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Soltem os cintos

por Rosane Pavam publicado 08/05/2008 16h23, última modificação 16/09/2010 16h24
Somos tropicais, somos divertidos e fazemos troças, como características que nos distinguem. E ainda bem que somos assim, porque não suportaríamos sofrer com seriedade. O humor talvez seja aquilo que nos faça sobreviver nos porões.

Somos tropicais, somos divertidos e fazemos troças, como características que nos distinguem. E ainda bem que somos assim, porque não suportaríamos sofrer com seriedade. O humor talvez seja aquilo que nos faça sobreviver nos porões.

Quando começou a escrever romances, o Nobel de Literatura V. S. Naipaul, de uma família indiana de Trinidad Tobago, era muito engraçado. Só deixou de ser assim quando percebeu que, para ele, fazer rir era uma armadilha fácil, que anulava as importantes razões pelas quais, oprimidos, todos sofremos. As piadas são carinhosas para com os poderosos, elas o humanizam, ele argumenta. Naipaul sugeriu-me isto numa entrevista há quinze anos, concedida em São Paulo: é como se o riso nos atrelasse ao atraso. Agora, ele escreve em um gênero reportariado sobre as escaramuças e ambiguidades do Oriente, sempre de forma séria, em um belo tom monocórdio, ele que a rainha da Inglaterra acolheu como “sir”.

Não comentarei o caso de “Monty Python”, e talvez o faça em uma coluna próxima. Aquilo é aula humorística, ensaio e filosofia do deboche acerca de arrogantes dominadores. “Python” parece ser uma das coisas mais profundas e interessantes do humor de todos os tempos. Mas talvez nunca consigamos revivê-lo, por razões históricas e também peculiares a uma nacionalidade. Quem é mais velho sabe que, no começo, havia em “Casseta & Planeta” alguma intenção de se aproximar desses pensadores do humor. Isto acabou por completo com os anos. “Casseta” virou o reino da paródia, um programa de todo voltado à morte dos tipos televisivos, e interessante apenas para quem conviveu com eles. “Python”, pelo contrário, é humor da vida.

O filósofo Henri Bergson disse no ensaio “O Riso” (Martins Fontes) que é isto mesmo: rimos para purgar e esquecer. E rimos dos tipos mecânicos, que se sobrepõem aos vivos. Isto precisa de alguma explicação. Um avaro, um ciumento ou um corno não são tipos classificados desta maneira durante todas as horas de um dia. Mas, em uma piada ou uma peça cômica, eles precisam ser assim, típicos. De tanto realçar, ou repetir, suas características ridículas, a comédia torna estes tipos recompensadores, porque diferentes de nós. Rimos, então, daquilo que se repete, daquilo que, para Bergson, é mecânico, irreal, em sobreposição ao que é vivo, variado e nem sempre o mesmo.

Como se tratam de três facetas noturnas desta manifestação risível, talvez os programas brasileiros “CQC”, “Pânico” e “Show do Tom” mereçam uma olhadela conjunta. São diversos em alguma medida, tão diferentes quanto reveladores de nosso estado cômico. Mas são, especialmente, fiéis à idéia de Bergson. Há um humor que não é assim, algo que Luigi Pirandello, no ensaio “O Humorismo” (Perspectiva), chamou de “reflexão em água gelada”. Sem purgar a opressão, diante do humorismo nós nos sentiríamos igualados ao ridículo, não sobrepostos a ele. Quando fazemos ou recebemos humorismo, esta categoria que Pirandello destaca, pensamos sobre as coisas e não necessariamente nos sentimos confortáveis diante delas. No Brasil, os filmes de Ugo Giorgetti trazem esta marca.

Veja o “CQC”, que é a novidade da tevê. Não se trata tanto de um programa de humor quanto uma manifestação educativa dele. Nada poderia ser mais corretivo que o sorriso de Marcelo Tas, o outrora Ernesto Varela, decodificando piadas contadas à vontade por seus repórteres. Ele faz humor fino (sem um valor pejorativo no termo). É comedido e correto. Aqueles humoristas estão lado a lado com o poder, em condição de cobrar atitudes dele.

Os CQCs perseguem o burocrata da Educação, cordato com a reportagem e aparentemente desavisado sobre o fato de muitos estudantes do ensino básico municipal, sem direito a perua escolar, terem de andar a pé quilômetros por dia com destino à aula. Vamos fazer a autoridade andar bastante sob o sol, para ver como é bom? Não há cidadão que deixe de se emocionar com a iniciativa, sinceramente aplaudi-la. Agora, quero ver que desculpas esse sujeito que consome nosso dinheiro vai dar para abandonar as crianças! Fico emocionada, seriamente, com a ousadia.

E o caso dos donos de cachorro que deixam seus bichinhos se esvaziarem à vontade em pleno Parque Ibirapuera? Nós vivemos por lá, somos uma comunidade de fim de semana, e talvez diária, naquele espaço público paulistano. Por que mereceríamos a ação insensível de semelhantes porcalhões? Os CQCs vão até o local, filmam os sugismundos e, depois, catam os cocozinhos dos bichos. Colocam as fezes comprobatórias numa caixa de presente e as oferecem gentilmente aos proprietários dos cães. Antes que soubessem do que trataria a abordagem, os imundos fizeram a récita dos bons costumes para a reportagem: sim, sempre se consideraram civilizados por catar aquilo de seus bichos pelas ruas. Mas, então, recebido o “presente”, vêem a fita que lhes mostra de que forma arrasaram o espaço de lazer, sob olhar indiferente...

Rir, rir. Talvez eu não consiga me divertir com estas idéias dos caras de pau, mas é fantástico que elas ajam sobre nossas vergonhas com tanta limpeza. Como existimos sem “CQC” por tanto tempo? Já imagino como será penoso exercer a cidadania no futuro, sem eles.

“Pânico” é outra história. É de dar medo, de fato, o serviço de utilidade ao público proposto por lá. Igualmente caras de pau, seus humoristas têm intenção parecida de cobrança do poder, neste caso, do poder midiático. Não deixa de ser ótimo, também. Eles se vêem em condição de fazer esta cobrança, porque, durante toda a vida, estiveram diante de uma televisão e almejaram por ela. Usam o programa, até, para que se encontrem próximos aos ícones. Eles ensinam ao ídolo como se comportar ao lhe ressaltar as características visíveis, ora o mau humor, ora as baixezas, ora a vaidade desmedida, as contradições entre ser uma coisa na tevê e outra fora dela, torcendo para que se corrija. Se os humoristas amam Silvio Santos, precisam aperfeiçoar sua imagem, por que não?

Em conversa séria a uma jornalista como Marília Gabriela, de cara limpa, contudo, os atores Vesgo e Ceará revelam-se tediosos monumentais. Falam como se precisassem se justificar, como se fossem indispensavelmente célebres de sentimentos e alguém pudesse acreditar em suas boas intenções. Quem deseja vê-los assim? Por que não viram meninos de novela de uma vez? Sabrina Sato parece diferente, de uma inteligência que não se enquadra. Mulher vilipendiada, que tem de pagar pela beleza com algum castigo, como em eterno exercício de fantasia sexual, ela debocha de todos os seus companheiros quando diz saber a “verdade” do que lhes propõem. Talvez ela seja o melhor que o “Pânico” tenha a oferecer, promovendo um serviço de vigilância interno. Ela vira o programa pelo avesso para rejuvenescê-lo criticamente.

Mas há muitas idéias nem sempre cercadas de um padrão de talento e texto neste “Pânico”. Note que eles sempre voltam à utilidade pública de alguma forma. Lembro-me de uma ocasião em que o Repórter Vesgo cobrou das assessorias de celebridades fajutas notas lançadas à imprensa em que supostamente “a irmã de Carla Perez” anunciava a gravidez. Riram da importância que isto pudesse ter para alguém. Cobrar Petra Gil por ser gorda é um serviço de utilidade, sob um aspecto cruel: já que nós a percebemos e distinguimos, ela precisa emagrecer se quiser circular entre nós. Se não fizer isto, nós a tornaremos risível: ela será o mecânico (repetida e ousadamente gorda) sobre o vivo (magro de biquíni) que desejamos ter como companhia.

Meninos da elite intelectual? Parece engraçado, mas não duvide, é tudo verdade. Meninos da elite, sim.

Vistos aos pedaços “CQC” e “Pânico”, sinto falta do “Show do Tom”. Está certo, você me odiará por isto. Assumidamente ligado ao baixo cômico, às idéias populares, ele é um programa que vive da vitalidade de dezenas de atores desconhecidos (e que jamais conheceremos, de fato, algum dia), contando piadas velhas. Não me lembro de ter visto cocô exposto no programa (fezes ilustram nossa alegria infantil), como já houve em “Pânico” e no “CQC”. Mas no concurso de piadas promovido por Tom, ficamos entre a drag queen que investe contra os homossexuais e aquele sujeito que imita o Pato Donald, mais afetivo por reproduzir a voz atávica do que por narrar confusamente tiradas ingênuas dos anos 50. Não são pessoas célebres, nem talvez se tornem, os atores deste programa jogado para baixo do tapete. Os polimentos, para ele, são mais que impensáveis. São desnecessários. Falemos de bichas com a mesma insistência com a qual reverenciaremos os bêbados e os machistas. O humor não pode ter correção.

Tom nos torna à clareza das ruas. É emocionante que dedique horas de improviso a seus personagens, mas, principalmente, aos dos outros, vindos de tantas partes do país e colocados sobre palco iluminado. Estes outros, possivelmente, nunca serão mais nada num cenário global. Nenhum programa brasileiro de humor prescinde da edição nervosa, de gatilho, a não ser o “Show do Tom”. Eu me sinto, nele, em praça da alegria verdadeira, hoje decaída, mas, ainda assim, ocasionalmente, assistível. Golias começou como interventor anárquico, chamando ao combate em pleno ar. Espero que Tom faça seu show por longo tempo.

E uma nota: não deixe de assistir à baixa comédia “Super-Herói”, dos irmãos Zucker. Lá há um pum demorado, talvez o mais longo da história, proferido pela paródica tia de Peter Parker. O baixo humor dos irmãos faz o papa tirar fotos da genitália de um sujeito com um celular. Quem assiste aos irmãos Zucker há algum tempo, desde “Apertem os Cintos, o Piloto Sumiu”, vai entender que eles não perdem uma piada sequer contra as religiões, até aquela que lhes deve ser própria. No filme de 1980, uma passageira pede à aeromoça que lhe entregue uma leitura leve. E a comissária dá à mulher uma folha fina e pequena contendo os feitos do ano dos esportistas judeus.