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Sugestões Bravo! para cinema

por Orlando Margarido — publicado 15/07/2011 14h48, última modificação 17/07/2011 11h21
Nesta semana Orlando Margarido indica Rock Brasília - Era de Ouro, que traz a trajetória dos roqueiros da capital federal nos anos 1980, e Lola, de Brillante Mendoza
Sugestões Bravo! para cinema

Nesta semana Orlando Margarido indica Rock Brasília - Era de Ouro, que traz a trajetória dos roqueiros da capital federal nos anos 1980, e Lola, de Brillante Mendoza. Foto: Alexandre Landau/AE

Éramos jovens

Rock Brasília - Era de Ouro

Vladimir Carvalho

Visto comumente pela perspectiva individual das bandas, a trajetória dos roqueiros de Brasília nos anos 1980 é também fruto de um movimento coletivo, como mostra Vladimir Carvalho no documentário sobre estrelas da geração como Legião Urbana, Capital Inicial e Plebe Rude. Como espécie de líder messiânico da turma do Planalto, impõe-se Renato Russo, que morreu como mártir em 1996 em decorrência da Aids. É ele o fio condutor natural do filme, exibido no recém-terminado 4º Paulínia Festival de Cinema com empolgação do público.

Carvalho, veterano documentarista de veia política, tira partido desse contexto social e nem tanto do musical, como o fizera em outros trabalhos, concluindo um painel da capital tão envolta em glamour no noticiário, mas vista aqui em seu reverso alternativo.

Pois foi nas horas de ócio típicas da idade, largados nas superquadras da cidade ou num curioso bairro Colina sem letras e números como endereço, que esses jovens começaram a se entusiasmar pelo punk rock e pós-punk. Nasceu assim a experiência inaugural do Aborto Elétrico, primeira banda de Russo em 1978, aos 18 anos, integrada por Fê Lemos e seu irmão Flávio, mais tarde baterista do Capital Inicial.

Todos dão depoimentos, enquanto Russo é ouvido numa longa entrevista à MTV e pelo próprio Vladimir. É pela voz do líder que se tem detalhes da formação e trajetória do Legião Urbana. E pelos eventos históricos, nem sempre musicais, em que a banda se envolveu. Um deles é uma espécie de fim simbólico dessa fase.

A confusão em show no estádio Mané Garrincha, em Brasília, deu-se menos pela truculência policial e mais por uma atitude destemperada de Renato Russo. Se não é uma cinebiografia do músico,
o filme por certo se afirma nele e propõe o início de uma revisão que prosseguirá em breve com três outros títulos sobre o artista, Faroeste Caboclo, Somos Tão Jovens e Eduardo e Mônica.

De avó para avó

Lola
Brillante Mendoza
Estreia dia 22 de julho

Lola, em filipino, quer dizer avó. São essas figuras adoráveis na infância de qualquer um com sorte em tê-las que o diretor Brillante Mendoza escala para seu novo filme. Uma delas tem o neto ainda criança assassinado durante um roubo. Vai à polícia, mas não consegue nada. Conhece ali, no entanto, o assassino, cuja avó também está às voltas com o caso pelas razões inversas. Estabelece-se assim a estrutura dramática da história, embora Mendoza não se contente com esse viés. Ele vai para as ruas, numa Manila sufocante e miserável, captar seu drama social.

Além da tragédia familiar, as duas avós dividem a pobreza. É um belo trabalho, que se sustenta na dureza e na poesia, num equilíbrio de rara sensibilidade. Talvez seja essa a maior surpresa para os seguidores do cinema de Mendoza, conhecido pela crueza com que impõe suas tramas, especialmente em Kinatay. Enquanto esse tira muito de seu impacto algo apelativo de um crime monstruoso e seus algozes, em Lola o diretor transfere a rudeza para as beiradas do filme, seja no ambiente ruidoso e infernal que já é sua marca, seja na precariedade de vida dos personagens. Mais maduro, surpreende ao  extrair do contexto imagens primorosas, como o enterro do menino sobre barcos. Não porque o cenário seja idílico, mas porque enchentes comumente tomam conta das moradias sobre palafitas. Sua justificativa, em entrevistas, é tentar dar conta de um cotidiano de horror ao qual seus compatriotas são submetidos, lição que cumpre com louvor.