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Silêncio, por favor

por Alexandre Freitas — publicado 17/11/2009 15h57, última modificação 20/09/2010 15h57
A polícia de Berlim aborda o vigia noturno do Instituto de Musicologia. Não é hora de fazer tanto barulho. A hora, umas dez e quinze, o barulho, um quarteto de Haydn. Essa situação é fictícia, mas o fato é que do outro lado da parede de um salão da universidade Humboldt está a residência da família Merkel. Às vezes, Joachim Sauer, marido da chanceler, é obrigado a tomar medidas drásticas para preservar o sono do casal. Eles moram nos últimos andares de um prédio de fachada sóbria em frente à Ilha dos Museus (Museumsinsel), em Berlim.

A polícia de Berlim aborda o vigia noturno do Instituto de Musicologia. Não é hora de fazer tanto barulho. A hora, umas dez e quinze, o barulho, um quarteto de Haydn. Essa situação é fictícia, mas o fato é que do outro lado da parede de um salão da universidade Humboldt está a residência da família Merkel. Às vezes, Joachim Sauer, marido da chanceler, é obrigado a tomar medidas drásticas para preservar o sono do casal. Eles moram nos últimos andares de um prédio de fachada sóbria em frente à Ilha dos Museus (Museumsinsel), em Berlim.

Mas na noite de quinta passada não houve reclamações. Era o recital de pianoforte de Christine Schornsheim, conhecida principalmente como cravista e organista. Apenas em umas poucas ocasiões escutei o som de um pianoforte ao vivo. Lembro-me de duas: recital de canto de Cecilia Bartolli há cinco anos e como acompanhamento dos recitativos do Elisir d’amore há duas semanas. O instrumento está entre o cravo e o piano e leva esse nome devido à possibilidade de gradação das intensidades do som. No cravo as cordas são pinçadas, enquanto nos seus descendentes mais jovens, elas são marteladas. Todas obras de compositores do classicismo musical (século XVIII) foram escritas para o pianoforte.

O recital era uma oportunidade de ouvir um instrumento de 1795, restaurado em 2001. A intérprete teve o cuidado de escolher um programa em que a maioria das obras foi composta em torno da época de construção desse pianoforte. Os compositores eram Kirnberger, Schultz, Fasch, Phillipp Emanuel Bach (filho de Johann Sebastien) e Haydn. Ouvimos sonatas, variações e fantasias, tocadas com liberdade e vigor. Como bis, o último movimento da primeira sonata de Beethoven (op.2, n.1) e um momento patriótico (coisa rara na Alemanha, dizem): variações sobre tema do hino nacional alemão, de Haydn.

Difícil descrever a sonoridade desse instrumento. O que o diferencia do piano moderno, principalmente, é o menor número de teclas e a disposição das cordas, que não são cruzadas. O som dele era mais metálico e parecia de uma complexidade bem maior que o do piano que estamos habituados. O que mais me chamou a atenção foi que havia uma espécie de abafador que transformava completamente a sonoridade do instrumento. Era como o una corda, pedal esquerdo do piano moderno, mas que produzia uma variedade de timbres muito maior. Os prolongamentos do som eram semelhantes aos gerados pelo pedal direito do piano. Só um pequeno detalhe: não havia pedais. Tentei, em vão, ao longo de todo recital descobrir de que maneira a pianofortista alterava os sons do instrumento sem os pés ou botões visíveis. Mais tarde, disseram-me que eram dispositivos acionados com os joelhos. Nunca iria descobrir.

O recital terminou às 22h em ponto, e os policiais da entrada do prédio de Angela Merkel não precisaram intervir desta vez.

No Youtube podemos ouvir Christine Schornsheim em um concerto para pianoforte de Müthel que vale a pena conferir (http://www.youtube.com/watch?v=8pjQW07WEtc).