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Cultura

Entrevista - Petar Valchanov

O sentido da amargura em 'A Lição'

por Rosane Pavam publicado 06/06/2015 08h57, última modificação 06/06/2015 09h20
No filme que estreia em circuito comercial, a trajetória incomum de uma professora presa à sociedade do absurdo

A Lição, estreia no circuito comercial, é um filme incomum, contado a partir de uma perspectiva realista à maneira kafkiana. Não sabemos se os diretores estreantes em longa-metragem Kristina Grozeva e Petar Valchanov, vencedores do Festival de San Sebastian por esta peça que inicia uma trilogia, levam a sério seu personagem ou abertamente escarnecem dele. A professora de inglês interpretada por Margita Gosheva tem a exigida contenção, e mais do que a postura, a obsessão pelo que é justo e correto. E por entender a vida sob tal rigorosa perspectiva, ela se vê presa a um emaranhado de situações, culminadas no caminho que diz combater. O efeito cômico, se funcionar para um brasileiro neste filme, revelará a intrigante Bulgária presente na imaginação dos diretores, que apontam no país a existência de um absurdo cotidiano de impunidades e amarguras. A seguir, a entrevista que Petar Valchanov concedeu a CartaCapital sobre seu filme minimalista, a preparação para a ficção seguinte e seu sentido de humor.    

Carta Capital: Vocês dizem ter construído o filme a partir de situações reais que beiravam o absurdo, tiradas do jornal. O insano se encaixa na realidade búlgara atual?

Petar Valchanov: A Bulgária é plena de histórias verdadeiras contemporâneas em que o absurdo assume o papel principal. As coisas se tornam a cada dia mais assustadoras. 

CC: Abordar esta história por meio da sátira e da ironia era sua intenção desde o início?

PV: Sempre enfrentamos as histórias dramáticas com humor amargo. Mesclar comédia e drama torna a narrativa mais realista, porque tanto o riso quanto a aflição caminham juntas na vida. Por exemplo, recentemente ouvimos uma história sobre um funeral búlgaro. Depois do enterro, a família e os amigos se reuniram no jardim de sua casa para homenagear o morto. Em sua maioria, eram pessoas de idade. Repentinamente, um enorme cachorro adentrou o jardim e todos os velhos ficaram tão assustados que se esconderam dentro da casa. O cachorro comeu toda a comida posta na mesa lá fora enquanto os convidados permaneciam escondidos na casa, assistindo à cena, somente encorajados a sair depois que o bicho deixasse a cena.

CC: Os diretores neo-realistas contaram as histórias do pós-guerra com a maior veracidade possível naquele momento. Filmaram em cenários reais, na rua, por meio de diálogos diretos. Em alguma medida vocês se inspiraram nessa corrente cinematográfica para contar sua história?

PV: Quisemos narrá-la de um modo muito cru e realista, a partir de uma abordagem documental. Giramos o filme quase sem dinheiro, então seu estilo corresponde a nossa escassez de meios.

CC: Vocês usam atores não-profissionais como protagonistas de suas histórias? E quando usam profissionais eles partem mais do cinema ou do teatro búlgaros?

PV: Cerca de setenta por cento dos atores de A Lição são não-profissionais muito empenhados em colaborar com os intérpretes profissionais. Enquanto se assiste ao filme, fica muito difícil distinguir quem tem experiência ou não nesse ofício. Depois de uma das sessões prévias que organizamos para o público, os espectadores disseram não crer que nossa protagonista, a intérprete da professora, fosse uma atriz de verdade. E quanto à segunda parte de sua questão, temos a informar quão triste é a situação dos atores na Bulgária. Eles são terrivelmente mal pagos e a maioria nem mesmo tem a chance de escolher entre cinema e teatro. Fazem ambos para sobreviver.

CC: Que influências vocês acreditam ser as mais importantes para seu cinema? Que diretores e filmes constituem suas principais referências?

PV: Para nós, uma das principais influências é Geordiy Daneliya [cineasta cômico da nouvelle vague soviética que, autor do clássico Kin-Dza-Dza, em 1986, foi perseguido pela KGB por realizar antipropaganda ao governo], um mestre em mesclar o cômico e o triste.

CC: Seu filme não parece inspirado em lições hollywoodianas. Talvez seja até mesmo antihollywoodiano por excelência, em contraponto, por exemplo, a ficções como a concorrente ao Oscar Dois dias, uma noite. Este filme tem um mote semelhante ao seu, ao abordar a trajetória incansável de uma trabalhadora sem recursos rumo a resolver sua grave situação financeira. Vocês acham que seu filme se aproxima daquele dos irmãos Dardenne?

PV: Não nos apoiamos em diretores ou filmes ao girar esta história em particular. Nós a fizemos do modo que imaginamos ideal ser filmada, realista, minimalista, com muita atenção à interpretação dos atores. Depois que o filme ficou pronto  nos compararam aos Dardenne, à nouvelle vague romena, ao neo-realismo. O essencial é que filmes assim capturem com certa estética o pulso do tempo vivido, real.

CC: Houve algum propósito especial em usar uma mulher como protagonista desta espécie de drama kafkiano? Devemos chamá-lo de drama?

PV: A heroína do filme é uma professora de ensino médio. Isto, para nós, a torna ainda mais absurda. Não há meio de contar essa história sem um personagem forte. Talvez fosse mais bem-humorado entendê-la não como uma professora de inglês, mas de matemática ou educação física. Mas nessa condição ela roubaria um banco? A Lição não é puro drama. Nós o entendemos como um thriller com elementos de comédia. Não imagino que jamais quiséssemos ter feito um filme de gênero puro. 

CC: Os próximos filmes de sua trilogia seguirão a mesma estrutura narrative? Haverá crianças ou homens adultos como protagonistas desta vez?

PV: Nosso novo roteiro estabelece uma história a ser contada a partir de dois pontos de vista diferentes, algo desafiante para nós. Um vigia de estrada de ferro encontra milhões nos trilhos e os retorna à autoridade, enquanto um relações-públicas o premia com um novo serviço de vigilância que se revela uma fraude…

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