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Sugestões Bravo! para ver

por Orlando Margarido — publicado 12/11/2011 08h36, última modificação 12/11/2011 08h36
Nesta semana Orlando Margarido indica We Can’t Go Home Again, último filme de Nicholas Ray, e a 7ª Semana de Cinema Italiano. Veja mais aqui
DeanJames

James Dean, em Juventude Transviada (1951)

Cinema

Experimento final

Mostra  exibe clássicos  e o último filme de Nicholas Ray

De 16 de novembro

a 4 de dezembro

CCBB de São Paulo e do Rio de Janeiro

Em We Can’t Go Home Again, último longa-metragem dirigido pelo cineasta americano Nicholas Ray (1911-1979), temos uma visão da experimentação que o guiou até o fim e de como ele considerava a obra seu testamento fílmico. Em certo momento, ao final de uma noite exigente de montagem, Ray declara aos seus alunos-assistentes: “Agora eu sinto que só posso morrer”. Mais à frente, irreverente e mordaz, representa um falso suicídio, e com uma corda na mão, resmunga: “Dirigi dez malditos faroestes e não consigo nem fazer um laço”. É esse realizador atento a seus princípios e dono de uma cinematografia notável a colegas como Wim Wenders e Victor Erice, mas nem tão evidente ao público, que a retrospectiva completa O Cinema É Nicholas Ray homenageia. Título que é expressão de outro admirador, Jean-Luc Godard.

O filme experimental derradeiro e inconcluso de 1976 integra o pacote. Foi realizado em parceria com alunos do diretor

na Universidade de Binghamton, em Nova York, onde Ray deu aulas depois de se afastar de Hollywood. Nele, acompanha uma espécie de mosaico expressionista das inquietudes dos Estados Unidos e sua juventude naquele momento, investigação que se confronta com as próprias indagações do diretor também no campo do cinema. Quem as define é a viúva Susan Ray, que em setembro integrou uma mesa de discussão no Festival de Veneza, onde uma cópia restaurada de WCGHA foi exibida, e presente aqui para um seminário. “Para ele parecia que a geração jovem daquele momento, um período crítico de mudança no país, se retirava do confronto dos anos 60 em busca de uma imagem ou ideia dela mesma”, aponta. “Mas ele achava estranho isso, pois sempre temeu que formar uma imagem de si mesmo o impedisse

de crescer e de mudar.”

Susan Ray aprofunda as preocupações do marido no documentário Don’t Expect Too Much, também lançado em Veneza e programado agora. Com um arquivo impressionante, hoje pertencente à fundação dirigida por ela, o estudo se detém especialmente no modo de trabalho de Ray, mas também foca situações casuais e entrevista Erice, Jim Jarmusch e Wenders, que o fez ator e lhe dedicou O Filme de Nick (1980). Além desse título, o público tem na mostra os clássicos representativos de uma crise geracional, a exemplo de Juventude Transviada (1955), e igualmente o flerte com

o cinema de gênero, seja o noir em No Silêncio da Noite (1950) e Cinzas que Queimam (1952), o western em Johnny Guitar (1954) ou o drama psicológico no raro Delírio de Loucura (1956).

 

O empenho passado

7ª SEMANA DE CINEMA ITALIANO

11 a 17 de novembro, Cinemark Iguatemi, Paulista e Cine Sabesp

18 a 24 de novembro, Museu da Imagem e do Som

25 de novembro a 1º de dezembro, Cinemark Ribeirão Preto

Em tempos conturbados na política da Itália, não será no cinema atual do país que se poderá buscar alguma tentativa de reflexão e compreensão do momento. “Com exceções, os filmes italianos voltaram-se para a comédia, o drama romântico, e isso aconteceu por vários fatores, como a influência da televisão a partir dos anos 80 e 90”, diz a CartaCapital o crítico e estudioso Alberto Barbera, convidado da 7ª Semana de Cinema Italiano. De fato, na seção contemporânea do evento, os 12 títulos elencados e produzidos do ano passado para cá contornam em sua maioria o entretenimento, ainda que possam flertar com alguma preocupação social. Na primeira vertente, o público deve confirmar tal vocação em filmes como Bar Sport, sucesso popular de Massimo Martelli baseado na literatura de Stefano Benni, e As Idades do Amor, terceiro filme da série Manuale d’Amore, de Giovanni Veronesi, com Robert De Niro e Monica Bellucci no elenco. Com um tino mais realista e provocativo, Ruggine, ou Sucata, delineia dramas pessoais com empenho.

A face cômica do cinema italiano, como se sabe, nem sempre foi destituída de compromisso com a realidade e o olhar político. A prova está na seleção dedicada ao mestre Mario Monicelli com cinco de seus filmes, entre eles Eternos Desconhecidos (1958) e Os Companheiros (1963). Mas a atualidade talvez precisasse mais de nomes como Francesco Rosi, Elio Petri, Pietro Germi, Luigi Zampa e Roberto Rosselini, que dos anos 40 aos 70 definiram a noção de autoria e engajamento político da Itália para o mundo. É Barbera quem traz do Museu Nacional de Cinema, instituição que dirige em Turim, sete longas restaurados daqueles realizadores. Alguns com certa visibilidade por aqui, como A Classe Operária Vai ao Paraíso (1971), de Petri, outros raros, a exemplo de Renúncia de um Trapaceiro (1959) e A Vontade de um General (1970), ambos de Rossi, além de Anos Difíceis (1948), um filme de Zampa de modernidade surpreendente.

Romance de formação

SE NÃO NÓS, QUEM?

Andres Veiel

Na sua forma híbrida de dramatização de uma trajetória pessoal real e evocação de um período histórico conturbado na Alemanha, Se não Nós, Quem?, em cartaz a partir de sexta 11, exige do espectador um empenho de início para que ambas as vertentes se justifiquem. No primeiro contexto, temos a formação do jovem Bernward Vesper (August Diehl, de Bastardos Inglórios) no fim dos anos 60 como escritor, editor e ativista político, fase que cumprirá com uma companheira, Gudrun Ensslin (Lena Lauzemis). Vesper também carrega no sobrenome um dilema. Seu pai, o escritor Willi Vesper, foi ligado ao nazismo. Enquanto busca reabilitar a herança literária paterna, Bernward recrudesce

na luta política de esquerda, caminho que o levará ao guerrilheiro Andreas Baader e seu grupo Baader-Meinhof.

A rigor, o painel pessoal serve como estudo preliminar do que viria a ser um dos movimentos mais radicais da Alemanha, pelo uso de ações armadas, e já enfocado em bom filme anterior. Mas o diretor Andres Veiel nunca perde de vista que projetos políticos dessa envergadura sempre custam desgastes e decisões antes de tudo íntimas. É a situação de Vesper, inclusive com a perda da mulher para o líder Baader, até morrer em 1971 ao ingerir pílulas para dormir.  No Festival

de Berlim deste ano, Veiel comentou que o híbrido de gêneros foi a maneira encontrada de tocar num período que ainda rende tabus na sociedade alemã. “Acredito que a força desses jovens ainda possa dizer algo para os alemães hoje

e para situações mundiais como o conflito do Iraque, a censura no Irã e outros problemas que merecem nossa posição firme.”

Tempo de recomeçar

LATE BLOOMERS – O AMOR NÃO TEM FIM

Julie Gavras

Em a culpa É do Fidel, Julie Gavras estreou na direção com o recurso do olhar infantil conservador posto sobre um mundo adulto libertário. Há um movimento semelhante, mas agora no limite da terceira idade, em Late Bloomers –

O amor não tem fim, novo filme da diretora que estreia na sexta 11. Como a menina Anna do primeiro filme, aqui uma senhora madura e de sólido casamento, Mary, também quer se libertar de convenções e se conhecer melhor. Experimentará isso enquanto Adam, seu marido, enfrenta também crise com a velhice.  O que fez Julie cumprir esse arco temporal, da infância à maturidade? “Simples, todos nós passaremos, de algum modo, por crise semelhante”, diz ela a CartaCapital em entrevista concedida durante o Festival de Berlim deste ano. “E eu tenho um pai cujo envelhecimento acompanho de perto, sei seus problemas.” Seu pai, os cinéfilos sabem, é Costa-Gavras, o grande realizador de filmes políticos como Z e Estado de Sítio.

Berlim foi uma ocasião especial para exibir o filme. Isabella Rosselini comandava o júri e na tela representava Mary, ao lado de William Hurt como Adam. A atriz surpreendeu a todos ao declarar em entrevistas que a idade não lhe incomoda

e quer ser vista e respeitada pelas rugas que tem. “Isso era muito importante para a personagem”, diz Julie. “Queria alguém com a expressão intacta, que se aceitasse na frente do espelho, pois o tempo que Mary quer recuperar não é o cronológico, mas o da oportunidade ainda de viver, experimentar.” Antes assistente do pai, Julie trafega no gênero do drama leve, com humor, mas acredita ter seu empenho também. “O político existe tanto quanto os dilemas pessoais,

é apenas uma questão de ponto de vista.”

EXPOSIÇÃO

Um ícone do front

STEVE McCURRY – ALMA REVELADA

Instituto Tomie Ohtake

São Paulo

Até 29 de janeiro de 2012

Quando o fotógrafo americano Steve McCurry ganhou em 1980 a medalha de ouro intitulada Robert Capa, honraria na área, havia mais em questão do que qualidade profissional. Ele fazia jus ao nome titular do prêmio pelas mesmas razões que o colega húngaro um dia foi reconhecido, já que afrontara guerras com sua câmera. McCurry mereceu a distinção pela cobertura do conflito no Afeganistão ainda tomado pelos rebeldes e antes da invasão pela União Soviética. Entrou no país vestido como um local e costurou os rolos de filmes na própria roupa para então divulgar ao mundo imagens inéditas. Entre elas, está a icônica imagem da garota refugiada afegã, só em 2002 identificada como Sharbat Gula. Essa e outras cem fotos de embates civis, tragédias como o 11 de Setembro, e do cotidiano inesperado em regiões conflagradas estão reunidas no Tomie Ohtake. A seleção inclui ainda uma curiosa experiência desse integrante da agência Magnum com o último filme Kodachrome fabricado, utilizado para temas diversos, como um retrato de Robert De Niro.