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Crônica

Somos todos inúteis

por Menalton Braff publicado 27/11/2015 03h34
A sociedade é que nos prepara para a vida. O homem é um ser social e não adianta espernear
robinson-crusoe

´A história do Robinson Crusoé é boa, mas impossível, porque o homem é um ser social´

A sociedade é que nos prepara para a vida. Claro que temos nossas particularidades, nossas idiossincrasias, mas nossa visão de mundo e o grosso de nosso comportamento são-nos transmitidos pela família, o grupo, a escola, a igreja, enfim, pela sociedade.

A história do Robinson Crusoé é uma boa história, mas ficção. Ela seria impossível porque o homem é um ser social e não adianta espernear.

Paul Sweezi, filósofo da Universidade de Harvard, tem um belo estudo sobre o modo como a troca de equivalentes, princípio fundamental do Capitalismo, afeta todo o comportamento humano.

Se você vai á casa de um amigo, na despedida, invariavelmente, afirma, agora você me deve uma visita. Pronto. Está propondo uma troca. Mesmo o convívio com os amigos deixou de ser gratuito. A troca de equivalentes foi a maior invenção da burguesia na Idade Média.

E se o mercado é o demiurgo que nos rege a vida, que nos salva da miséria, então devemos pensar que é por sua óptica, do mercado, que acontecem coisas difíceis de se aceitar. No pensamento do mercado (se ele fica nervoso, como leio nos jornais, é porque também pensa) o ideal seria uma pessoa nascer aí por volta dos dezoito anos, o que evitaria uma imensa inversão de recursos em sua preparação. Já nasceria em idade útil.

Além disso, não deveria continuar vivo depois dos cinquenta e cinco anos, pois seu rendimento como produtor já estaria em declínio. Ele já não é, com essa idade, muito interessante do ponto de vista econômico. Pouco produz e menos consome (com exceção de remédios, é claro).

Que importância ele pode ter para a economia de um país? Já não participa mais ou participa muito pouco do progresso. Econômico, claro. Progresso social é outro assunto, não é mesmo?

Há famílias, e muito mais do que se imagina, que internam seus idosos em hospitais e asilos, visitam-nos uma vez por semana nos dois primeiros meses. Levam fatias do bolo que restou da festa, duas maçãs compradas no caminho ali do quitandeiro (uma boa lembrança de alguém da família), e, depois de um ano, não se lembram mais da existência deles.

Uma fotografia na parede da sala, como homenagem póstuma, ao idoso que a família não sabe que continua vivo. Mas também, para que perder tempo com essas inutilidades que já passaram dos sessenta? Que não produzem nada, que, além de remédios, consomem uma ninharia, que já não dão lucro a ninguém!

Enfim, vivemos para o futuro, não para o passado. E la nave vá.