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Sobrou para o churrasqueiro

por Matheus Pichonelli publicado 22/02/2013 16h55, última modificação 06/06/2015 18h25
O bate-boca entre o chefão da Globo Filmes e Mendonça Filho, de O Som ao Redor, escancara noções (bem) distintas sobre cinema

O Som ao Redor é o filme mais aclamado do cinema brasileiro desde Cidade de Deus. Havia anos que um filme não era tão dissecado nem provocava tantos debates – Tropa de Elite talvez, mas sem a mesma unanimidade. Não é por acaso: estão ali muitos dos principais elementos que fazem de um filme uma grande obra.

Em pouquíssimo tempo, a paranoia da classe média representada por Kleber Mendonça Filho a partir de sua rua em Recife será tema de seminários, estudos, teses, artigos; estudantes terão contato com a obra como referência da produção nacional, um marco que detonou a  dicotomia entre um cinema culpado, de tintas carregadas pela chamada “cosmética da fome”, e um cinema supostamente irresponsável, que diverte, fatura e é logo esquecido.

Com o tempo, essa dicotomia pode até ser relativizada – e o filme talvez seja colocado num terreno já arado com os trabalhos recentes de Marcelo Gomes (Era uma Vez Eu, Verônica), Walter Salles (Linha de Passe), Karïm Ainouz (O Céu de Suely) e Chico Teixeira (A Casa de Alice). Mas seu lugar na fileira de grandes obras nacionais parece garantido.

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A distância entre o Som Ao Redor e os valores de uso e troca de um filme convencional é um fato. Um fato tão notório que dispensa gritaria. Compará-lo com De Pernas pro Ar ou E Aí, Comeu? seria como comparar uma cabra com um espinafre – há quem tente, mas não fará muito sentido. Por isso pareceu gratuita a declaração de Mendonça Filho sobre a capacidade da Globo Filmes de produzir sucessos; para ele, se um vizinho lançasse o vídeo de um churrasco no esquema da Globo Filmes, ele faria 200 mil espectadores no primeiro final de semana.

É possível.

Tão possível que não precisava dizer. Como disse, talvez sem imaginar a dimensão que a frase tomaria, ouviu de volta uma provocação – uma provocação, diga-se, digna de quem vê, de fato, equivalência entre cabras e espinafres. Disse Cadu Rodrigues, diretor-executivo da Globo Filmes, em alto e bom som: “Desafio o cineasta Kleber Mendonça Filho a produzir e dirigir um filme e fazer 200 mil espectadores com todo o apoio da Globo Filmes! Se fizer, nada do nosso trabalho será cobrado do filme dele. Se não fizer os 200 mil, assume publicamente que, como diretor, ele talvez seja um bom crítico”.

Pegou mal para todo mundo. Para Mendonça Filho, por ter entrado numa briga desnecessária quando o jogo estava ganho. Pior: sua fala legitima o discurso de quem vê na qualidade de um filme uma variável inversamente proporcional à sua capilaridade; reforça, em contrapartida, a má vontade de quem rejeita a fórmula do cinema autoral por associá-lo a um terreno da afetação (Em tempo: O Som ao Redor é tão bom quanto acessível).

Mas pegou mal sobretudo para Cadu Rodrigues, o executivo da Globo Filmes para quem cinema bom é cinema que enche sala (nem sempre é). Com sua fala, ele corre o risco de ficar lembrado, nos mesmos circuitos de consagração que hoje o ignora, não como o sujeito que bancou sucessos de público e renda, mas por sua impressão de que um bom crítico e um bom cineasta, no caso a mesma pessoa, são seres excludentes.

Antes que a bola caísse, Mendonça emendou o rebote na página de seu filme no Facebook: “Preciso lhe agradecer pelo desafio, mas sua proposta associa a não obtenção de uma meta comercial (200 mil espectadores) como prova irrefutável de que eu não seria um cineasta (...) O sistema Globo Filmes faz mal à ideia de cultura no Brasil, atrofia o conceito de diversidade no cinema brasileiro e adestra um público cada vez mais dopado para reagir a um cinema institucional e morto. (...) Que a Globo Filmes, com todo o seu alcance e poder de comunicação, com a competência dos que a fazem, invista em pelo menos três projetos por ano que tenham a pretensão de ir além, projetos que não sumam do radar da cultura depois de três ou quatro meses cumprindo a meta de atrair alguns milhões de espectadores que não sabem nem exatamente o porquê de terem ido ver aquilo”.

Difícil discordar de quem hoje está no centro do radar cultural, mas a notícia é uma não-notícia: a Globo Filmes e Mendonça Filho não vão filmar o churrasco do vizinho; a primeira seguirá lotando salas com filmes de entretenimento esquecidos depois de quatro meses; O Som ao Redor seguirá nos cânones, será falado no exterior e nos cadernos culturais, mas terá fisgado nem meia fração da multidão que deixou a sessão de De Pernas pro Ar frouxo de rir  sem nem desconfiar que o engenho e a especulação imobiliária são frutos do mesmo latifúndio – e que isto é uma questão nacional. O desprezo pelo algo a mais, na vida como na arte, não é causada pelo sucesso da Globo Filmes, e sim o contrário. Mas, como em qualquer produção artística, em cinema uns querem ser lembrados, outros querem faturar. Não é por outro motivo que uns vendem pizza e outros, cinema.

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