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Sugestões Bravo! para ler

por Redação Carta Capital — publicado 09/07/2011 11h02, última modificação 17/07/2011 11h17
As dicas desta semana incluem a fotobiografia Ziembinski – Mestre do Palco, do diretor e ator polonês, e The Tiger´s Wife, de Téa Obreht
Sugestões Bravo! para ver

As dicas desta semana incluem a fotobiografia Ziembinski – Mestre do Palco, do diretor e ator polonês, e The Tiger´s Wife, de Téa Obreht. Foto: Acervo Cedoc Funarte

FOTOBIOGRAFIA

O palco de Ziembinski

Como um polonês venceu a “gambiarra” no teatro brasileiro

Ziembinski – Mestre do Palco

Imprensa Oficial, 400 págs, R$ 30

Ao avaliar sua influência no teatro brasileiro, já próximo ao cinquentenário de carreira, o diretor e ator polonês Zbigniew Ziembinski (1908-1978) não convocou a modéstia. “Eu trouxe a consciência do espetáculo teatral”. Julgava a cena então, nos anos 1940, quando desembarcou no Rio de Janeiro, amadora e improvisada. Mas arriscava uma explicação. “O teatro não é o forte do brasileiro; forte é música popular, poesia, futebol.” Sua contribuição nunca deixou de ser avalizada por críticos de renome como Décio de Almeida Prado, que atentou, em 1951, para a intimidade com a peça a ser dirigida e o personagem a ser interpretado. Aluno do encenador e seu estudioso, Yan Michalski escreveu que com ele o teatro nacional abandonou a gambiarra e a ribalta. Questionava, num necrológio, a postura de mito que talvez escondesse muito do homem. Condição não tão presente no livro Ziembinski – Mestre do Palco, trazido pela Coleção Aplauso.

Na volumosa fotobiografia, acompanhada de textos de admiradores e do próprio homenageado, o ingresso ao universo expressionista que transformaria a cena teatral se dá pelas montagens de Vestido de Noiva, o marco inaugural da nova fase. A primeira versão sobre o texto de Nelson Rodrigues, em 1943, já acolhia de modo pleno o imigrante apenas dois anos depois de sua chegada ao Brasil, à vontade com o grupo Os Comediantes, que conheceu por acaso. As casualidades então se sucediam, segundo o jovem fugido da guerra para os Estados Unidos e que numa etapa da viagem acabou por permanecer no Rio. Suas noções das vanguardas polonesas ajudaram a estreitar  as relações com uma turma disposta a mudar o arcaico conceito de teatro na cidade. Esse desafio de Ziembinski migrou em seguida para o Teatro Popular de Arte, mais tarde Teatro Maria Della Costa, e o Teatro Brasileiro de Comédia, onde dirigiu peças como Amanhã, Se Não Chover.

A essa altura os preceitos ziembinskianos, como a marcação e movimentação dos atores em consonância com a luz e a cenografia, já haviam se estabelecido, o que levou a parcerias constantes, caso do cenógrafo Tomás Santa Rosa. Ainda mais significativo foi seu encontro com Cacilda Becker no TBC, com quem fundaria um grupo. Natural também que, ligado aos italianos do núcleo de Zampari, fosse viver o sonho de um cinema industrial na Vera Cruz. Pelo espírito independente, Ziembinski trafegaria em vários grupos teatrais e testaria uma teledramaturgia iniciante, mas que não soube aproveitar seu tipo irreverente, como  fez o cinema. Suas aulas formariam toda uma geração artística. São facetas lembradas no livro, que traz uma bela passagem do cineasta Domingos de Oliveira sobre o amigo. Ele fala de um tal filme sobre um ator veterano que forja a própria morte para saber se ainda é querido. Arrepende-se, quer voltar atrás, mas não pode mais. Ideia de Ziembinski para um roteiro nunca filmado. - Orlando Margarido

A mitologia fantástica de Téa

The Tiger`s Wife

Téa Obreht
Random House, 338 págs.,
US$ 25

A mitologia e a superstição têm grande importância na vida de Téa Obreht. Em sua opinião, esses mitos representam um mecanismo maravilhoso para enfrentar a realidade. As pessoas, acredita, criam e embelezam histórias para lidar com momentos de grande desassossego. Cada trajetória individual é um mito, e Téa escreveu um livro para as pessoas refletirem sobre essa ideia.

The Tiger’s Wife foi incensado pela imprensa americana como a estreia literária mais promissora do ano. Téa, de 25 anos, ganhou elogios por ter criado com muita imaginação a história de Natalia. A personagem é uma médica que investiga segredos do passado durante uma missão no orfanato de um país dos Bálcãs acossado por anos de conflitos. A autora admite existirem vários elementos autobiográficos no primeiro romance.
Ela nasceu em Belgrado, na ex-Iugoslávia, e passou a infância em Chipre e no Egito.

Levada pelo avô, Téa conheceu as pirâmides e as múmias egípcias, experiências fundamentais para forjar a sua visão mágica de mundo. Cresceu a ouvir lendas sobre vampiros. Desde a mudança para os Estados Unidos em 1997, ela deleita-se com histórias de fantasmas. Quando visita uma cidade americana, a sua primeira atitude é se informar sobre as assombrações do lugar. The Tiger’s Wife lembra algo dos romances do colombiano Gabriel García Márquez. O seu realismo fantástico permite que um dos personagens seja imortal e uma mulher esteja casada com um tigre.

Téa teve três inspirações: a morte do seu avô em 2007, um documentário da National Geographic sobre tigres-siberianos e as viagens constantes para Belgrado. Em The Tiger’s Wife, Natalia relembra o contato com o avô que foi até uma aldeia sem avisar para ali morrer sozinho. Ninguém consegue explicar a decisão desse homem obcecado por The Jungle Book, de Rudyard Kipling.

O fato de Natalia e o seu avô serem médicos representa uma alegoria: a medicina como expressão da incapacidade de entender. Segundo Téa, com frequência os doutores se envolvem em situações nas quais a ciência apresenta soluções insuficientes. E a fé entra nesse vácuo. A presence da guerra no enredo não tem um propósito histórico.

É uma justificativa ideal para a escritora falar de outra coisa. “Durante um conflito, o nosso senso de humanidade é radicalmente abalado”, acredita. “A realidade começa a parecer fantástica, e aquilo que era mito se torna mais plausível.” É essa falta de respostas que tanto persegue os seres humanos o que fascina Téa Obreht. – Francisco Quinteiro Pires

Grande poeta, contista mediano

Paco Yunque e Outros Relatos

César Vallejo
Editora Reflexão, 120 págs, R$ 37

Do escritor peruano César Vallejo (1892-1938) se pode dizer o mesmo que já foi dito do escritor brasileiro Carlos Drummond de Andrade: cada um deles é o maior poeta de seu país em todos os tempos, mas, como contistas foram bastante comuns. Pelo menos, é o que se vê nessa coletânea Paco Yunque e Outros Relatos, publicada pela Editora Reflexão. São textos dignos de figurar na obra de um autor competente de best seller americano, ou de um autor igualmente competente do realismo socialista soviético. O conto que dá título à coletânea é famoso no Peru, onde consta praticamente todas as antologias escolares.
Mas isso ocorre muito mais por causa de seu tema – as desventuras escolares de um aluno pobre, num vilarejo nas montanhas – do que pela profundidade psicológica, pelo artesanato literário ou pela surpresa da trama e do desenlace. Além disso, não se sabe se certas expressões inusitadas em outros contos são produto da imaginação modernista de Vallejo ou de falhas na tradução. Por exemplo, o que seriam uma “fauna vernacular” ou uma “estância egípcia?” Note-se: são contos bastante dignos de serem lidos, mas abaixo do nível artístico da grande poesia de Vallejo. – RENATO POMPEU

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