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Síntese e memória na pintura

por Orlando Margarido — publicado 10/12/2010 08h50, última modificação 13/12/2010 18h08
Nonagenária, Tomie Ohtake conjuga o ato de surpreender ao gosto pelas formas e cores que a distinguem. Por Orlando Margarido
Síntese e memória na pintura

Nonagenária, Tomie Ohtake conjuga o ato de surpreender ao gosto pelas formas e cores que a distinguem. Por Orlando Margarido

Nonagenária, Tomie Ohtake conjuga o ato de surpreender ao gosto pelas formas e cores que a distinguem
O desenho de um palácio real ao lado da escola secundária, em Kyoto, foi a primeira manifestação artística formal da adolescente Tomie Ohtake.  Mas a prova do feito, então presenteada à instituição de ensino, não significou de imediato garantia de continuidade da vocação. Poucos anos depois, a jovem precisou se preocupar mais em como vencer a resistência da família japonesa tradicional ao gosto pela arte, nada conveniente a uma mulher dos anos 30.
Encontrou a possibilidade em um dos cinco irmãos homens que embarcava para o Brasil em busca de novos negócios. Tomie bateu pé e veio junto, mas curiosamente não retomou de pronto os pincéis. Entre a data de chegada em Santos, em 1936, e a efetiva prática na pintura no início dos anos 50, ela casou com um engenheiro agrônomo Ushio Ohtake e criou os dois filhos, o arquiteto Ruy e o designer gráfico e empreendedor cultural Ricardo.
O resultado é uma carreira iniciada na maturidade dos 40 anos e que segue surpreendendo pela vitalidade, característica estendida também a caprichos pessoais de que Tomie não abre mão. No último dia 21 de novembro, data em que completou 97 anos, ela era uma das convidadas a um camarote do estádio do Morumbi para assistir ao show de Paul McCartney. Dois dias depois, inaugurou nova individual com 25 pinturas inéditas no instituto que leva seu nome no bairro de Pinheiros, em São Paulo. São trabalhos pertencentes à corrente abstrata de que é uma das maiores representantes no Brasil, produzidos nos dois últimos anos na atividade diária de seu ateliê-casa projetado pelo filho. Ali, circundada pelo concreto armado, num amplo salão com vista para o jardim e a piscina, Tomie conta com o auxílio luxuoso de uma clarabóia que exacerba a luz natural em comparação com o exterior. É viva, assim como as cores vibrantes que marcam muitas de suas fases de pintora e gravadora também. Mesmo na arte pública, quando lhe apraz, cobre de vermelho as monumentais esculturas que sugerem ondas e fitas ao vento, a exemplo da peça em homenagem ao centenário da imigração japonesa doada a Santos, cidade do litoral paulista onde ela um dia aportou para mais tarde se naturalizar brasileira.
São poucos os trabalhos como esse que podem designar um vínculo com a trajetória pessoal, íntima da artista. Na fala baixa, pausada, ainda insegura no domínio do português e em vários momentos apoiada na língua materna, Tomie prefere explicar suas opções artísticas antes por gestos naturais, de gosto pelas formas, do que aproximá-las de passagens da vida, aprendizados formais ou influências de colegas e tendências. Autodidata, assente quando muito em lembrar que a economia de elementos em sua pintura talvez venha da mínima composição de objetos da residência em Kyoto, onde a mãe deixava não mais que um vaso com uma flor sobre a mesa baixa para refeições. "Era tudo muito simples, sintético, e minha arte é assim", explica a CartaCapital.
Mas há, isso sim, uma conformidade da obra com um estado de alma oriental ela apenas toca e não decifra de todo, deixando para os muitos estudiosos do seu legado se aprofundarem. Um exemplo esclarecedor diz respeito à recorrência do círculo na sua pintura, forma mais uma vez dominante na nova leva em cartaz, que apresenta variadas apreensões, por vezes dentro da mesma tela. São formatos circulares que se antepõem ou se contrapõem, encobrem a si mesmos, refletem como na ação da água ao ser
tocada, ou ainda representam sentidos simbólicos, como o universo. No conceito do Oriente, seria o determinante do vazio. Na acepção de Tomie, "o redondo", como diz, "significa amor, energia, paz, ou seja, a síntese também".  Uma formulação que pode ser mais bem contextualizada por um dos especialistas em sua obra. "O círculo é a síntese do espaço no mundo e forma mística que representa o ideal de perfeição. Tem um conceito fortemente associado ao zen", comenta o crítico e curador Paulo Herkenhoff por ocasião da mostra. Ele acredita que se a artista não vê uma ligação consciente do seu trabalho com os princípios orientais é porque ela mesma, ao abdicar de uma interpretação intelectual, de verbalizar ou conceituar a obra, alcança por si só uma postura zen.
O ponto de partida de tal condição será representado em breve por uma individual preparada por Herkenhoff para a Pinacoteca do Estado. Na seleção estarão pinturas da primeira fase da artista, que o especialista chama de "séria", e marca sua incursão no abstracionismo, após uma breve experiência no figurativo nos anos de 1952 e 1953 quando decide retomar a vocação.
Curioso notar como a passagem se dá rapidamente em fins de 1953, numa figuração que já se esvanece no abstrato, seguindo essa tendência no ano seguinte e apenas tornando-se lembrança distante dois anos depois. A mostra enfeixará o ano de 1959 e o final da década de 60, momento representativo do abstracionismo informal e adequado para entender como Tomie fez essa travessia. Como sempre em sua carreira, ela toma a decisão solitariamente, sem grandes debates pessoais, mas provocada pela visão dos trabalhos do conterrâneo Keiya Sugano. Ele então expunha na primeira sede do Museu de Arte Moderna paulista, na rua Sete de Abril, mesmo local onde ela faria sua primeira individual, em 1957. "Foi uma descoberta os trabalhos dele, algo que nunca havia visto".
Ao mesmo tempo, o diálogo com críticos de arte como Osório César, Wolfgang Pfeiffer e Geraldo Ferraz, um dos primeiros, aliás, a atentar ao talento abstrato da pintora, pavimentava seu caminho na escola abstrata, situação dividida com outros colegas nipo-brasileiros. Mas o contato com Manabu Mabe, Takahashi, Kaminagai, Tikashi Fukushima e Wakabayashi, por exemplo, se dava mais em função dos salões de arte organizados por esses integrantes do Grupo Seibi do que propriamente uma troca de experiências ou influênciasdeterminantes no estilo da pintura de Tomie. Ela seguia apenas seus interesses e instinto, o que a rigor confere a seu trabalho uma fidelidade e coerência a princípios básicos que ganham mais ou menos evidência de acordo com o período. As formas, de que já se falou no círculo, é um deles. Essa preocupação levou o professor Miguel Chaia a associar uma "precisão geométrica" com o "gosto pela liberdade do gesto".
Em outro fiel território encontra-se a cor. Tomie está na fase do uso de variadas cores, demonstrada pela atual mostra, mas já as reduziu a duas ou três em outros momentos do passado. É a necessidade da representação, como no caso do "passeio pelo círculo" de temas como amor e energia, que a leva a escolher a gama de verdes, azuis, amarelos, por exemplo, nem sempre evidentes aos olhos do público. Engana-se quem imagina uma pesquisa profunda. A primeira vez de que lembra ter ficado impressionada com as cores vivas foi quando, ao pedir um prato de estranho nome em Santos, conheceu o bife a cavalo com arroz e tomate, sua receita brasileira favorita até hoje.
Há teses, claro, mais sofisticadas a respeito da característica da cor no processo de Tomie, como a do crítico e curador Agnaldo Farias, que aponta a "invisibilidade como predicado e homogeneidade tonal decorrente de mesclas cromáticas, às vezes dificilmente perceptíveis, como se fora resultante de um lento processo de decantação". São opiniões múltiplas que Tomie aprendeu a respeitar e não polemiza. "Cada um tem uma ideia sobre meu trabalho e é bom que seja assim", diz. Por isso se empenha igualmente nas pinturas para as galerias e nas esculturas, nos painéis e monumentos dispostos em avenidas, estações de metrô e prédios públicos. "Gosto quando as obras são vistas por muitas pessoas".
Já se falou com frequência da capacidade de invenção e surpresa em sua longa trajetória, o que ela diz não premeditar com tal propósito. Rigor, nem mesmo na hora das pinceladas, que prefere deixar fluir naturalmente. Se há uma atitude metódica, ela está mais no cotidiano da produção. Tomie levanta cedo, entre 6h30 e 7 horas, e antes de começar a trabalhar alimenta-se com uma refeição balanceada à base de arroz, tofu e feijão de soja, além de ler três jornais, um deles em japonês com notícias da comunidade. Para acompanhar a cena artística contemporânea do país natal se vale de uma revista especializada, na qual conheceu o trabalho do badalado artista pop Yoshitomo Nara, seu preferido. Essa predileção um tanto curiosa não surpreende para quem manteve forte laço de amizade com o mineiro Willys de Castro (1926-1988) sem necessariamente beber da tendência neoconcreta ao qual o artista se filiava. Tomie sempre se manteve no lugar artístico que escolheu e lhe é confortável, postura tão natural quanto foi ter se estabelecido na Mooca quando chegou a São Paulo, sendo provavelmente a única oriental a viver entre italianos no tradicional bairro durante três décadas.
A geografia importante para ela é a circunscrita à tela, onde procura também preservar uma identidade de memória e herança cultural. Que o digam agora as pinturas em desenvolvimento no ateliê baseadas na concisa forma poética japonesa dos haikais.