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Crônica do Villas

Sombra e água fresca

por Alberto Villas publicado 04/06/2015 14h02
Na minha família, uma coisa é sagrada: Ninguém abre mão das férias
Alberto Villas
Férias

Férias: chegou a hora

O meu pai era Caxias. Para quem não sabe o que é ser Caxias, eu explico. É o mesmo que ser CDF. Aquele cara que dá o sangue para a empresa onde trabalha. Chega sempre antes da hora, sai depois do horário e não se importa em fazer hora extra, mesmo sem receber um tostão. Nunca falta ao trabalho, nem mesmo quando está com conjuntivite, o braço quebrado ou com 40 graus de febre. 

Luís Alves de Lima e Silva, o Duque de Caxias (1803-1880), apelidado de “O Pacificador” e “O Duque de Ferro”, foi um militar, político e monarquista brasileiro, que ficou conhecido por ser muito Caxias. 

O meu pai era assim. Levava trabalho pra casa, fazia relatórios até altas horas, perdia o sono com um barômetro estragado na estação de Conceição do Mato Dentro, corrigia aqueles mapas meteorológicos um a um, de todo o estado de Minas Gerais. 

Mas, no quesito férias, ele não era nada Caxias.

Conheço gente que se orgulha em dizer que não tira férias há anos ou que vende suas férias para ganhar um dinheirinho a mais e não perder um dia sequer na repartição porque, sem ele, a coisa não anda.

O meu pai tirava férias todos os anos, religiosamente, desde os tempos de Getúlio Vargas.

Era mesmo sagrado. Quando ia chegando julho, ele ligava para um amigo que morava em Niterói e pedia a ele para alugar um apartamento na Avenida Prado Junior, em Copacabana, onde ficávamos todos os anos.

Depois que os filhos cresceram, o meu pai deixou de ir ao Rio de Janeiro em julho, mas viajava sem parar por esse Brasil afora, sempre acompanhado da minha mãe.

Prova disso, eu tenho em casa os diários que ele escrevia durante suas viagens e que só viemos a saber deles depois que morreu, quando desfizemos o seu escritório. Era um mestre do detalhe. 

Ao anoitecer, em companhia de Nathan, demos um longo passeio pela cidade, quando começamos a conhecer parte das belezas de Fortaleza. Suas praias, casas residenciais excelentes, ruas bem pavimentadas e muito limpas, grandes reservas de áreas verdes e um respeito muito grande pela preservação da flora e da fauna. 

Era assim que ele ia registrando seus dias de férias, longe do Serviço de Meteorologia, das nuvens de chumbo, do tempo instável sujeito a trovoadas. 

Nas suas férias, o meu pai não se esquecia de ninguém. Quando não levava os presentes pra casa, despachava de avião. 

Bem mais cedo que nos demais dias, eu e Ângela nos preparamos e fomos ao aeroporto Pinto Martins levar uma caixa de isopor contendo lagostas congeladas para o Helkias Lino de Souza, esposo de Ângela Maria e que se encontra em Brasília.

Mas às vezes ele ia longe demais. 

Hoje, bem cedinho, finalmente pegamos um pequeno barco, conduzido pelo Douglas Eustáquio, e fomos conhecer o encontro das águas do Rio Negro com o Solimões. Um espetáculo da natureza que Deus criou. 

Hoje, tenho em casa um baú de fotografias, a maioria em preto e branco, das nossas férias e das férias dele. 

O meu pai registrava a nossa emoção mineira de entrar no mar, os passeios no Corcovado, no Jardim Botânico, nossos passeios de charrete na Ilha de Paquetá, nossas aventuras em Petrópolis e em Niterói, onde morava o amigo dele que alugava o tal apartamento em Copacabana. 

Numa época em que não havia celular, não havia e-mail, Skype, WhatsApp, nada disso, ele se desligava completamente do trabalho durante as férias. 

Quero sombra e água fresca! Dizia ele, todos os trinta dias de suas férias. 

Na minha casa, todos puxaram o meu pai. Os cinco são meio Caxias, mas quando chegam as férias, queremos mais é sombra e água fresca. 

É o que eu quero, a partir de amanhã. Saio de férias, mas volto no início de julho com as minhas crônicas aqui na CartaCapital. Sou Caxias mas não sou de ferro.

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