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Late Bloomers – O Amor Não Tem Fim

Sorria, você envelheceu

por Matheus Pichonelli publicado 22/11/2011 11h20, última modificação 06/06/2015 18h56
Assento especial no metrô, flacidez da pele, indiferença de olhares, infantilização das relações: a história de um casal em meio à crise dos 60
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William Hurt e Isabella Rossellini em cena do filme em 'Late Bloomers – O Amor Não Tem Fim'

Até onde eu sei, ainda não envelheci. Mas, perto dos 30, já não chego na linha de fundo sem que seja necessário pedir ambulância ao fim do jogo; tampouco chego inteiro ao dia seguinte depois de uns copos a mais na véspera, como era comum até bem pouco tempo atrás – quando não precisava de tantas horas de sono para acordar minimamente disposto.

Vejo também os primeiros fios de cabelo branco brotando na cabeça de alguns amigos, sobretudo dos que ainda têm cabelos. E as barrigas que crescem em proporção geométrica (à boca pequena, alguns amigos comenta: “Você viu o fulano? Tá do tamanho de uma vaca”).

 

Só que os principais sinais de que não tenho mais 20 anos me surgem por outras vias: eles pipocam nas ruas, nos programas de tevê e no mailing de empresas de venda coletiva, que me veem como público-alvo para viagens, jantares, eletroeletrônicos e outros produtos e programas que me pedem para aproveitar a vida antes que cheguem os 40, os 50, os 60 e por aí vai. Quando sou contatado, ou atendido, já sou “senhor”. É como se uma linha divisória imaginária criada pelo mercado tivesse me alterado o status: já não estamos naquele purgatório entre o mundo adulto e infantil conhecido como “adolescência”, categoria que, uma vez constituída, passa a exigir que se criem também as “coisas de adolescente”, com seus bonés, regatas, camisas e calças jeans rasgadas, tênis com amortecedores, cadernos descolados e trilhas sonoras específicas (para cada New Kids On The Block que morre nasce um novo Justin Bieber).

 

 

Da crise dos 30, vejo amigos que não casaram querendo casar; os que casaram, falando de viagens, motores e terrenos para não assumir o próprio tédio; os que trabalham falam sobre as férias ou promoções, e os que não trabalham, sobre as mazelas do mercado. As mudanças estão todas no mundo a ser alcançado, embora o corpo, livre das espinhas, já dê sinais de que não é o mesmo. Aos quase 30, ainda parecemos distantes da fase crítica descrita por Caetano Veloso que, com quase 70, disse certa vez sentir falta “da juventude em si, do equilíbrio e da elasticidade do corpo, da força dos cabelos, o jato de urina forte, as ereções firmes, a alegria física da juventude”...

Não posso falar do Caetano, de quem só conheço pela música, mas posso falar do caso de Adam e Mary - personagens de William Hurt e Isabella Rossellini que me foram apresentados recentemente em “Late Bloomers – O Amor Não Tem Fim”. O filme, de Julie Gravas, retrata o envelhecimento por uma perspectiva cômica, embora não menos séria do que outros que optaram por dramatizar o drama, como Sarah Polley em “Longe Dela” e Denys Arcand em “As Invasões Bárbaras”. Dois dramas pesados, embora brilhantes, que parecem comprovar em cada cena o que Philip Roth escreveu em “O Animal Agonizante”: “Ser velho significa que, apesar e além de ter sido, você continua sendo. E a consciência de continuar sendo é tão avassaladora quanto a consciência de ter sido”.

Para chegar ao mesmo lugar, Julie Gravas optou por outro caminho. A crise dos 60, para Adam e Mary, chega de forma abrupta, mas também por sinais externos. Logo nos primeiros minutos do filme, Mary percebe que sua vida chegou a outro extremo ao ver o marido, um arquiteto bem-sucedido, receber um prêmio por uma obra construída trinta anos atrás. É o suficiente para que a mulher perceba que tudo o que aconteceu de glorioso entre eles está guardado no passado. É justamente a mãe, idosa “assumida” interpretada por Doreen Mantle, que a acode, ainda no saguão que a separa do anfiteatro onde Adam discursa.

“Mãe, eu tenho a impressão de que poderia resumir minha vida toda em cinco linhas”, queixa-se a personagem de Rossellini. A mãe, no alto da idade, responde com sarcasmo, pedindo para a filha se conformar com o fato de que, com os anos, tudo piora. E termina dizendo que pretende se encher de roupas pretas porque, para a mãe, a fase era outra: chegava para ela a temporada de funerais, provavelmente um por mês.

É só a primeira senha do fatalismo da mãe diante do destino; ao longo do filme, outras pérolas serão deixadas por ela em vez de se desesperar com o próprio fim. (Outra delas é quando ela revela seu prazer sádico em assustar os bisnetos, a quem finge censurar, e justifica a postura dizendo que já cuidou das duas gerações anteriores e que, agora, pretende descansar. Ao ver as crianças brincando perto dela, a velha ainda sentencia: “Não sei o que me causa mais nojo: futuros executivos ou futuras peruas”.)

O mesmo desapego não se vê em Adam e Mary. Ele passa a driblar a própria idade se integrando ao grupo dos jovens arquitetos de sua empresa, vestindo-se como eles, tomando energéticos como eles e tentando criar, aos 60 anos, obras novas junto deles para sentir que ainda é vivo. Ela, por sua vez, passa a se preparar para o pior: enche a casa de objetos adaptados (como um telefone de números grandes) ou apoio para deficientes pelo banheiro todo.

O desencontro provoca uma das maiores crises da vida do casal, que aos 60 anos começa a flertar com o divórcio. É como se a postura de um desmentisse as projeções do outro – nada diferente da época em que ela pensava em ter filhos e ele dizia que era cedo demais; ou quando ela pedia atenção para os filhos, e ele precisava trabalhar; de quando ela sugeria mudanças, e ele dizia que era sempre tarde, ou cedo, demais.

Aos 60, é como se dois modelos apresentados pelo mundo exterior duelassem: ou você espanta a idade, e tenta despertar a criança que dorme em você (existem produtos para isso também), ou você se prepara para morrer sem dor, e corre para se inscrever em aulas de hidroginástica, deixa os cabelos mais curtos e começa a pensar em atividades leves para se sentir vivo após a aposentadoria.

Em cada um dos casos, é o próprio mundo externo que te diz quando é que você envelheceu. Mary, ao se ver no espelho, se irrita com a flacidez no pescoço, que se enruga. Mas é quando cruza o caminho dos homens que percebe que já não é notada, apesar do decote. Para ela, nada é mais cruel do que ver algum jovem se levantar para dar lugar a ela no assento do metrô, ou quando percebe que os mais novos falam com ela de forma pausada, recorrendo a diminutivos, como se ela fosse um bebê incapaz.

Aos homens, cabe fingir que ainda guardam a virilidade de outros tempos, o que explica as jaquetas, os cavanhaques, os tênis, os conversíveis e as conversas entre eles sobre as estagiárias do escritório e outras fantasias. Até que alguém, em tom confessional, conta que leva mais de uma hora para se despir ao chegar em casa – além das roupas, tem agora o cuidado com as próteses e os aparelhos de audição.

Envelhecer exige maestria, parece dizer a diretora ao longo do filme, não sem uma pitada de humor. Mas envelhecer a dois é um processo ainda mais complexo – basta multiplicar por dois os estranhamentos, os conflitos e pressões vivenciados por quem "além de ter sido, continua sendo".

No fim, nada muito diferente do que estamos acostumados desde que alguém rompeu o velho cordão umbilical e nos expulsou para fora do ventre, numa viagem só de ida em direção às dores e delícias de ser o que se é, como bem cantou Caetano no tempo da "alegria física" da sua juventude.

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