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Sugestões Bravo! para ver

por Orlando Margarido — publicado 04/02/2012 10h43, última modificação 06/06/2015 18h58
Nesta semana, Orlando Margarido destaca Millennium – Os Homens que Não Amavam as Mulheres e documentário sobre a poeta Ana Cristina Cesar
milenium

Quase normais. Rooney Mara e Daniel Craig

Estranheza contornada

Millennium – Os homens que não amavam as mulheres

David Fincher

Não se pode negar a esta versão americana de Millennium – Os Homens que Não Amavam as Mulheres (David Fincher) o encontro de um realizador com o material certo. Desde Seven – Os sete crimes capitais, David Fincher notabiliza-se em coligir situações e personagens que invocam alguma anormalidade comportamental, como a violência em Clube da Luta e a psicopatia em Zodíaco à fantasia de deficiência humana em O Curioso Caso de Benjamin Button e ética em A Rede Social.

A predileção é invocada agora em favor de uma investigação levada por um jornalista (Daniel Craig), abalado na credibilidade, para desvendar a possível morte de uma jovem. Uma espiã nada sociável (Rooney Mara, indicada ao Oscar de Melhor Atriz) o auxiliará numa tarefa que contorna a estranheza psicológica do filme original sueco em prol de uma fórmula consagrada do thriller de entretenimento.

 

Festival de Tiradentes

Aos pés da poeta

Bruta Aventura em Versos

Letícia Simões

A respeito dos atributos da obra poética de Ana Cristina Cesar, a ensaísta Heloísa Buarque de Hollanda atenta a condição cifrada e o sentido muitas vezes invertido, com o propósito de confundir. Não será o documentário Bruta Aventura em Versos a chave esclarecedora para muitos dos dilemas e nuanças com que sobrevive a poesia da carioca, cujo suicídio aos 31 anos em 1983 também é fato deixado à margem. A primeira tentativa de registro audiovisual do legado incomum e afeito a classificações de gênero não é mais do que exatamente isso, uma mirada sobre vida e criação de Ana Cesar e como ela se presta às novas gerações.

O filme de Letícia Simões exibido na 15ª Mostra de Cinema de Tiradentes tem a condução de uma carta de homenagem à autora,  expediente que esta inclusive usou com frequência para dar vazão às suas questões pessoais, dúvidas e tormentos. É notória desta habilidade a publicação em 1979 de Correspondência Completa, uma missiva fictícia, e a troca de escritos com amigos como Heloísa e o também poeta Armando Freitas Filho, ex-companheiro. Deles se tem os depoimentos mais esclarecedores e voltados a uma  contextualização necessária. Mas não é esta uma preocupação prioritária e sim aproximar a integrante de uma geração marginal,  aquela do mimeógrafo como modo de propagação artesanal, da atualidade. Assim, surgem jovens poetas que não conheceram Ana Cesar senão pela herança de obras como A Teus Pés e outras póstumas, a exemplo de Inéditos e Dispersos. Nesses momentos se indica talvez que atingir esclarecimentos não seja mesmo o objetivo.

Olho-vivo

Desconhecer as referências ao cinema marginal paulista contidas em Corpo Presente não impediu Anne Delseth de considerar o longa-metragem de Marcelo Toledo e Paolo Gregori o mais entusiasmante da 15ª Mostra de Cinema de Tiradentes. “Gostei da relação dos  personagens com a metrópole, que não vejo no cinema brasileiro; quero apresentá-lo”, diz a suíça a CartaCapital. A apresentação  significa uma vaga na próxima edição da Quinzena dos Realizadores, disputada vitrine paralela a Cannes que já exibiu, por exemplo,
A Alegria, de Felipe Bragança e Marina Meliande. Como Anne, estreante no País e na Quinzena, outros quatro programadores de  festivais internacionais foram convidados à cidade mineira até dia 28 de janeiro com o mesmo intuito. São “olheiros” da nova geração de diretores locais, que têm em Tiradentes a primeira chance do ano.

Esse olhar contribui para esclarecer a visão do estrangeiro sobre o produto da casa e o que dele se espera. Bem-aceito pela crítica local, Corpo Presente não obteve a mesma repercussão do capixaba As Horas Vulgares. “Mas é o cinema a que estamos habituados na  Europa; há muito de Philippe Garrel nele”, relativiza Anne, referindo-se ao diretor francês tido como influência pelos diretores Rodrigo de Oliveira e Vitor Graize. “O que distingue o Brasil é a diferença cultural e isso deve constar nas telas.” Ela ainda não havia visto A Cidade É uma Só?, o concorrente de Brasília eleito pelo júri oficial da crítica e o preferido do seu colega Raymond Walravens, do Festival de Amsterdã.

Para a seção World Cinema, o programador prega uma noção distante do filme de sucesso por aqui. Já exibiu Tropa de Elite 2, mas em sessão a céu aberto. “Não é um filme comercial o suficiente nem de arte para um circuito específico.” Para ele, As Hiper Mulheres e o  inédito Xingu, programado para Berlim, dialogam e têm função importante de descartar o exotismo indígena. “Não é questão de identidade. O critério é poético e não geográfico”, diz o italiano Paolo Moretti, que até o ano passado orientava a mostra Horizontes do  Festival de Veneza.