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Sugestões de Bravo! para ler

por Redação Carta Capital — publicado 09/11/2011 08h53, última modificação 09/11/2011 08h56
Still de Touro Indomável (1980) - pp 191 - © Divulgação Cosac Naify

Scorsese com De Niro no set de Touro Indomável

A  formação em síntese

CONVERSAS COM SCORSESE

Richard Schickel
Cosac Naify, 526 págs., R$ 89

Por Orlando Margarido

Desde os anos 70, o crítico e documentarista Richard Schickel preza da amizade de Martin Scorsese e procura compreender as raízes de filmes do cineasta. Não chegou a uma conclusão fácil de sintetizar, mas a alguns fatores fundamentais dessa constituição, como o limite imposto pela asma ao garoto frágil, o dilema da religião numa família não religiosa e a convivência no bairro italiano, em Nova York, circundado pela máfia e o crime. “Mais do que pensar no que Marty fez quanto a tudo isso, é importante pensar no que ele não fez”, diz Schickel a CartaCapital. “Ele não se integrava muito com garotos de sua idade por causa da doença, não chegou a ser padre, porque sempre perdia a primeira missa matinal, e, claro, não se meteu em encrencas em Little Italy.”

Sua mais recente incursão ao universo do amigo é Conversas com Scorsese. O autor abrange de Quem Bate à Minha Porta?, a estreia em longa-metragem em 1967, aos filmes mais recentes, como Ilha do Medo, e envolve clássicos como Taxi Driver e Touro Indomável. Sobre esses, Schickel diz que aprendeu a reavaliá-los no diálogo com Scorsese. “Levou tempo até reconhecer um bom filme em Taxi Driver. Prefiro Os Bons Companheiros.” Sobre Touro Indomável, o autor enfatiza a relação do diretor com seus atores, no caso Robert De Niro, o responsável por levar a ideia original a Scorsese. “De Niro, antes Harvey Keitel e agora DiCaprio, tem o mais importante para Marty, a compreensão do que ele quer. Exigente, deseja a perfeição sempre.” Qualidades que também vieram da primeira formação. “Por todos aqueles fatores de sua infância, ele encontrou acolhimento nos cinemas e cresceu aprendendo na tela com grandes mestres, como John Ford.”

 

Paródia de fino trato

EM NOME DO PAI DOS BURROS

Sílvio Lancellotti
Global, 472 págs., R$ 49,90

Por Rosane Pavam

Nove décadas depois da aventurosa publicação de Ulisses, de James Joyce, o anti-herói daquele romance, Leopold Bloom, parece se travestir de Marcello Brancaleone, jovem editor adversário do golpe de 1964 no Brasil e torcedor do Corinthians, no romance Em Nome do Pai dos Burros, de Sílvio Lancellotti. Tantos anos após a ousadia do dublinense (literária tanto quanto bem-humorada, e transgressora em obscenidades), o que este autor do Brasil faz atualmente em língua portuguesa mais se parece com uma citação longínqua e aceitável de um bom modelo do que com um exercício de presunção escrita.

Sílvio Lancellotti, não sendo Joyce, que situa seu romance em 16 de junho de 1904, dia em que pela primeira vez teria feito amor com Nora, coloca seu fervor literário não na direção sexual, mas em 13 de outubro de 1977, quando cai o ministro linha-dura do Exército, Sylvio Frota, e no qual o Corinthians se torna campeão paulista de futebol depois de quase 23 anos. O dia brasileiro parece ter sido bem escolhido, porque emblemático de um gozo. O prazer de ver a ditadura finalmente iniciar seu declínio e o time, a ascensão, bastaria para justificar uma narrativa ficcional desse porte.

A escrita muito fácil de Lancellotti, no sentido de que nasce de um desejo de comunicação rápida, desenvolvida no exercício constante do jornalismo, torna esse empreendimento palatável. Claro está que não se trata de um autor a ambicionar uma renovação para a língua, como teria proposto Joyce ao evocar Homero e sua Odisseia, mas de um candidato apropriado à paródia de fino trato, a aproveitar a ocasião do livro para mais uma vez demonstrar que na história brasileira há espaço para grandezas tanto quanto para tropeços e bufonaria.

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