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Steampunk, saudade ou rebeldia?

por Antonio Luiz M. C. Costa publicado 11/08/2009 17h02, última modificação 09/09/2010 17h03
Uma subcultura curiosa toma corpo no Brasil, imitando e até sofisticando um modelo originário do Reino Unido e também com certa popularidade nos EUA: o steampunk.

Uma subcultura curiosa toma corpo no Brasil, imitando e até sofisticando um modelo originário do Reino Unido e também com certa popularidade nos EUA: o steampunk. Na versão verde-amarela, conta com uma estrutura que inclui um Conselho SteamPunk criado em 2008, com um bem-cuidado site na internet e Lojas regionais no Rio de Janeiro, São Paulo e Rio Grande do Sul.

Ocasionalmente, essas “lojas” – terminologia que imita conscientemente a linguagem maçônica, tão popular no século XIX – promovem eventos como o de 26 de julho, no qual um grupo de jovens reuniu-se, primeiro na Estação da Luz, depois no Memorial do Imigrante de São Paulo para passear, vestidos como damas e cavalheiros do século XIX, na velha Maria Fumaça que percorre algumas centenas de metros de trilhos junto ao Memorial.

Assim como os punks propriamente ditos, é sob certos aspectos o que se costuma chamar de tribo urbana, mas essa é quase a única relação entre os dois movimentos. E uma peculiaridade desta nova subcultura é que não se associa a um estilo de música pop, como punks, metaleiros, emos e clubbers, ou ao culto a uma obra específica do cinema ou tevê, como os trekkers (fãs da série Star Trek, ou Jornada nas Estrelas), mas a um subgênero da literatura de ficção científica e da história alternativa, também conhecido como Steampunk.

O termo foi cunhado em 1987 por um autor estadunidense de ficção científica, K. W. Jeter, para classificar certas histórias escritas por ele mesmo e pelos colegas Tim Powers e James Blaylock. Ambientadas na época da Revolução Industrial, geralmente na Inglaterra vitoriana, procuravam reproduzir o clima, o estilo e as convenções da literatura de aventura científica da época, como os romances de Mary Shelley (Frankestein), Júlio Verne (Vinte Mil Léguas Submarinas) e H. G. Wells (A Máquina do Tempo), pioneiros do que mais tarde veio a se chamar “ficção científica”.

Jeter fazia uma analogia irônica com o subgênero cyberpunk, então no auge da popularidade. Neste caso, o nome – surgido em 1983, do título de um conto de Bruce Bethke – foi mais adequado. Trata-se de uma combinação de especulação sobre o desenvolvimento de tecnologias na moda nos anos 80, principalmente a informática, com uma visão de mundo pessimista e distópica. Personagens marginalizados, que muitas vezes imitam ou caricaturam a aparência, gíria e maneirismos dos punks propriamente ditos, lutam para sobreviver em um mundo violento, corrupto e poluído, no qual grandes corporações transnacionais controlam a política e a maior parte da sociedade.

No caso do steampunk, a velha revolução tecnológica do vapor (steam) está no lugar da nova revolução cibernética. A visão de mundo pode bem ser distópica, pois a Revolução Industrial foi um período de injustiças, desigualdades, degradação da humanidade e da natureza e de poder desenfreado do dinheiro, tanto quanto o capitalismo neoliberal de Thatcher, Reagan e Bush. Mas a linguagem e comportamentos propriamente punks estão fora de lugar: pelo contrário, os contos steampunk tendem a imitar o estilo altissonante dos romances de aventura do século XIX e seus heróis a comportarem-se como as idealizadas damas e cavalheiros desses tempos, geralmente burgueses ou nobres, mesmo que inconformistas.

Mas o parentesco e a analogia com o cyberpunk foi reforçada por aquela que veio a ser vista como a primeira grande obra da ficção steampunk – o romance The Difference Engine, de 1990, escrito justamente pelos dois maiores astros da ficção cyberpunk: William Gibson (autor da trilogia iniciada comNeuromancer) e Bruce Sterling (autor do romance editado no Brasil como Piratas de Dados e editor da pioneira antologia cyberpunk Mirrorshades).

The Difference Engine (A Máquina Diferencial) também não tem nada de punk, mas consolidou o nome e o subgênero não só pelos autores que teve como também por fazer uma ponte entre as duas temáticas. Gibson e Sterling imaginaram uma história alternativa do século XIX.

O pivô da mudança é Charles Babbage, matemático e inventor que, na vida real, a partir dos anos 1820 tentou construir a verdadeira “máquina diferencial”, uma complexa calculadora mecânica, programável como um computador e dotada de impressora. Babbage nunca conseguiu os recursos de que precisava para transformar seus desenhos em realidade, mas em 1989, uma equipe do Museu de Ciência de Londres montou sua máquina e mostrou que ela funcionava perfeitamente. O que, naturalmente, sugere a pergunta: o que teria acontecido se Babbage tivesse concretizado seu sonho e os computadores começassem a mudar a tecnologia e a sociedade mais de um século antes de terem aparecido na história real?

No mundo imaginado por Gibson e Sterling, a aceleração da mudança tecnológica que resulta da combinação da máquina a vapor com a máquina diferencial teria resultado em uma revolução comandada por Lorde Byron e na instauração de um regime tecnocrático liderado por cientistas, industriais e sindicatos operários.

Essa revolução concretiza e inverte ironicamente Sybil, ou as Duas Nações, romance sobre conflito e conciliação de classes que foi escrito, na história real, por Benjamin Disraeli, mais tarde primeiro-ministro favorito da rainha Vitória e um de seus lordes. No mundo alternativo, Disraeli não passou de escritor popular, enquanto George Byron, na vida real um grande poeta do romantismo inglês, torna-se líder político e o chefe do governo britânico.

No romance de Disraeli, reformas políticas traziam a paz social, simbolizada pelo casamento da jovem operária Sybil, filha de um agitador trabalhista, com o aristocrata Charles Egremont. Na releitura mais realista de Gibson e Sterling, Sybil é seduzida e abandonada por Egremont e torna-se uma prostituta.

De qualquer forma, o Império Britânico torna-se muito mais poderoso e incentiva a guerra civil dos EUA e sua fragmentação, enquanto o uso das máquinas de Babbage se generaliza a ponto de que cavalheiros vitorianos fazem compras com cartões de crédito, artistas projetam animações pixeladas nas telas de teatros e os governos de Lord Byron e Napoleão III podem registrar e controlar seus cidadãos por meio de cartões perfurados processados por máquinas imensas.

O lado distópico vem à tona com o “Fedor”, um episódio de inversão térmica e insuportável poluição em Londres. A cidade é parcialmente evacuada e cai em um estado caótico, durante o qual grupos revolucionários tentam tomar o poder, emulando a Comuna socialista e feminista que o Karl Marx dessa realidade alternativa liderava em Manhattan. Mesmo assim, os protagonistas comportam-se com a dignidade e a arrogância esperada de heróis vitorianos, convictos da superioridade de sua classe, sua nação, sua raça e seu sexo.

A ousadia de Gibson e Sterling em antecipar para o século XIX os perigos e possibilidades da cibernética consolidou o apelido steampunk. Por analogia, especulações sobre desenvolvimentos alternativos da história e sociedade em outras etapas da tecnologia e da história têm recebido alcunhas semelhantes, embora igualmente nada tenham a ver com o movimento punk.

Fala-se em clockpunk para antecipações semelhantes na Renascença e da Idade Moderna, explorando, por exemplo, o que aconteceria se os desenhos mais visionários de Leonardo da Vinci se tornassem realidade. Em dieselpunk para elucubrações sobre as possibilidades do mundo da eletricidade e do petróleo do início do século XX, a partir de projetos não realizados do inventor Nikola Tesla e de ideias populares na ficção científica estadunidense dos anos 1920 e 1930. E até mesmo em bronzepunk, para invenções alternativas na Antiguidade, como os espelhos incendiários e máquinas capazes de arrastar navios atribuídas a Arquimedes de Siracusa.

Embora tanto Gibson quanto Sterling tenham vários romances traduzidos e editados no Brasil, a começar pelos da fase cyberpunk, infelizmente, esse não foi o caso de The Difference Engine, aparentemente insólito demais para o gosto das tímidas editoras brasileiras de ficção científica.

Mas essa obra influenciou e continuou a influenciar não só a literatura de ficção científica, como também os quadrinhos e o cinema. Nestas mídias, principalmente na segunda, há menos espaço para se aprofundar em sutis ironias sobre a cultura e da política do século XIX e refletir sobre os rumos da sociedade e da tecnologia. Por outro lado, explora-se ao máximo o apelo nostálgico do vestuário e da estética do século XIX, abusando-se de rebites, caldeiras, anquinhas e cartolas, bem como a aparência exótica de máquinas com cilindros de latão e engrenagens à mostra. Pôde-se ver isso em vários filmes de razoável sucesso: As Loucas Aventuras de James West (1999), A Liga Extraordinária (2003, baseado em série de quadrinhos de Alan Moore de 1999), as animações japonesas Steamboy e O Castelo Animado(ambas de 2004), a mais recente versão de A Volta ao Mundo em 80 dias (de 2004, com Jackie Chan), Van Helsing (2004), A Bússola Dourada (2007) e outros.

Aparentemente, são essas fantasias visualmente exóticas, mais que o interesse pela cultura vitoriana ou pela especulação sobre caminhos alternativos da história, que seduzem os entusiastas do Conselho e das lojas Steampunk, muitos dos quais aplicam retroativamente o rótulo a obras não só anteriores como estranhas à proposta, como o Metropolis de Fritz Lang (1927), o 1984 de Michael Radford (baseado no romance de George Orwell, escrito em 1948), o Brazil de Terry Gilliam (1985), ou mesmo as obras de Verne e Wells, que em seu tempo pretendiam especular sobre futuros possíveis e não sobre uma realidade alternativa.

O importante, mesmo que a intenção original tenha sido especular sobre o futuro, parece ser a sensação de anacronismo, de se estar olhando não para o passado (como na ficção histórica), não para um futuro possível (como na ficção científica convencional), nem para uma fantasia à maneira de Tolkien, mas para um futuro do pretérito, algo que talvez pudesse ter existido: um olhar de lado, meio lúdico, meio sério, para a história da sociedade e da tecnologia.

É sempre bom fugir um pouco do famoso slogan de Margaret Thatcher e Francis Fukuyama, o TINA, There Is No Alternative – “Não há alternativa (ao status quo neoliberal dos anos 80 e 90)” e considerar como as coisas poderiam ser diferentes. O curioso é que, neste caso, trata-se geralmente de uma alternativa, em muitos aspectos, bem semelhante à realidade atual, com o Império Britânico e os financistas da City no papel dos EUA e de Wall Street.

Pode reforçar a ideia de que as roupas e maneiras podem mudar, mas a essência da sociedade foi e sempre será a mesma. Como também pode funcionar como alegoria ou caricatura de problemas atuais e mostrar o que têm de histórico e contingente, como dependem de desenvolvimentos específicos e podem vir a ser superados. É um campo no qual concepções opostas podem se expressar em um ambiente fantástico e de sabor nostálgico, mas ainda assim com uma relação bem clara com a realidade social, política e ambiental do século XXI.

O pleno desenvolvimento dessas possibilidades no Brasil depende, porém, de que o Steampunk não seja apenas consumido como moda ou como decoração de animês e aventuras hollywoodianas. Para ser criativo, precisa ser produzido e discutido como um subgênero literário e associado ao ponto de vista brasileiro ou à história (real e imaginada) de nosso país. Por enquanto, conta-se apenas com a recém-lançada antologia de contos Steampunk, da Tarja (R$ 39, 184 páginas), que inclui uma colaboração do autor desta coluna. Uma segunda antologia, a ser intitulada Vaporpunk, está sendo organizada pelo escritor Gerson Lodi-Ribeiro e é esperada para breve. Teremos então uma boa ideia de como se imagina, em terras tropicais, essa história paralela.