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Sugestões Bravo! para ver e ouvir

por Redação Carta Capital — publicado 17/09/2011 09h07, última modificação 17/09/2011 09h07
Nesta semana, Orlando Margarido indica Nel Nome Del Padre, de Marco Bellocchio, e comenta W.E., novo filme de Madonna

Festival de Veneza
Em plena forma

Nel Nome Del Padre
Marco Bellocchio

Num momento em que um cineasta incontornável como Ettore Scola anuncia o afastamento do ofício por não se sentir mais cômodo nas regras do jogo, é entusiasmante testemunhar dois outros grandes realizadores italianos em forma para dar continuidade ao combate. Bernardo Bertolucci e Marco Bellocchio se encontraram no palco da 68ª Mostra de Veneza, na semana passada, em razão da homenagem ao segundo. Bertolucci, em cadeira de rodas devido a uma operação malsucedida, entregou um Leão de Ouro de carreira ao colega de geração.

Somos irmãos de cinema, começamos juntos”, disse o anfitrião, atualmente envolvido em um projeto em 3D. Contou uma história divertida, quando um fã certa vez veio parabenizá-lo pelo filme De Punhos Cerrados. “Mas, como sabemos, é de Bellocchio. Quisera eu ter feito este e outros trabalhos dele.”

Não foi aquele o longa-metragem de estreia de Bellocchio, mas sim Nel Nome del Padre, de 1972, o título exibido para o evento, em cópia restaurada e com pequenas alterações feitas pelo realizador. Bellocchio contou à imprensa que reduziu, por exemplo, a passagem da encenação de uma peça teatral levada pelos alunos do colégio interno, onde a história se dá. O corte não reduziu o impacto da crítica corrosiva às instituições conservadoras, como a Igreja, e leva a crer num artista mais político e contestador do que o diretor atual de Vincere. “Hoje sou um rebelde moderado”, disse. “É preciso mudar e eu não tenho medo de transformações.”

O diretor crê que se deve assinalar os problemas de nosso tempo de modo mais sereno, pois, de outro modo, como antes, quando se gritava para ser ouvido, as pessoas poderão não prestar atenção. Tratou como uma bobagem achar que possa querer se aposentar, aos 71 anos. “Apenas, se não consigo viabilizar um projeto que exija mais capital, passo a um filme intimista”, completou, referindo-se ao belo e recente Sorella Mai, no qual reúne boa parte de sua família no elenco. – Orlando Margarido

Boneca de luxo

W.E.
Madonna

Ninguém duvidará que Madonna possa querer tudo e algo mais. Aos presentes durante sua coletiva no Festival de Veneza, disse mesmo que não abdicaria da realeza por um grande amor. Se poderia ter os dois, para quê? Mas, por enquanto, reivindicar um status de diretora de cinema respeitável configura-se apenas como um capricho de estrela que quer brincar um pouco atrás das câmeras. Uma profissional de boas intenções e bem assessorada, se tanto, já que W.E. é um filme atento a um fato digno de ser explorado pelo cinema e justifica
por si mesmo um provável dilema da cantora.

O fato é aquele que fez o ocupante do trono inglês Edward VIII (James D’Arcy) desistir do seu reino pelo amor à plebeia Wallis Simpson (Andrea Riseborough), americana e figura de sociedade. Se hoje a ascensão de belas jovens de sangue não azul ocorre para deleite da audiência internacional, em 1936 a renúncia foi um escândalo. Madonna escolhe o ponto de vista dos fracos e investiga o que acontece na vida da Wallis, jamais
ouvida a contento.

Não é improvável verificar essa mesma condição na Madonna Louise Veronica Ciccone que buscou ser aceita e respeitada em forma de outra legitimação. Há no filme a versão atual de uma jovem mal-amada e destratada pelo marido, até aos tapas. Assim, ela busca num leilão de objetos do casal, exilado da história real, e nos braços de um segurança do local a passagem plena de fábula. Traz alguma para seu presente trágico, num contexto de promessa e sonho digno das publicidades elegantes, do qual, afinal, Madonna é eminência incontestável. – O.M.

CD

Falar a música

Johann Sebastian Bach - 6 Suítes a Violoncello Solo Senza Basso

Dimos Goudaroulis
Tratore

O grego Dimos Goudaroulis, 15 de 41 anos passados no Brasil, está conectado à música em sua origem, não apenas a performances que se tornaram clássicas no decorrer do tempo. Não ouviremos, em sua execução das suítes para violoncelo de Bach, o vibrato que há em um Rostropovich, mas a intenção que fez a originalidade do compositor no século XVIII. Entre tantas transcrições, Goudaroulis escolheu aquelas de autoria da segunda esposa de Bach, Anna Magdalena, para seis suítes compostas entre 1720 e 1723. Essas peças para violoncelo são suítes de danças tipicamente francesas destinadas a um instrumento italiano. Mas Bach, inovador dentro da tradição, não as fez dançantes, antes as tornou música discursiva, que obedece às leis da retórica e, explica o instrumentista, “precisa ser declamada e articulada”. Goudaroulis fala com seu ouvinte. Considera-o essencial, quase um compositor também, a acolher a dissonância em busca de mais sentidos, como Bach ensinou. – Rosane Pavam