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Sugestões de Bravo! para ler

por Redação Carta Capital — publicado 20/08/2011 15h54, última modificação 20/08/2011 15h54
Na seção Bravo! desta semana, O debate sobre Deus - Razão, fé e revolução, de Terry Eagleton, A máscara da África, de V.S. Naipaul e A mulher trêmula ou uma história dos meus nervos, de Siri Hustvedt
Sugestões de Bravo! para ler

Na seção Bravo! desta semana, O debate sobre Deus - Razão, fé e revolução, de Terry Eagleton, A máscara da África, de V.S. Naipaul e A mulher trêmula ou uma história dos meus nervos, de Siri Hustvedt

O DEBATE SOBRE DEUS: RAZÃO, FÉ E REVOLUÇÃO
Terry Eagleton, Nova Fronteira, 168 págs., R$ 49,90

Em O debate sobre Deus – Razão, fé e revolução, coletânea de conferências pronunciadas na Universidade de Yale, nos Estados Unidos, por encomenda da Fundação Terry, cuja finalidade é de que “o espírito cristão possa ser alimentado à luz mais plena do conhecimento mundial”, o famoso crítico literário marxista britânico de origem irlandesa Terry Eagleton diverte-se imensamente. Em primeiro lugar, com a ignorância teológica de neoateus bem conhecidos, como os seus compatriotas Richard Dawkins e Christopher Hitchens, este, seu ex-companheiro do movimento trotskista.

O biólogo Dawkins e o teórico político Hitchens atacam a religião tal como se manifesta entre a maioria dos fiéis, a crença num Deus todo-poderoso que criou o Universo e ao qual se deve obediência, e como uma explicação do mundo alternativa às da ciência. Tal não é a concepção de Deus defendida pelos grandes teólogos católicos, como Santo Tomás de Aquino, que não se opõe à ciência.

Eagleton sabe muito bem disso, pois, filho de operários, foi coroinha, além de se ter iniciado na política na esteira do Concílio Ecumênico Vaticano Segundo, como católico militante que era. A par de se divertir com a ignorância de seus oponentes, Eagleton enche suas palestras com piadas autodepreciativas, das quais parece extrair sumo prazer. Por exemplo, ele diz que as Palestras Terry “são tradicionalmente dedicadas a dois temas sobre os quais meu conhecimento é vergonhosamente pequeno: ciência e religião”, como que aceitando não saber do que está falando.

Embora reconheça que em nome da religião foram cometidas horríveis matanças e torturas, e que não acredita, por exemplo, no Arcanjo Gabriel, Eagleton chama a atenção dos esquerdistas para as mensagens de paz, amor e esperança contidas em muitos textos judaicos e cristãos. Isso porque, como marxista, Eagleton tem de reconhecer que tudo é contraditório e apresenta aspectos positivos e negativos. Só não aceita esse entendimento no futebol, cuja abolição pediu durante a Copa de 2010, por considerar tal esporte um obstáculo ao desenvolvimento de uma consciência progressista de massas. – RENATO POMPEU

A MÁSCARA DA ÁFRICA
V. S. Naipul, Companhia das Letras, 288 págs., R$ 49,50

Do alto do pedestal erguido em torno de um dos maiores escritores modernos, V. S. Naipaul desembarca na África para descortinar suas crenças. Começa delicado, por Uganda, a mesma que visitara décadas antes, e segue por Nigéria, Gana, Costa do Marfim, Gabão e África do Sul. De início relembra imagens de uma África anterior, sua geografia, sua gente. Destrincha com beleza histórias de antepassados que, costuradas por sua prosa fluida e análise implacável, ganham limpidez. Mas Naipaul recai em explicações algo generalistas, filhas do gênero de relato de viagem que ninguém melhor que Paul Theroux poderia pontuar (certas críticas feitas em seu Sir Vidia’s Shadow fazem mais sentido aqui).

É o veneno da civilização sobre o não compreendido, que tanto fez os indianos nutrirem por ele um ódio patriótico e que parecem ter-se cristalizado com a idade. Aqui, Naipaul vê a devastação das crenças africanas causada pelas religiões estrangeiras, ao mesmo tempo em que delineia uma simplista máscara de mise-en-scène ritualística a recobrir o conjunto dessas mesmas crenças. Atribui certos nacos de uma civilidade europeia à evolução material do continente, ao passo que ironiza a “africanidade” em tese intrínseca aos problemas que testemunha.

Isso tudo não impede que seu olhar sobre o Gabão, ex-colônia petrolífera, apreenda o significado que a floresta tem como coração místico de sua gente e que suas descrições sobre o ritual psicodélico trazido pela iboga, planta mágica, causem certa sinergia. Ou, ainda mais além, quando sua acidez encontra no Museu do Apartheid boa chance para trazer à tona os contrastes da sociedade sul-africana. A Máscara da África tem o melhor e o pior do bom e velho Naipaul. Mas, se ainda havia alguma máscara a cobrir seu cinismo sobre tudo o que não é Londres, ela parece ter caído ao longo dessas 288 páginas. – WILLIAN VIEIRA

A MULHER TRÊMULA OU UMA HISTÓRIA DOS MEUS NERVOS
Siri Hustvedt, Companhia das Letras, 208 págs., R$ 42

Neste A Mulher Trêmula ou Uma História dos Meus Nervos, a escritora americana Siri Hustvedt, de ascendência norueguesa, conta como passou a sofrer de um estranho mal que a levava a tremer incontrolavelmente. O livro pode ser útil para quem padece da mesma doença ou lido com proveito por quem quiser conhecer mais a fundo as agruras a que somos sujeitos. A primeira vez que tremeu violentamente foi ao fazer, numa pequena cidade do estado de Minnesota, um discurso em memória do pai, professor de cultura norueguesa, falecido havia dois anos. Mal começou a falar e seu corpo agitava do pescoço para baixo. A escritora, que sofria crises de dor de cabeça desde a infância, tendo chegado a ser hospitalizada por causa disso, sofreu outra ocorrência algum tempo depois, também em público.

A partir daí e sujeita a várias outras crises, ela pesquisou infatigavelmente o que a psiquiatria e a neurologia tinham a dizer sobre seu problema. Descobriu que, no século XIX, ele seria diagnosticado como “histeria” e, no século XX, como um distúrbio de conversão. Fez um mapeamento eletrônico de seu cérebro e não se descobriu nada. Ela discute as várias teses, e parece ter uma preferência pelas explicações freudianas, embora afirme que a teoria de Freud tem muitas imperfeições. Detalhe importante: ela diz que nunca perdeu a consciência ou a lucidez durante os tremores.