipaul, refazem o pacto entre história e romance que movia escritores como Balzac e Trollope, atualizado sob a influência dos estudos de micro-história.

Mais que um quadro geral, Microcosmos segue a estratégia de encenar a história na vida de indivíduos, alguns notórios como o escritor Italo Svevo, outros anônimos, que assumem o proscênio e evidenciam processos sociais e culturais silenciados pelo peso do esquecimento e pela máscara da história oficial. – VINICIUS JATOBÁ

APOIANDO HITLER - CONSENTIMENTO E COERÇÃO NA ALEMANHA NAZISTA
Por Robert Gellately. Editora Record, 518 págs., R$ 67

Quando o terror de direita atinge países europeus como a Noruega, é oportuno analisar momentos que definiram políticas ditatoriais no passado do continente. Robert Gellately, que ensina História na Universidade da Flórida, ocupa-se desse estudo em Apoiando Hitler – Consentimento e coerção na Alemanha nazista. No livro, ele sustenta que os alemães conheciam e ajudavam a promover a crueldade praticada por seus governantes durante a vigência do nazismo.

Para o povo alemão, diz Gellately, era fácil encontrar registros das atrocidades perpetradas pela Gestapo, a polícia secreta do regime, ou pela Schutzstaffel, a SS, a polícia particular de Adolf Hitler, que nasceu para proteger os líderes nazistas e acabou por comandar os campos de concentração. O anúncio da abertura do campo de Dachau foi publicado sem reservas pelo Völkischer Beobachter e reproduzido em muitos jornais locais e nacionais. Até o fim da guerra, Dachau abrigou mais de 300 mil prisioneiros e contabilizou cerca de 30 mil mortos intramuros.

Com base em documentos da Gestapo, Gellately cita inúmeros casos de vítimas nazistas denunciadas por alemães comuns. A comunicação dos cidadãos com as forças policiais era frequente. Eles lhe apontavam pessoas cuja origem parecesse “suspeita” ou aquelas que porventura integrassem algum grupo a ser exterminado. O boicote aos judeus era público. Em Glowitz, uma faixa em frente a uma loja trazia a inscrição: “Contribua para a emancipação da Alemanha em relação ao capital judaico. Não compre em lojas judaicas”. – ARAÚJO LOPES