Você está aqui: Página Inicial / Cultura / Sobre anjos e facínoras

Cultura

Filme Francês

Sobre anjos e facínoras

por Orlando Margarido — publicado 19/07/2010 17h20, última modificação 28/07/2010 10h21
O Profeta usa molde americano para abordar cisões na identidade francesa

O Profeta usa molde americano para abordar cisões na identidade francesa

O profeta é um filme de alma francesa metido num corpo americano. Por esse último, considere o cenário da prisão sempre explorado por Hollywood, com suas regras de hierarquia e comportamento, gangues rivais, violência e a escalada e decadência de seus líderes. A este universo soma-se o do gângster, outro filão colado à cinematografia americana, por vezes vestida de máfia. A história contada pelo diretor Jacques Audiard caminha nesse território, mas com uma peculiaridade que faz a diferença em relação aos similares hollywoodianos.

Nos corredores dessa penitenciária pulsam, primeiro, conflitos de identidade nacionalista internos à França. É um grupo de originários da Córsega, com seu dialeto próprio, que comanda. No plano seguinte imediato está a questão racista inerente à controversa discussão sobre os imigrantes no país, aqui representada pela chegada de um jovem árabe ingênuo ao domínio córsico. Temos, portanto, uma visão eminentemente étnica de outra ordem àquela exibida pelas prisões dos Estados Unidos. É um tanto essa rara incursão, assim como a narrativa quase documental e a excelência dos atores, que faz a força dramática do filme previsto para estrear no dia 18. Vencedor do Grand Prix do Festival de Cannes, o título foi o representante da França no Oscar e levou os principais prêmios do Cesar, maior honraria do país.

O reconhecimento tem seu preço. Na medida em que O Profeta deixou Cannes laureado, passou a circular por festivais e estreou fora de casa, não foram poucas as vozes que o atacaram como uma obra colonizada, no sentido de ser moldada na tal tradição do gênero americano de prisão. “Como pode ser americanizado um filme com esses personagens de origem tão característica da França?”, perguntava o diretor em entrevista no festival, antes mesmo de a polêmica ganhar força. O que Audiard não negou, e mesmo assume como ponto importante de influência, são as referências cinéfilas de quem ama os westerns e projetou o cerne temático do gênero em seu filme. Neste, segundo ele, estaria presente muito de O Homem Que Matou o Facínora, clássico de John Ford de 1962. Também não por acaso reverencia seu compatriota Jean-Pierre Melville, que, com policiais como O Samurai (1967), importou as regras da ação do cinema comercial americano. Chegou mesmo a lembrar ter assistido a Carandiru (2003), de Hector Babenco, que promove outra linha do gênero. Mas tudo isso, assegura ele, é lateral a O Profeta. “A proposta maior é dar uma identidade, um rosto a personagens que não têm cara no cinema francês e, por consequência, no país em que vivem.”

Audiard refere-se à comunidade da qual seu protagonista faz parte. Ele buscou identificá-la com a face soturna de Malik El Djebena (o ótimo Tahar Rahim), o jovem francês de origem árabe de 19 anos condenado a uma pena de seis por um crime não muito claro. O que interessa ao diretor é acompanhar o percurso que o rapaz, sem saber ler ou escrever e inocente para a dureza da cadeia, fará ao ingressar nela e se submeter às regras do clã dominante. Estas são ditadas pelo líder, e como tal um veterano do cárcere, onipresente Cesar Luciani (Niels Arestrup, em atuação também impressionante). Sempre acompanhado de um guarda-costas, garantia para um possível ataque do grupo rival árabe, ele decide acolher o recém-chegado e adotá-lo como um predileto. Para tanto, Malik passa por uma primeira missão, espécie de batismo. Tem de assassinar um possível delator e um companheiro seu, Ryad (Adel Benchérif). Passa a ser nesse momento um fator decisivo ao mesmo tempo que fecha o trio de excelência na atuação. A forma como Malik executará o plano de que está encarregado é um requinte da tradição da Córsega, que, não esqueçamos, é uma ilha com forte luta separatista e um calo sempre incômodo ao governo francês. Curioso perceber que, diferentemente do tema redundante do universo americano da prisão, aqui não se almeja a fuga. Os condenados definem muito melhor sua condição de poder e de influência dentro do que fora dela.

Dada a situação, Malik cumprirá seu caminho de ascensão no mundo do crime organizado, que inclui missões fora da prisão através dos passes de saída a ele concedidos. “Daí a alcunha de Profeta que dá título ao filme”, explica o diretor. “Anuncia um novo protótipo de criminoso, que não é um matador, um psicopata deliberado, mas alguém que tem algo de angelical e vai se transformar, ou ser transformado, pelo meio.” Por isso, ainda justifica Audiard, menos ainda que o temperamento de Cesar, em que o silêncio diz mais na hora das decisões, pouco ou nada se sabe sobre o que Malik pensa, as razões de suas atitudes. Nesse aspecto é muito próximo do personagem de Alain Delon em O Samurai. São as circunstâncias do entorno que delimitam algum entendimento dos seus passos, como a recusa em fazer parte da corrente muçulmana que começa a tomar conta do presídio. “Eu vejo essa prisão como uma metáfora, um microcosmo da nossa sociedade, do dominar ou deixar ser dominado; mas não acredito que por causa disso estejamos vivendo numa prisão.”

Filho do respeitado roteirista Michel Audiard (1920-1985), o diretor mostrou ter aprendido a lição de casa. Seu roteiro conjunto com outros três colegas levou quatro anos para ficar pronto e ele garante ser totalmente ficcional. O ato de burilar o texto já se sentia em filmes anteriores do cineasta, como De Tanto Bater, Meu Coração Parou (2005) e, mais distante, Um Herói Muito Discreto (1996), seus poucos títulos que chegaram ao circuito brasileiro. No primeiro, reafirmando suas raízes, Audiard faz a refilmagem do título americano Fingers, de 1978, e a presença de Niels Arestrup, como o pai criminoso, não é a única semelhança com O Profeta. Em construção idêntica, mas oposta no objetivo, temos o aprendizado do filho (Roman Duris) em afastar-se do pai e não se envolver com o crime, tomando para isso a arte do piano legada pela mãe. Ele terá também um mestre, mulher desta vez, uma jovem pianista oriental que não sabe o francês. Audiard diz se encantar com as pessoas que procuram a sobrevivência pela transformação. “São os personagens mais sensíveis e complexos para mim”, afirma. “Por isso Malik carrega em todo o filme uma ambiguidade quanto ao sentimento de culpa, que achamos, de início, seria uma falha de roteiro, mas que depois se mostrou como uma imposição da identidade que ele adquire.” •