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Cinema e exposição

Sugestões Bravo! para ver

por Orlando Margarido — publicado 21/01/2012 09h22, última modificação 22/01/2012 10h08
Nesta semana a coluna destaca Tintim, nova animação de Steven Spielberg, e o longa A Separação, dirigido por Asghar Farhadi
The Adventures of Tintin: The Secret of the Unicorn

O topete xereta

 

Cinema

Timtim Jones

 

É legítima a desconfiança ao deparar com um dos personagens mais adorados das histórias em quadrinhos universal entregue às mãos de Steven Spielberg. Mas também é ingênuo supor que o cineasta se lançaria a um desafio de razoável risco destituído de suas habituais estratégias.

Assim, As Aventuras de Tintim,primeira grande produção para cinema aseada na criação do belga Hergé, depois de adaptações obscuras nos anos 1970 e série de tevê nos anos 1990, supera em boa parte as dúvidas iniciais e valida mais uma vez a esperteza desse mestre do entretenimento.

Pois será esse seu trunfo na animação que estreia na sexta 20, na medida em que trata o jovem jornalista xereta e destemido como um professor adulto dedicado a missões arqueológicas bem agitadas, e troca o chapéu deste por um topete como marca.

O Tintim de Spielberg é um Indiana Jones voltado para a velha geração dos gibis, e da própria série de filmes dos anos 1980, que deve encantar os mais jovens e não conhecedores das tiras de Hergé pelo pique que supera os esforços do personagem de Harrison Ford. Evidente, já que no campo da animação, mesmo sendo esta o estranho rotoscoping de desenho sobre atores reais, tudo e um pouco mais é possível.

Não há limites de narrativa e verossimilhança na investigação do protagonista (Jamie Bell) a partir de uma réplica de galeão comprada numa feira de rua que contém anotações referentes a um tesouro. A disputa de interessados por elas leva nosso herói ao encontro de um comandante beberrão e fracassado (Andy Serkis). Mais cuidadosa que a versão original em inglês, a tradução brasileira tratou de recuperar os nomes naturais da história de Hergé, como o cão inseparável Milu e a hilária dupla Dupont/Dupond.

 

Vaia com saudação

Para o diretor francês Bertrand Bonello, ter um filme seu vaiado em cena aberta ou vê-lo cotado como um dos piores da safra se equipara a uma saudação. Mesmo quando a sessão ocorre no Festival de Cannes e um ranking de competentes críticos de vários países cuida da eleição entre os concorrentes à Palma de Ouro.

“Não esperava outra recepção, o filme desestabiliza”, comentaria depois em entrevista. Como entender a avaliação, se pretensiosa ou sintomática, será possível a partir de sexta 20, quando L’Apollonide – Os amores da casa de tolerância entra em cartaz.

Pelo subtítulo explicativo deduz-se o cenário. L’Apollonide é um bordel, mas não qualquer um. É a maison close mais requintada na Paris da belle époque, que Bonello nos faz crer que realmente existiu, ou, ao menos, uma similar. O diretor flagra-a em seu declínio, acuada pelos ditames morais das autoridades.

Tem início, então, uma espécie de estudo das figuras humanas que nela circulam. As prostitutas e suas carências ou tragédias, a exemplo daquela desfigurada  com uma marca de eterno sorriso, os cavalheiros de mais variadas personalidades, do sádico ao romântico. Tudo muito detalhado, pensado e, por consequência, entediante.

Aos de dentro e à plateia. Bonello move-se no espaço do voyeurismo, como a requisitar o espectador para as fantasias e perversões dos personagens. Ele já acionou o truque em O Pornógrafo e Tirésia. Talvez esses fossem até menos monótonos. Houve quem aplaudisse, o que ao menos assegura uma condição
digna de polêmica.

 

Uma nação complexa

A separação, o incontornável filme do iraniano Asghar Farhadi que estreia na sexta 20, nem precisaria do prêmio do Globo de Ouro ou da seleção para a disputa do Oscar de melhor filme estrangeiro, revelada há poucos dias, para se afirmar além de suas qualidades na tela.

De todo modo, com o Urso de Ouro do Festival de Berlim do ano passado, é certa sua dianteira entre os concorrentes ao troféu da Academia de Hollywood.

Afinal, em questão também está o Irã e Mahmoud Ahmadinejad, símbolos atuais de conflito, em especial, com os EUA. Em Berlim, houve quem falasse em razões políticas para a premiação. O filme comporta tal leitura, mas é muito mais rico naquela que revela a complexidade da sociedade iraniana, de contrastes na convivência cultural e religiosa, aspecto roteirizado com rara maestria.

Nader e Simin (Peyman Moadi e Leila Hatami) formam o casal protagonista que sente as disparidades na pele. Ela tenta obter o divórcio, alegando que o marido não concorda em ir viver no exterior.

Nader tem um pai idoso, vítima de Alzheimer, e não pode deixá-lo. Para cuidar dele, contrata uma ajudante. Razieh (Sareh Bayat) é muçulmana radical. Grávida, precisa trabalhar, mas seus princípios não permitem, por exemplo, encostar ou dar banho em um homem.

A situação desanda e, num incidente provocado possivelmente por Nader, ela cai e perde o filho. O caso vai à Justiça e o filme será tomado por uma querela de difícil solução, por um lado o casal representante de uma classe média esclarecida e laica, de outro a jovem pobre e convicta. Mais do que se ater a um conflito pontual, no entanto, Farhadi almeja o retrato de uma nação, como deixa claro Simin ao falar de “circunstâncias” ao juiz para justificar a intenção de criar sua filha fora do Irã.

 

 

Exposição

O Princípio do Império
Rigor Visual
O respeito de seu prodigioso Declínio e Queda do Império Romano, o inglês Edward Gibbon amplia a análise da trajetória de Roma para definir que a História é “pouco mais do que o registro de crimes, loucuras e desventuras da humanidade”.

Talvez seja justamente esse o fascínio provocado por um dos acontecimentos mais instigantes da época antiga, esse misto de glória, poder, guerras e traições políticas que até hoje nos atrai aos livros, ao cinema e à televisão. De Shakespeare a Brecht, são muitos os escritores e pensadores que se voltaram ao período, estimulando a permanência dos personagens romanos e seus feitos. Desvendar de maneira mais próxima e didática como a nação alcançou tal gigantismo e domínio de território é uma das intenções da mostra Roma – A vida e os imperadores, que ocupa o Museu de Arte de São Paulo entre quarta 25 e 1º de abril.

São mais de 300 peças do momento em que, de República, a Roma fundada na lenda por Rômulo e Remo passa a Império. Ou seja, a exposição situa o início do poderio de uma cidade-estado à sua ascensão ao mito de conquistas territoriais, condição que duraria até o ano de 476 em sua porção ocidental e 1453 nas divisas orientais.

Mais fácil que as datas será localizar essa passagem por dois de seus personagens mais famosos, Júlio César, imperador entre 49 e 44 a.C. e Augusto, autoridade maior entre 27 e 14 a.C. Deles, poderá ser visto no acervo vindo da Galeria Uffizi, em Florença, do Antiquário de Pompeia e de museus arqueológicos italianos medalhas, bustos e estátuas. Da mesma forma, Nero e sua obstinação pelo luxo e tirania, além de Caracala, figura despótica que se manteve no trono até ser assassinado no ano de 217, encerram a representação da mostra.

Mas menos do que dar atenção e valor aos imperadores, a exposição quer especialmente jogar luz no cotidiano da grande cidade que chegou a ter mais de 1 milhão de habitantes. Assim, há módulos destinados a joias, instrumentos e peças de uso caseiro, além de itens como máscaras teatrais, armaduras, desenhos do Coliseu e montagens interativas que permitem ter a noção de diversão pública, a exemplo da luta dos gladiadores.

Também a diversidade cultural e religiosa emprestada por vários povos africanos e asiáticos que conviviam em Roma comparece por registros de desenhos e outros recursos de expressão. Por seu esplendor, que garante popularidade entre os roteiros turísticos até hoje, Pompeia tem destaque e está simbolizada por três paredes com afrescos. A partir deles, nota-se a preocupação de uma cultura em se eternizar também pelo rigor visual.

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