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Sugestões de Bravo! para ler

por Redação Carta Capital — publicado 24/07/2011 09h31, última modificação 24/07/2011 09h31
As dicas dessa semana são Borges Oral & Sete Noites, pertencente a uma coleção de novas traduções do autor argentino, e A Voz na Canção Popular Brasileira (Um Estudo Sobre a Vanguarda Paulista)

Borges Oral & Sete Noites

Jorge Luis Borges
Companhia das Letras,
216 págs., R$ 42

Não parece fácil de compreender, em um mundo de pilhérias, um título no qual Jorge Luis Borges surja Oral, como neste livro pertencente a uma coleção de novas traduções de obras do autor argentino. Mas é preciso paciência para se aventurar naquilo que o referido título conduz, já que assim devem ser os leitores, apreciadores do risco. O Borges oral seria aqui, então, apenas aquele que, acreditando no poder da palavra, a fez proferida em público, em uma série de palestras para a Universidade de Belgrano, nos anos 70. A segunda parte do livro, Sete Noites, traz ensaios reunidos em 1980 sobre a Divina Comédia, o pesadelo, As Mil e uma Noites, o budismo, a poesia, a cabala e a cegueira.

O Borges das palestras (e quem dera as festas literárias contemporâneas pudessem contar com nomes desse porte, de fato literários) tem um tom de didatismo e aconselhamento, embora nelas a palavra continue magnífica, sem temer a imperfeição do conjunto. Borges as dividiu por cinco temas, o livro, a imortalidade, o filósofo Emanuel Swedenborg, o conto policial e o tempo. O escritor trabalha com o golpe da surpresa a cada fim de parágrafo ou frase, embora ronde assuntos por demais abordados em suas ficções. Nunca novo, ele sempre surpreende. O encantamento faz sua literatura sobreviver.

Ele fala como ninguém sobre os livros. Quem nunca lê deveria se aproximar disto: “Dos diversos instrumentos do homem, o mais assombroso, sem dúvida, é o livro. Os demais são extensões de seu corpo. O microscópio, o telescópio, são extensões de sua vista; o telefone é extensão da voz; depois temos o arado e a espada, extensões de seu braço. Mas o livro é outra coisa: o livro é uma extensão da memória e da imaginação”.

A visão que Borges tem dele é a de um instrumento não utilitário, fazedor de toda a criação, resumida pelo escritor como um trato da memória. Para criar, ele diz, ora sacamos dela o que restou de nossa leitura ou evocamos, na escrita, tudo o que se perdeu na memória.
Por isso jamais alcançaremos a novidade, por isso nascemos para o esquecimento. O tempo engendra em Borges discussões de maravilhas. Ele vê no presente o inalcançável. É o passado quem o cria, e também o futuro. Aliás, não é porque não aconteceu ainda que o futuro não existe em nós. - Rosane Pavam

Itamar  ao lado de João

A Voz na Canção Popular Brasileira (Um Estudo Sobre a Vanguarda Paulista)

Regina Machado
Ateliê Editorial, 136 págs., R$ 30

A música paulista independente dos anos 80 fez público considerável e ganhou prestígio, mas ainda não havia sido presenteada com uma reflexão estético-artística sobre o seu legado junto à mais fina tradição da canção brasileira. A professora da Unicamp Regina Machado faz isto agora. Também cantora, ela coloca ao lado de intérpretes consagrados como Mário Reis, Carmen Miranda e João Gilberto os músicos Arrigo Barnabé, Itamar Assumpção, Luis Tatit, Ná Ozzetti, Tetê Spindola e Suzana Salles, para citar alguns dos intérpretes selecionados nesse estudo.

Canções emblemáticas da época como Nego Dito, de Itamar Assumpção, Sabor de Veneno, de Arrigo Barnabé, e Canção Bonita, de Luiz Tatit, foram analisadas nessa dissertação de mestrado segundo a semiótica greimasiana, fundamentação teórica aprendida nas aulas de Tatit, que Regina frequentou como aluna ouvinte na Universidade de São Paulo. Técnicas de fonoaudiologia e as experiências com alunos foram outros recursos usados por Regina na análise sobre o canto que traz contribuição importante para os estudos sobre técnica vocal e utilização da voz na canção popular.

Em A Voz na Canção Popular Brasileira, a autora pesquisou dos primeiros fonogramas da história da canção urbana, nos anos 20 e 30, até as referidas interpretações da vanguarda paulista. Mais interessante é o segundo capítulo, dedicado à apresentação da cena musical na São Paulo dos anos 80.
Ele possibilita conhecer ou recordar aquele mo(vi)mento surgido no Teatro Lira Paulistana, um disputado porão musical da rua Teodoro Sampaio, em Pinheiros. Não fosse a aridez da linguagem acadêmica, com narração distante do leitor por estar na terceira pessoa do plural, o livro teria mais sabor e não se restringiria a um público de estudantes de comunicação, cantores e compositores.
O tema é muito bom e, além disso, a legitimidade estética criada pela música alternativa paulista se consolidou no cenário musical brasileiro. – Caia Amoroso